CAPÍTULO 3

2069 Words
JAMES MOORE Repasso mentalmente a minha conversa com a morena tentando entender se ela concordou ou não em não se meter entre Maia e Damon. Falei sério quando disse que eles são grandinhos, omitindo é claro, a parte em que eu estou intermediando um contrato entre eles. Alejandra age como se Damon fosse o capeta e eu um dos seus agentes prontos para saquearmos a alma de Maia. Ela o faz a troco de nada, pois sequer nos conhece e parece uma águia protegendo seu filhote. Ainda estou no carro, quase chegando em casa, quando meu celular toca e eu o atendo no viva voz, a voz de Damon ansiosa reverberando no ambiente. — Conseguiu? — Levar aquela doida? Impossível. Sua querida noiva esqueceu de tentar convencê-la. E se falou, acho que ela não entendeu o recado. Quer que eu arraste a mulher pela cidade? — Amanhã então. — Ele simplesmente ignora o fato de que Alejandra se recusou a agir conforme os nossos termos e apenas supõe que eu irei resolver. Bem, eu vou, mas haja tanta fé assim em mim. — Hoje Maia saiu com minha avó para vestir a fantasia de noiva Fox. Amanhã ela começará a trabalhar, mas deve ter um segundo para conversar com a amiga. — Ao menos terei tempo de me adaptar a sua brilhante ideia. Sério, genial! — Reclamo. — Ela estava quase desistindo. Alejandra é como se fosse família e ela a quer por perto. — Damon, meu irmão, ela terá. Arrumarei esse visto o mais depressa possível e Alejandra Mondego será toda de vocês. — O que é esse desespero? — Irmão, a mulher está disposta a ficar no nosso cangote, vigiando se você não pretende apenas ferrar a amiga de alguma maneira. — Baseada em que? — E eu vou saber? Deve ser sua péssima capacidade de se manter longe dos holofotes. Ela cismou e está disposta a ficar de olho. Começo a achar que é melhor ela ficar ciente do contrato de vocês. — Se ela está no meu cangote, acha que eu vou usar a amiga e sei lá mais o que, se souber que eu estou pagando pela companhia de Maia… — Esquece. Já me dei conta da minha péssima ideia. Cara, tinham outras milhões de mulheres do Estado. Você pegou a que não quer com a amiga que não deixa. — A que não quer, já foi convencida. Tenho certeza que você consegue dobrar a que não deixa. — Ninguém mandou eu ser perfeito. — Zombo. — Vou mantê-la em silêncio. — Você sabe ser criativo. — Sorte a sua. — Ele ri e desliga. Já em casa, retiro o terno, jogando-o sobre a cadeira e esfrego o cabelo, tirando aquele ar de homem gourmet. Domar minha pequena juba dá um trabalho do cão, mas não gosto de deixá-lo muito curto como minha mãe me obrigou a usá-lo metade da vida. Meu cabelo era rebelde demais para representar o homenzinho burguês que eles amavam exibir, com aqueles suéteres horrorosos. Eu parecia estar constantemente embrulhado para presente. Os cachos se soltam livres e, assim que me sinto mais à vontade, começo a catar documentos importantes e colocá-los no cômodo que eu deveria usar de escritório. Recolho o estritamente essencial, peço um hambúrguer artesanal de quatro carnes e uma cerveja imensa para acompanhar. Minha mãe morreria com os meus hábitos super saudáveis como não dormir, comer ou viver conforme as regras que ela entende ideais. Mas não sei cozinhar e todos os apetrechos que tem na cozinha são apenas simbólicos. De cueca samba canção, corpo relaxado e me desfocando pela primeira vez no dia, começo a assistir um jogo de futebol qualquer, cujo campeonato eu não estou acompanhando, mas é suficiente para me dar segundos de paz. Sim, segundos. O celular berra na mesinha e eu bufo. Damon tem cinco anos e eu sou o pai. É a lógica razoável quando noto a mensagem avisando sobre os paparazzi na floricultura capturando a florista, sua tia e a imigrante ilegal que não queríamos vinculada a Damon. Eu tenho poucas certezas na vida. Mas a maior delas nesse momento é que Alejandra Mondego