Capítulo 1 — O Moretti que Sobrou
LIA
— Pode levantar o véu, filho.
Eu tinha ensaiado esse momento a semana inteira. O sorriso de noiva feliz, os olhos marejados na medida certa, a gratidão educada de uma Castellano que finalmente servia para alguma coisa.
Meu pai me trocou por um acordo de paz. Eu só queria sair daquela igreja inteira, com a minha irmã do lado e o menor número possível de balas no caminho.
Casar com Luca Moretti parecia o jeito mais barato de conseguir isso. Luca sorria, pedia desculpa quando esbarrava nas pessoas e uma vez segurou a porta para mim. Na minha família, isso era praticamente um pedido de casamento.
O tule subiu devagar, e eu dei de cara com o irmão dele.
Dante Moretti me olhava de cima, com uns olhos cinzentos tão claros que pareciam vazios. A cicatriz cortava a sobrancelha esquerda, como se alguém tivesse começado a apagar metade do rosto dele e desistido no meio.
Eu pisquei. Ele continuou lá.
— Cadê o Luca? — sussurrei.
— Não vem.
— Como assim não vem? É o casamento dele.
— Era.
Ele disse isso sem mexer um músculo. O padre pigarreou, e os convidados começaram a cochichar.
Procurei meu pai no primeiro banco. Ele estava muito ocupado analisando o próprio sapato.
Claro. Ele sabia.
Do lado dele, minha irmã Gianna apertava a bolsinha térmica que carregava para todo lado, com os dedos brancos de tanta força. Ela me olhou com a boca entreaberta, e eu soube que, se eu desmaiasse ali, ela ia desmaiar junto. A gente era assim desde pequena.
— Isso é alguma piada? — perguntei, ainda baixinho.
— Eu tenho cara de quem conta piada, Castellano?
Ele tinha cara de quem escutava a piada, pedia para repetirem e depois mandava enterrar o comediante.
— Eu aceitei casar com ele. Com você, não.
— Você aceitou casar com um Moretti. — Ele inclinou a cabeça um centímetro. — Eu sou o Moretti que sobrou.
Olhei para a porta da igreja. Era longe, mas eu estava de salto baixo, graças a Deus e à minha paranoia.
Ele acompanhou meu olhar.
— Pode ir.
— Sério?
— Sério. A porta está aberta. — Ele ajeitou o punho da camisa, bem devagar. — Só lembra que a trégua sai junto com você.
Minha boca secou de uma vez.
— E a minha irmã?
Pela primeira vez, alguma coisa se mexeu no rosto dele. Um canto da boca subiu meio milímetro, como quem acaba de ganhar uma aposta sem fazer esforço.
— A garantia muda de casa amanhã de manhã, de um jeito ou de outro. Você escolhe se vai estar lá para cuidar dela.
A garantia.
Essa era a parte do acordo que meu pai tinha achado brilhante. A família mais fraca entregava alguém para morar com a mais forte durante o primeiro ano de casamento, só para ninguém ter ideias criativas. Ele entregou a Gianna, que tinha vinte anos, desenhava cavalos nas margens dos cadernos e não sabia mentir nem sobre o próprio peso.
Se eu saísse por aquela porta, ela ia entrar sozinha na casa dos Moretti. E sem trégua nenhuma para proteger a menina.
— Filha? — O padre suava. — Podemos continuar?
Duzentas pessoas prenderam a respiração ao mesmo tempo. Ouvi o ranger de um banco, o clique de um isqueiro e o salto de uma mulher batendo nervoso no mármore.
Olhei para a minha irmã uma última vez. Ela balançou a cabeça bem de leve, como quem diz: não faz isso por mim.
Mas eu sempre fiz tudo por ela. Não ia parar logo agora.
— Podemos — falei.
Os votos saíram da minha boca como se fossem de outra pessoa. Prometi amar e respeitar um homem que me olhava como um problema que ele ia resolver com calma, depois do jantar.
Dante não gaguejou uma vez sequer. Disse cada palavra olhando nos meus olhos, com a voz baixa de quem assina um contrato sabendo onde estavam as cláusulas escondidas.
Aí veio o anel.
Ele segurou minha mão, e eu vi os nós dos dedos dele marcados de cicatrizes antigas e novas. No pulso, um relógio de ouro, pesado e fora de moda, grande demais para combinar com o terno impecável.
