O CASTELO DO REI, O SANGUE DO PASSADO E O INFERNO DE QUATRO PATAS
A tempestade lá fora não era só água caindo do céu escuro, parceiro. Era o próprio ódio de Deus despencando sem freio em cima do complexo do Cruzeiro. Os trovões rasgavam as nuvens pretas num estrondo absurdo que fazia a base do morro tremer, uma sinfonia do apocalipse que mascarava perfeitamente qualquer barulho de tiro de fuzil, qualquer grito de socorro engasgado de sangue, qualquer passo arrastado na lama. Enquanto a favela inteira lá embaixo se encolhia debaixo de telha de amianto e lona furada, com as coroa rezando pra barreira de terra não ceder e a lama não engolir os barracos num deslizamento, aqui em cima a neurose era completamente outra. Aqui é o topo da cadeia alimentar. Aqui quem dita se chove ou faz sol na vida desses vermes sou eu.
A minha mansão, encravada na pedra mais alta e fortificada da comunidade, é uma fortaleza inexpugnável, um castelo erguido na base do ódio e do medo. Um bagulho cinematográfico, erguido com tijolo maciço, concreto armado, blindagem pesada e muito, mas muito dinheiro sujo de sangue, pó e extorsão. A chuva grossa batia no vidro temperado de quarenta milímetros à prova de fuzil da minha sala de estar e escorria sem fazer um maldito barulho pra dentro. O contraste é bizarro, é doentio pra quem tem mente fraca, mas é a realidade nua e crua do meu império. Lá embaixo, o esgoto a céu aberto engolindo a dignidade de quem vive de salário mínimo, os rato nadando no meio da rua; aqui em cima, o piso de mármore italiano brilhando de tão limpo, sofá de couro legítimo que custa mais que a vida de muito comédia que se acha bandido, ar-condicionado torando no talo e um uísque escocês puro malte de vinte e cinco anos descendo, rasgando a minha garganta, aquecendo o peito que a chuva do abatedouro esfriou.
Tô largado na poltrona de couro preto, com as pernas esticadas, folgadão, a pele do peito ainda úmida da chuva misturada com o suor da tortura que eu acabei de aplicar. A Glock 9mm, com o pente estendido de trinta e uma balas, tá deitada na mesa de centro de vidro espelhado, o metal n***o brilhando sob a luz baixa e indireta da sala, fria e letal igual o dono. Na minha frente, cobrindo a parede inteira do chão ao teto, um paredão de monitores de última geração, tela plana gigante, joga uma luz azulada, artificial e fria na minha cara tatuada. É o circuito fechado de segurança da favela inteira, os meus olhos que nunca piscam. Cada beco, cada viela estreita, cada ponto de contenção, cada entrada e saída do Cruzeiro tem uma lente minha apontada, focada e gravando. Eu vejo cada rato que entra e cada barata que sai do meu quintal. Ninguém respira sem a minha permissão.
Nesse exato momento, puxando a fumaça de um charuto cubano legítimo, nas câmeras de visão noturna e térmica, eu acompanho a piada do ano. A maior comédia da madrugada. Os alemão do Comando do Norte.
Os cara acham que tão no sapatinho, o verdadeiro bonde dos fantasma, se arrastando na lama grossa da madrugada, espremidos igual sardinha no beco da Caixa d'Água. Tão subindo em fila indiana, os bico de fuzil apontado pra frente, as caras de o****o tampadas com balaclava molhada, tremendo de frio e achando que vão dar o bote perfeito. Acharam que a informação daquele verme inútil do Pilha ia ser o mapa da mina de ouro, o passe livre pro meu trono.
Eu dou uma risada debochada, seca, uma gargalhada que não tem um pingo de humor, só o mais puro, cristalino e psicopata escárnio. Trago a fumaça grossa do meu charuto, encho o pulmão com a nicotina pesada e solto devagar pelo nariz, vendo a nuvem cinza se espalhar na frente das telas que mostram o desespero adiantado deles. É muita audácia e pouca inteligência, uma burrice que chega a dar pena, achar que o Caveira dorme num clima desse. O trono do inferno não tem travesseiro, maluco. Quem pisca nesse mundo, acorda com a boca cheia de formiga e terra. Eu sou a própria insônia do asfalto, o pesadelo que esses arrombados não sabem que tão prestes a ter. Eles tão marchando direto pra um moedor de carne e nem se deram conta.