está virando minha vida, já transtornada, de pernas para o ar. Cerveja quente, hambúrguer de lado e apenas a cueca restando do meu segundo de paz, fico ao telefone prometendo centenas de coletivas para que as fotografias não sejam publicadas. Foco a conversa para Maia, a fim de que ninguém questione sobre Alejandra e, aparentemente, tenho êxito. — Sim, Hannah, você terá uma exclusiva com o mais novo casal de Los Angeles, eu garanto. — Falo com a jornalista mais influente do Estado e uma das fodas casuais que eu já tive. Impressionante que ninguém questiona como eu consigo me livrar dos tabloides tão rápido. — Mas isso apenas se essas fotos não vazarem. — O que escondem para temerem tanto essas fotografias? — A morte de duas senhoras. É apenas por respeito às famílias que ainda estão se adaptando a ideia. Sabe como são essas famílias tradicionais… — Sabe por quanto eu posso vender a história da Cinderela de Los Angeles? — É assim que a estão chamando? — É assim que estamos agregando valor à nossa história. — Bem, sua história ganhará mais valor então se estiver na sessão de obituários onde metade dos Fox irão parar se o próprio Damon não agir antes de vocês. E acredite, você terá apenas essa fotografia que tirou se tudo vazar. E esqueça a cobertura do lançamento da nova coleção. — Ameaço. Hannah fez jus ao direito de representar a imprensa no lançamento, mas dou para um estagiário qualquer se ela não se livrar daquela merda de foto. — Feito. Mas eu quero ser a primeira a fazer a exclusiva e quero um ensaio completo. — De acordo. Você já sabe o que fazer. Conto com sua colaboração. — Sempre, Moore. Vamos nos ver? — No fim de semana. Digamos que tenho feito hora extra. — Damon Fox ainda vai sugar a sua alma. — Ela provoca. — Eu mesmo vou, já que esse é o meu trabalho. Cuide do seu. — Não está mais aqui quem falou. — Cínica. — Aguardo seu contato. Desligamos e eu apenas vou para meu quarto e me jogo na cama para minhas curtas jornadas nos braços de Morpheus, aproveitando minha última noite de solidão no meu apartamento. … Na manhã seguinte, encontro praticamente uma reunião de família no escritório de Damon, Edmund, Sophia, a noiva do ano e meu amigo em uma interação peculiar e engraçada de assistir, pois se eu precisasse retratar uma guerra essa seria a cena. Mantenho-me alheio, vendo como ela se porta e não se deixa render perante Edmund. Nisso ela e a amiga se parecem, como se constantemente tivessem que provar algo para alguém. Assim que Sophia se livra do marido, ficamos os três para assinar os documentos e, enfim, posso viver a minha vida. Bem, parte dela, já que tenho hora marcada com minha hóspede indesejada. Vou para minha sala, após Mary, minha secretária me inteirar dos últimos contratos que os gerentes do jurídico elaboraram, me entrega algumas minutas, me passa uma infinidade de recados e me avisa que Hannah Evans espera na recepção. Maravilha. — Ligue para um dos gerentes do jurídico e diga que… — Olho uma das minutas em minhas mãos. — Diga que eu quero debater sobre o contrato de fornecimento de peças e … — Encaro outra. — e a licitação realizada com os exportadores de óleo diesel. — Mas… — Ela fica me encarando com seus óculos dourados e compreende que inventei tudo para me ocupar ainda mais. — O senhor já tem uma reunião com a diretoria de marketing. O projeto precisa de análise dos direitos autorais e… — E isso você sabe que eu faço em cinco minutos. Ligue para o jurídico. — Peço e ela solta uma risadinha quando entende. — Avise a Hannah que estou absurdamente ocupado. Faço o que eu tinha e não tinha que fazer ao longo do dia, quando bate a hora para encontrar Mondego. Com uma ansiedade que provavelmente alcança uma escala abaixo de zero, obrigo meu corpo a se mover rumo ao nosso ponto de encontro. — Deus, que hoje, ao menos hoje, eu não tenha que separar uma