ALEJANDRA MONDEGO
Maia fala e fala, mas é como se eu não compreendesse as palavras que saem da sua boca. Eu esperava qualquer resposta maluca vindo dela, quando começamos a ser perseguidas por paparazzi.
Esperava um relacionamento doido com Fox, apesar da gente ter falado m*l dele metade das vezes em que fofocamos sobre a vida das celebridades. Esperava que ela tivesse atropelado o gato dele.
Mas, jamais, nunca em qualquer hipótese eu pensei que ela já fosse ficar noiva do homem.
Noiva!
Enquanto ela segue contanto, minha mente me faz questionar se por algum acaso eu não briguei com Travis, cai e bati a cabeça, ficando em um coma severo por um tempo. Sim, isso tornaria plausível o fato de eu ter perdido todo um relacionamento e chegado na parte do noivado.
Talvez eu tenha atropelado o gato de Damon e a perda de memória seja fruto de uma síncope do medo que eu tenha tido.
Tantas teorias.
— Alejandra, você está me ouvindo? Eu disse que tinha te conseguido algo e você apenas precisava pedir as contas. Eu acho que sua mente anda muito avoada. — Ela ri. — Sério, em que planeta estava quando comentei?
— Ouço, porém não compreendo, pois meu entendimento está em marte. — Digo, encostando a cabeça em um travesseiro macio que tia Lúcia separou para mim.
Morar com as Solis é um pontinho de realização que me aquece por dentro. Quando tudo começou a desmoronar em Guerrero, minha cidade natal no México, viver o sonho americano foi minha única saída.
Bem, eu o batizei de pesadelo americano, já que nunca teria escolhido essa vida para mim.
Nunca.
Nessa terra eu nunca encontrei um lar e estive vagando por tempo demais. Na verdade, ainda no México eu já vagava. Há seis anos eu faço apenas isso e estou exausta.
O último período normal da minha vida foi na adolescência e findou aos meus vinte anos. Lembro-me do meu pai, José Mondego, sonhar alto para nós e desejar que os Mondegos fossem grandes e conhecidos.
Apenas reparei as mudanças sutis, quando a mesa passou a ser excessivamente farta, mamãe começou a andar bem vestida e eu ganhava presentes espetaculares. Terminei a escola no melhor colégio da cidade, sem jamais ter pisado em uma escola particular antes.
Nossa vida mudou e nos tornamos justamente aquilo que José queria. Naquela mesma época conheci mi tesoro. Minha ingenuidade e sonhos de menina apaixonada me fizeram render-me a ele de forma quase definitiva.
Eu vivia e respirava por ele.
Eu era uma extensão dele, um só, sem sequer termos nos casado.
Meu pai não aprovava, mas algo o impelia a aceitar que eu estava apaixonada e apenas via futuro ao lado dele. Ele foi à minha casa, pediu a minha mão e passou a sentar à nossa mesa.
Ele era a espinha dorsal da minha vida e entreguei a ele o meu coração, minhas emoções e o meu futuro. Entreguei tudo, planejando o meu “felizes para sempre”. Sentia-me a mocinha das novelas que minha mãe assistia, mas sem as partes em que os vilões surgem, a inveja destrói e a cobiça mata.
Essa parte não tinha lugar, mas foi duro o segundo exato em que eu descobri que não tinha como abrir espaço para aquilo que era o todo. Eu achava que minha felicidade era do tamanho de um oceano e, no fim, descobri que aquelas águas bravias era tudo, menos felicidade.
Como uma onda impiedosa, o véu sobre os meus olhos caiu e não tive tempo de emergir. As águas escuras levaram e devastaram tudo o que eu acreditava ter e o que eu jamais sonhei ter.
Eu não tive chance de lutar, pois entreguei minha vida espontaneamente ao meu hades particular e ele empurrou-me ao pesadelo americano. Fui submergindo lentamente e, hoje, meus fôlegos ocorrem quando estou com minha família Solis e quando, raras as vezes, consigo algum contato com minha família Mondego.
