A CANETA, O ALVARÁ E O VENENO DA SERPENTE
O mármore polido do Fórum Central fedia a hipocrisia institucionalizada. Era um fedor rançoso, pesado e intragável, muito pior do que o esgoto a céu aberto de qualquer comunidade esquecida ou tratada a pão e pontapé pelo Estado. Eram exatamente seis horas da manhã, o horário exato em que a cidade grande finge que dorme, mas na verdade apenas troca o turno da corrupção, da extorsão e da barbárie acobertada por brasões oficiais e gravatas de grife. Eu caminhava pelo corredor principal daquele tribunal de fachada com a sola vermelha do meu salto Louboutin estalando no piso de cerâmica com a precisão rítmica e fria de um tiro abafado de silenciador.
Toc, toc, toc.
Cada passo que eu dava ecoava nas paredes frias como uma declaração de guerra aberta contra aquele sistema de merda.
Eu sou Lívia Carvalho. Vinte e sete anos de puro veneno, inteligência afiada como uma lâmina de barbear e uma frieza cirúrgica que eu desenvolvi justamente por ter nascido no berço da podridão policial. Criminalista de elite, a ovelha n***a renegada, a desgarrada de uma família que vende a alma, a ética e a mãe em troca de distintivo, cargo e poder de polícia. O asfalto e os engravatados de gabinete acham que a lei é um escudo intocável feito exclusivamente para proteger quem tem saldo bancário gordo, cobertura de luxo e sobrenome tradicional. Eles esquecem, no entanto, que a minha arma não cospe chumbo ogival, não rasga carne na bala e não deixa rastro de pólvora queimada como o fuzil dos bandidos lá do morro ou a pistola ponto quarenta dos tiras corruptos da civil.
Minha arma é a caneta-tinteiro. É a p***a da Constituição Federal interpretada na marra, no ódio e no talento. É a minha capacidade implacável de destruir carreiras jurídicas inteiras, de arrancar a farda de vagabundo e mandar pra vala quem acha que tá acima do bem e do m*l, usando só uma petição fundamentada em pilhas de ilegalidades.
Eu não tava ali pra brincar de ser advogadinha boazinha de porta de cadeia, daquelas emocionadas que pedem favorzinho pra escrivão com voz mansa e decote. Eu tava numa missão de resgate de altíssimo risco contra o meu próprio sangue. Contra a minha própria família de canalhas.
O Lucas, um moleque de dezoito anos recém-completados, recém-saído do ensino médio, trabalhador de carteira assinada, ajudante de pedreiro que não tinha uma única mancha na folha corrida, tinha sido sequestrado de madrugada dentro da própria casa. Foi arrastado da cama pelos cabelos, no meio do choro da mãe idosa, pela corja imunda da 9ª DP. Os verme meteram o pé na porta de madeira podre do barraco do garoto, plantaram meio quilo de pó misturado com fermento e uma garrucha enferrujada debaixo do colchão dele e levaram o moleque no camburão, na base do tapa na cara.
O motivo real dessa barbaridade covarde? O papo reto? O meu queridíssimo irmão mais velho, o delegado Carvalho, tinha acabado de tomar a maior surra histórica da vida dele na noite anterior. O bonde dele tomou um verdadeiro m******e de fuzil, granada e dente de pitbull desferido pela tropa implacável do Caveira, lá no maldito beco da Caixa d'Água. Frustrado, humilhado, com o ego estraçalhado, a tropa dizimada e o orgulho ferido de macho alfa de delegacia, o meu irmão precisava urgentemente de um bode expiatório indefeso. Ele precisava de uma cabeça pra mostrar serviço pra imprensa vendida de manhã cedo, pra meter na tela da TV e abafar o próprio fracasso operacional na favela.
Como o covarde não tem peito pra prender o Caveira de frente, ele escolheu o garoto mais limpo da vizinhança pra mofar na cela três da delegacia dele. Tudo na crocodilagem. Sem mandado de prisão, sem flagrante verdadeiro, sem o menor pingo de legalidade. Uma prisão forjada no puro suco do crime fardado.