briga. — resmungo no elevador rumo à garagem, onde encontro Hannah apoiada em meu carro, braços cruzados e um olhar que me pede para ir rumo em direção ao seu apartamento, o qual frequentei algumas vezes. — Vou me sentir lisonjeado se disser que esperou um dia inteiro. — Não é para tanto, James. Tenho meus contatos para sempre aparecer na hora perfeita. — O que veio buscar? — Duas coisas. Primeiro, você e, segundo, um contrato que me garanta aquela exclusiva. — E desde quando precisamos de contratos para isso? — A história teve mais repercussão que eu esperava e alguém me ofereceu uma boa grana para publicar qualquer furo. — Grana? Fox? — Questiono sobre a velha raposa. — Imaginei que ele pagaria pelo silêncio, mas é justamente o contrário. Avisei que pensaria na sua proposta, mas que tinha outra melhor. Então, James, eu tenho outra melhor? — Aposte que sim. Te envio o contrato por e-mail, com dia e hora para isso. — Ótimo! Vamos no meu carro ou no seu? Oh tentação do capeta vestida de preto com os cabelos castanhos prontos para serem agarrados com força enquanto eu… Foco. — Que tal cada um no seu? Tenho um compromisso? — Autch! — Ela finge ter sido atingida. — Já fui bem melhor aceita. Desde quando James Moore faz uma mulher implorar? — Brinca. — Trabalho antes… — Prazer em seguida. — Ela solta uma piscadela entendendo que não coloco nada antes do trabalho. Bem, o trabalho em questão é de hospedagem de uma mulher de uma ilegal, escondendo-a da polícia, tornando-me cúmplice perante a imigração, cometendo um crime federal e correndo o risco de terminar sem minha licença para advogar, em um presídio para o orgulho dos meus pais. Porém, um trabalho. E meu ofício está lá, na beira da estrada mais uma vez, carregando uma mochila e olhando apreensiva para todos os lados como se trabalhar para mim também fosse um crime. Mas, basta ela observar meu carro se aproximando, que sua postura muda completamente, queixo erguido em uma postura sempre orgulhosa. Agora, mais próximo, percebo que ela literalmente tem apenas uma mochila. Quem tem todas as coisas da sua vida em uma mochila? Ou será que ela acha que vai ficar dois dias apenas? Ela abre a porta do carro, me cumprimenta vagamente e se senta, colocando o cinto de segurança. Eu fico encarando-a, esperando que me indique uma mala pesada demais para carregar ou, sei lá, outra mochila. Mas, nada. — Vai ficar me encarando? —Você sabe que um visto demora mais de dois dias para sair, não é? Considerando a forma como… — Sim, eu sei. Estou há dois anos em busca de um. Mas não entendi a pergunta. Meu esforço é sobre-humano para disfarçar o fato de que a mulher tem vivido pelas sombras há dois anos. Dois putos anos sem existir para esse país, não estando no seu… uma sombra. — A mochila… — Confesso que fiquei sem jeito de perguntar. É estranho quando se vive em um universo que parece ser em outra galáxia diferente da que ela vive. No meu mundo, todas as coisas de uma vida não cabem em uma mochila. — Solto um pigarro tentando não constrangê-la nesse sentido. — Trouxe tudo o que precisa? — Absolutamente. Vamos, porque você ainda precisa me explicar no que consiste o meu trabalho. Pisco algumas dezenas de vezes olhando-a como uma verdadeira insana. Trabalho? Eu esqueci completamente que, para a mulher, eu a estou empregando e que isso implica em passar-lhe alguma função que definitivamente não existe. Seria simples dizer isso se eu não soubesse que ela pularia do carro e se recusaria a viver às custas de alguém. Não a conheço, mas sendo amiga de Maia, não duvido disso, pois a florista recusou receber cem mil dólares apenas para se passar por um noiva Fox. — Sim, eu tenho. — É só o que eu respondo imaginando o que eu daria para essa mulher fazer em um apartamento que eu quero que se mantenha intacto?
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