O que sobrou dela. Minha mãe, Rosa Mondego e nossa angelito, Luna. Elas são tudo o que eu tenho e, mesmo Luna tendo nascido no período mais conturbado, mamãe tem conseguido poupá-la do caos e isso é o que me conforta e me permite aproveitar o conforto nos braços de tia Lúcia e minha irmã Maia, como se fossem a família que deixei para trás.
— Sua mente está longe. — Ela comenta e sorri. Parece uma boneca com essas roupas floridas. Bem, floridas, mas agora bem mais chiques do que o usual.
Não comento, mas me preocupa esse salto profundo que ela deu com Fox, assim do nada. Maia é orgulhosa como eu e, em situações normais, não aceitaria que um homem arcasse assim com suas despesas.
Mas, sei que ela irá falar quando achar necessário e não vou forçar uma situação apenas porque sou eternamente preocupada com o que as pessoas fazem com as outras.
Não brinquei quando disse para James que o preço de uma alma anda mais barato do que ele pensa.
Senti na pele.
— Apenas cansada. Desculpa…
— Que desculpa o que. Está cansada, então descanse.
— Não, por favor, fale de qualquer coisa.. — Eu peço.
— Estava pensando nelas? — Ela pergunta. Maia sabe que morro de saudade delas, mas sequer imagina as estradas tortuosas que nos afastaram. Contei por alto minhas dificuldades, mas sinto que falar sobre tudo o que aconteceu me destruiria de novo.
— Sim. Estou preocupada com elas. Javier…
— Mande-o ao inferno. Amiga, não sei por que você ainda dá ouvidos a esse homem. Ele suga a sua existência, assim como Travis. Sinceramente, não vejo diferença.
— Ele é o único com quem elas podem contar por perto. Apenas preciso garantir o dinheiro. — Minto descaradamente. Javier conseguiu se atar aos Mondego de forma irreversível. E pensar que o recebi como se fosse um príncipe encantado, mas descobrir sua b**********e assim que o encanto se desfez.
— Pelo menos você terá um salário maior.
— Salário?
— Oh, minha tontinha favorita, não ouviu nada que eu disse, não é? James irá empregar você.
— O advogado?
— Sim. Alex, sabe que eles são bem…
— Reconhecidos. Não ficaria bem a melhor amiga trabalhar em um bar… — comento.
— Não é apenas isso. Queremos te manter segura para conseguir seu visto. — Ela joga a bomba no meu colo e eu a encaro como se tivesse três cabeças.
— Visto? Você diz o visto, visto mesmo. Aquele que o governo dá?
— Sim. — Ela sorri. — James é uma espécie de milagreiro e certeza que em outra vida foi algum santo de causas impossíveis, mas nessa vida, ele pode te conseguir um visto.
Estou boquiaberta, pois deixando de temer a imigração eu posso tentar visitá-las e mais. Posso tentar trazê-las e nos livrar para sempre daquela corja.
— Quanto ele irá cobrar pelo visto?
— Nada! É um favor que a noiva do melhor amigo exigiu. Pense como se fosse um presente de noivado. Você irá trabalhar para ele por um tempo, enquanto ele resolve. Amiga, precisará ficar escondida nesse período, para tentar facilitar as coisas e…
— Não manchar a reputação do bonitão. — Não me ofendo. — Não faça essa cara, menina, eu entendo. Ele sozinho já detona a reputação, imagina com uma ilegal no círculo de amizades. Agora entendo aquele papo fresco do advogado. Eu me escondo dentro de um buraco se precisar, apenas para ter esse visto.
— Papo fresco?
— Ele falou coisas sobre zelar por você e sei lá mais o que, pois estava cheio de dedos, provavelmente achando que eu sujaria a cristalina imagem do bonitão. Jamais faria isso, pois agora isso implica você. Mas, ele não precisa saber disso. Gosto de vê-lo escolhendo palavras para falar comigo como se fossemos de outro planeta.
— Acha que ele faz por m*l? — Ela pergunta, quase se ofendendo por mim.
— Não! Não faz, ele só age como uma pessoa que nunca interagiu com uma reles mortal.
