Capitulo 4

1508 Words
⚠️ AVISO DE GATILHO Este livro contém conteúdo sensível e cenas intensas. A história aborda tráfico, violência, ameaças, criminalidade, confrontos, sangue e a presença de cães de grande porte, incluindo pitbulls, em situações de tensão e perigo. Algumas cenas podem ser desconfortáveis para leitores que possuem medo de cães, especialmente pitbulls, ou sensibilidade a conteúdos violentos. Aqui, o perigo pode estar em uma arma, em um olhar... ou em quatro patas. Leia com atenção e respeite os seus limites. TRIBUNAL DO MORRO E O CHEIRO DA MORTE O céu tava desabando com um ódio do c*****o pra cima do complexo do Cruzeiro. A chuva caía grossa, na pura ignorância, violenta mesmo, formando uma cachoeira de lama espessa que descia rasgando a ladeira de barro. A água ia arrastando toda a sujeira, o lixo acumulado nas vielas, os estojo de fuzil deflagrado e o pecado podre da favela direto pro asfalto lá embaixo, onde os playboy de apartamento dorme tranquilo, abraçado no edredom caro, achando que o mundo é cor-de-rosa e que a polícia protege eles. No meu mundo, na minha realidade de asfalto sujo, tiro e beco escuro, temporal assim não é desculpa de comédia pra ficar entocado em casa tomando cafezinho quente. Pra mim, tempo fechado é convite VIP. É o clima perfeito, a camuflagem exata da natureza, pra mandar vacilão pro colo do capeta. Eu chego a dar risada sozinho. A água limpa o sangue grosso da pista, apaga qualquer rastro de coturno na lama e, a melhor parte, a p***a do trovão abafa o som do choro, o berro estridente e o desespero de quem tá com o CPF prestes a ser cancelado na base da brutalidade. A chuva é o silenciador de Deus. Tô sem camisa, o vento gelado da madrugada cortando a pele feito uma navalha cega, daquelas que rasga a carne em vez de cortar limpo. O frio arrepia as tatuagens escuras que fecham o meu peito largo, cobrem as minhas costas inteiras e sobem rasgando o meu pescoço até travar na linha da mandíbula. Eu não sinto frio. Eu sinto t***o pela desgraça. O peso do cordão de ouro maciço, grosso que nem corrente de prender moto roubada, com o pingente de fuzil cravado em diamante, balança no meu peito a cada passo pesado que eu dou. É a única p***a que brilha nesse breu do c*****o que engoliu o morro. Visto calça tática preta, cheia de bolso pra carregar pente reserva, coturno militar pesadão enfiado na lama batida até a altura da canela, e a Glock 9mm estalada na cintura. A peça já tá engatilhada, no pente estendido de trinta balas, sem trava nenhuma, só esperando o toque do meu dedo no gatilho pra cuspir fogo na cara de o****o. Eu não tenho essa p***a de roupa de luxo, não tenho caô de bacana, não tenho marra de artista de televisão que paga de bandido em filme. Aqui na selva de pedra, no meio desse moedor de carne que a sociedade chama de comunidade, o meu nome de batismo é Klaus, mas pra pista eu sou o Caveira. O próprio d***o caminhando solto na contenção, cobrando o aluguel da vida. E a Dona Morte não veste terno Armani, parceiro. Ela veste o puro ódio, a bala e a covardia cobrada com sangue e deboche. O galpão abandonado, encravado lá no ponto mais alto, macabro e isolado do morro, fede de longe. Fede a mijo de rato, mofo de parede podre, sangue velho pisado que já virou crosta preta, e puro pavor. O cheiro do terror aqui dentro é tão denso, tão palpável, que dá pra sentir o gosto azedo da adrenalina no céu da boca. Eu respiro fundo essa p***a e abro um sorriso de canto. É o nosso micro-ondas particular, o abatedouro oficial da firma, meu teatro de horrores. É exatamente pra cá que a gente arrasta quem ousa pisar torto na minha jurisdição, quem acha que é mais esperto que o dono do morro, quem acha que pode cuspir no prato que comeu, cheirar do nosso pó, sentar na minha roda e depois meter o louco achando que eu sou cego. Eu meto a bica na porta de ferro enferrujada com a ponta de aço do coturno, sem a menor pressa. O estrondo do metal amassando ecoa lá dentro igual uma granada explodindo, sacudindo as telha de zinco furada de bala. O breu absoluto do lugar é cortado só por uma lâmpada fodida, velha, que pisca no teto no ritmo frenético