No chão da sala, esparramados em cima de um tapete persa autêntico de seda clara,manchando os fios caríssimos com resto de lama, mijo alheio e sangue pisado, grosso e fedorento do X-9, tão os meus generais. A minha verdadeira tropa de elite que não pede arrego, não cobra salário e não trai por propina nenhuma. Zeus, Thor e Luna.
Os três monstros tão ali, calmos, mas não relaxados. O estado de alerta deles é contínuo, a maldade tá impregnada na genética. Eles ofegam pesado, o peito largo de musculatura bruta subindo e descendo no ritmo acelerado, exalando aquele cheiro forte de cachorro molhado misturado com o cheiro metálico e enjoativo de ferro do sangue fresco que eles acabaram de mastigar, dilacerar e engolir lá no galpão. O Zeus, com seus oitenta quilos de puro terror e força motriz, tá deitado com o queixão quadrado encostado na pata dianteira, mas a orelha dele, cortada na faca de qualquer jeito quando era filhote pra dar cara de mau, tá espetada. Rodando igual um radar militar, pescando cada zumbido mínimo que vem do radinho comunicador em cima da mesa de vidro. O Thor tá lambendo a pata manca, limpando meticulosamente o sangue coagulado e os fiapos de pele humana do meio das garras afiadas, com aquele olhar amarelo e injetado de psicopatia canina que parece que enxerga todos os teus pecado e sabe exatamente a que horas tu vai sangrar até morrer. E a Luna... a Luna tá sentada na minha frente, cravada no chão de mármore, parecendo uma estátua de gárgula feita de puro ódio e lealdade cega.
Eu encaro a Luna, o copo de uísque girando devagar na minha mão esquerda, o gelo estalando. A pitbull levanta a cabeça pesada, os músculos do pescoço grosso repuxando sob o pelo curto, que agora tá manchado, emplastrado e duro de sangue escuro. Ela cruza aquele olhar de predador alfa direto no meu olho. É um olhar absoluto. Puro. Cortante. Sem um pingo de maldade fingida, sem falsidade humana, sem segunda intenção, sem ganância suja, sem a inveja do c*****o que o homem carrega na alma desde que nasce.
Eu dou um sorriso torto, admirando a obra de arte que é a mente de um cão forjado só pra matar sob o meu comando. O humano é falho. O humano é um lixo que se vende por qualquer miséria. Mas um cachorro não quer saber se o teu cordão de ouro pesa um quilo e vale uma fortuna. Ele não quer cobiçar a tua mulher de noite, não inveja a potência do teu fuzil modificado, não planeja pelas tuas costas como tomar a tua boca de fumo e, principalmente, não te vende pros verme fardado do batalhão ou pra facção rival em troca de meia dúzia de pino de cocaína e um punhado de nota amassada.
A lealdade humana tem preço, e no morro, esse preço costuma ser barato pra c*****o. A lealdade deles? É cega. Absoluta. Um cachorro só quer a tua presença e a tua liderança implacável. Se eu olhar bem no fundo do olho amarelo da Luna agora e mandar ela pular da p***a dessa janela do terceiro andar, ela pula sem nem pensar na queda, só pra me obedecer. Se eu mandar ela arrancar a própria perna no dente, ela tenta até o osso quebrar e ela sangrar até a morte no meu tapete persa.
Essa é a diferença gritante entre os ratos fardados de preto que tão subindo a minha ladeira agora, achando que são bandido mau, e os generais intocáveis que tão deitados aos meus pés. A humanidade é um erro, parceiro, uma piada de mau gosto. Mas a minha matilha... a matilha é a perfeição da brutalidade encarnada. E esses invasor de merda tão prestes a descobrir como é o gosto do inferno quando o d***o solta a coleira.