— Damon também é assim…
— É?
— Era! — Ela se corrige. — Era. Eles tem muitas questões inatas sobre pessoas de outras classes e, principalmente, imigrantes. O avô é um preconceituoso e aqui nesse estado você sabe que não passamos de…
— Serviço braçal ou putas. — Digo simplesmente e ela baixa os olhos. — Essa é a realidade que a gente encara, amiga. E fico feliz demais por você está mudando essa rota. Eu jamais iria atrapalhar sua história com aquele pedaço de chocolate, principalmente quando você sai rica e eu legalizada disso tudo. Se ele não me arrumar problemas, juro que nem irá perceber minha presença enquanto trabalho.
Ela me encara incrédula.
— Você se escuta? É impossível não perceber você em um ambiente. — Ri.
— Ok. Vou fazer um esforço para abraçar a sutileza que me abandonou quando nasci.
— Você está prometendo ou se iludindo?
— Em alguma dessas duas hipóteses ele começa a me tratar como gente e não como uma espécime rara?
— Iludindo. Anotado. — Ela ri.
Levanto-me e me jogo sobre ela, abraçando-a até tombarmos na cama, fazendo uma algazarra típica de nós duas.
— Obrigada, florista! Você sabe o que o visto significa para mim. Agora, o que eu tenho que fazer?
— Esperá-lo amanhã à noite. Ele irá buscar você. Acho que eu estava tão atordoada que não fui clara da última vez.
— Buscar? Vou trabalhar a noite? Ele não está achando que eu…
— Nãoooo! Céus, que mente! Mulher, te aquieta! Você vai trabalhar na casa dele, morar lá. Você está de mudança, Alejandra Mondego!
Sabe o que eu disse sobre me esconder em um buraco? Será que por algum acaso o ser acima de nós entendeu que era uma metáfora?
— Tudo pelo carimbo do Estado! — Lamento fazendo troça, somente agora entendo o tamanho da questão e do que meu novo emprego implica.
— O que aconteceu com os paparazzi poderia ter te prejudicado muito, Alex. A imigração não está para brincadeiras ultimamente e você sabe. James conseguiu evitar que a notícia se espalhasse, mas se ele não tivesse os contatos certos…
— Eu provavelmente já teria sido deportada. — Fico em silêncio por alguns instantes.
— Desculpa se arrisquei você. — Ela pede.
— Nunca. Você não pode deixar seus problemas, por causa dos meus e vice e versa. Cada uma de nós tem seus gigantes que enfrentar. E você trouxe a solução que eu busco a dois anos, Mai. Dois malditos anos.
— Ficará bem com ele?
— Vou tentar. Ele me parece irritante, mas nada que me impeça de viver. E deve ter uma boa cozinha. — Brinco.
— Agora seu sonho fica mais perto. A futura “Cocina Mondego” não se torna um sonho tão distante.
— Atualmente todos os meus sonhos são distantes, mas aceito de bom grado esse pequeno avanço. Agora, a senhorita me diga por favor como escondeu Damon Fox de mim?
Encaro-a com a sobrancelha erguida acusando-a de guardar segredos justamente de mim.
— Niñas, venham comer, pois fofoca só enriquece o conhecimento, mas não alimenta o corpo. — Tia Lúcia avisa, com as mãos na cintura e nos olhando de esguelha. — E meu corpo tá cheio, mas me falta sabedoria. Andem! Vocês tem muito o que me contar sobre esse novo emprego que dona Alejandra arranjou.
Ela sai, cabeça erguida e ouvidos atentos, pronta para saber de tudo o que conseguir extrair de nós. Lúcia é uma das mulheres mais sábias que eu conheço e, às vezes, eu a acho onisciente, pois não me lembro de ter comentado sobre qualquer emprego já que eu mesma acabo de saber sobre ele.
— Como ela sabe? — Sussurro.
— Estou há vinte e sete anos com ela e até hoje não sei. — Ela dá de ombros aceitando simplesmente o fato de que a mulher mais sábia do mundo tem os melhores ouvidos.