da chuva lá fora. Aquele estrobo natural joga uma luz amarelada, fantasmagórica e doente direto na cadeira de ferro enferrujada que tá chumbada no cimento grosso do chão. Amarrado nela, já todo desfigurado na porrada, sem conseguir abrir os olhos direito, parecendo um pedaço de carne moída que caiu no lixo, tá o Pilha. O comédia achou que era malandro. Achou que era o rei da inteligência de favela, o Tony Montana do morro. Achou que podia cruzar a linha, cheirar da nossa farinha da mais pura, usar o nome do Cruzeiro pra tirar onda com as p**a no asfalto e sair ileso da pilantragem. O rato sujo vendeu a frequência criptografada do nosso radinho e a rota secreta das nossas cargas pesadas pros alemão fedorento do Comando do Norte. A covardia desse lixo humano, motivada por dívida de crack e ganância de merda, custou a vida de seis cria meus na noite passada. Foi uma emboscada na covardia máxima, tiro pelas costas. Seis moleques de raça que cresceram descalço comigo na viela, que dividiram marmita sentados na calçada, que tavam ali pra defender a nossa bandeira, viraram estampa de saudade em camisa branca de luto por causa de mixaria e vício em pó de um arrombado inútil. Nas minhas mãos grossas, as correntes de aço pesadas tão esticadas no limite, os elos rangendo com a força que eu faço pra segurar o instinto assassino que tá do meu lado. Do meu lado esquerdo, cravando a unha no chão de cimento e arranhando fundo, tá o Zeus. Oitenta quilos de puro músculo preto, ódio e maldade engarrafada em forma de animal. A cara dele é toda deformada de cicatriz de briga de rua e facada que ele já tomou defendendo a boca. Ele tá soltando um rosnado tão grave, tão fundo e cavernoso, que faz o chão de cimento e o meu coturno tremerem. Dá pra ver a veia do pescoço do bicho pulsando de vontade de mastigar crânio. Do lado direito, o Thor. Tá com a pata manca de um tiro de fuzil 762 que tomou de raspão do BOPE numa incursão antiga, mas tá com o peito largo estufado, os músculos travados, os olhos amarelos e injetados de raiva cravados direto na alma suja e encolhida do traidor. E bem na minha frente, repuxando a guia de couro trançado com tanta violência que quase arranca o braço do meu ombro, tá a Luna. A pitbull caçula. A fêmea mais no veneno da matilha, psicopata igual o dono, babando uma espuma grossa e esbranquiçada misturada com o próprio sangue de tanto morder a corrente, louca, alucinada de vontade de destroçar a carne e puxar a tripa do X-9 pra fora. Os três são os cérberos do meu inferno particular, forjados na pólvora e no puro sadismo. — C-Caveira... Klaus... pega a visão... pelo amor de Deus... me escuta, irmão! — A voz do Pilha sai um chiado patético, um murmúrio embargado, nojento, engasgado com o próprio sangue e com os dente quebrado que ele tá mastigando na boca mole. Eu dou uma gargalhada fria, que ecoa batendo nas parede. — "Irmão"? — Eu repito, arrastando a bota no chão até chegar bem perto da cara inchada dele, o deboche escorrendo puro no meu tom de voz. — Desde quando lixo reciclável tem família, ô arrombado? Desde quando eu tenho grau de parentesco com rato de esgoto? Tu tá me confundindo com o corno do teu pai, seu merda. O maluco tá literalmente mijado e cagado na calça. O cheiro de amônia de urina e de merda desce as pernas dele e sobe forte pelo galpão, misturado com o cheiro metálico do sangue escuro e grosso que pinga sem parar do nariz completamente estraçalhado dele. Eu olho pra mancha no chão e balanço a cabeça, rindo do desespero do verme. — p***a, Pilha... Tu não tem nem controle do próprio cu, e achou que podia ter o controle do meu morro? Achou que ia virar dono de facção cheirado de pó, cagando nas calça? — Eu dou um tapa fraco no rosto dele, só de zoação, mas a mão bate molhada de sangue. A tropa da contenção já amassou a cara dele na coronhada de fuzil e no soco inglês, quebrando costela e moendo os dedos dele com alicate antes mesmo de eu subir o morro pra resolver a fita. Deixaram o comédia só no osso, no choro e na humilhação. Mas o papo reto é um só: a sentença final, o martelo do juiz, é minha.
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