Os ponteiros estavam parados. Onze e quarenta e sete.
Desviei o olhar tão rápido que quase torci o pescoço. Quem usa um relógio quebrado no próprio casamento?
O anel deslizou pelo meu dedo. Era lindo e servia perfeitamente, o que me irritou mais do que qualquer outra coisa. Alguém tinha medido meu dedo para um noivo e entregado para outro.
— Eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
Dante se inclinou.
Meu corpo inteiro travou. Eu me preparei para a boca dele e para a humilhação de ser beijada por um homem que queria me ver cair da escada.
Mas ele desviou no último segundo e parou com os lábios perto da minha orelha.
— Sorri, Castellano. Tem duzentas pessoas esperando você errar.
Eu sorri. Os aplausos vieram tortos, meio atrasados, como numa plateia que não sabia se o show tinha acabado.
***
O bolo tinha quatro andares e o nome dos noivos escrito em glacê dourado no topo. Alguém tinha raspado o "Luca" com uma faca e escrito "Dante" por cima, num dourado dois tons mais escuro. Dava para ver as letras antigas por baixo.
— Gostou? — Dante apareceu do meu lado, com uma taça na mão que ele não bebia.
— Adorei. Transmite muito bem a espontaneidade do nosso amor.
Ele não riu. Eu já começava a desconfiar que ele tinha nascido sem essa função.
O quarteto de cordas começou uma música romântica demais para o clima do salão.
— A primeira dança — disse Dante.
— Eu passo.
— Não perguntei se você queria.
Ele me levou para o meio do salão, e todo mundo abriu espaço como se fosse um carro blindado passando.
A mão dele encaixou nas minhas costas, firme e quente através do tecido do vestido. Eu odiei perceber o quanto ele era alto. Precisava inclinar a cabeça para olhar para ele, e aposto que ele gostava disso.
— Você segura minha cintura como se eu fosse fugir com os talheres — falei.
— Você pensou em fugir na igreja.
— Pensei em fugir no dia em que aprendi a andar, Moretti. Não leva para o lado pessoal.
Rodamos uma vez. Alguém na mesa dos Castellano começou a chorar alto. Provavelmente uma tia que tinha apostado dinheiro no Luca.
— Por que você? — perguntei. — Seu irmão queria esse casamento. Você claramente não quer nem estar aqui.
— O que eu quero não importa.
— Para um homem que acabou de roubar a noiva do irmão, você fala muito como vítima.
Ele apertou meus dedos só o bastante para eu entender o recado.
— Três dias atrás, alguém colocou três balas no meu pai num estacionamento de Little Italy.
Meus pés erraram o passo. Ele me segurou antes que alguém percebesse.
— Eu sinto muito — falei, e era verdade, mesmo que ele nunca fosse acreditar.
— Não sente. Mas vai sentir.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que, na semana passada, seu pai ameaçou o meu na frente de dez testemunhas. — A voz dele continuava baixa, quase gentil, o que era muito pior. — E agora meu pai está debaixo da terra, e o seu está ali, bebendo o meu vinho.
Olhei para o meu pai. Ele levantou a taça para mim, com um sorriso bêbado e aliviado.
— Meu pai ameaça até o micro-ondas quando esquenta demais a comida — falei. — Ele não tem coragem de matar uma barata.
— Então alguém da sua família tem.
A música subiu. Eu mantive o sorriso no rosto porque era a única coisa que eu ainda controlava.
Tinha uma noite, três dias antes, em que eu não ia pensar. Eu tinha prometido isso a mim mesma. Não ia pensar nela ali, com a mão dele nas minhas costas e aqueles olhos vazios lendo cada movimento da minha boca.
— Então é isso — falei. — Você casou comigo para me vigiar.
— Casei com você para ter os Castellano dormindo debaixo do meu teto. Se alguém da sua casa puxou aquele gatilho, uma hora alguém vai falar demais. E eu vou estar ouvindo.
— E se ninguém da minha casa souber de nada?
Ele girou comigo mais uma vez, e meu rosto ficou perto demais do dele. Senti o cheiro da loção pós-barba, amadeirada e cara, que não combinava nem um pouco com a vontade dele de me ver sofrer.
— Então vai ser um casamento muito longo.
A música acabou. Antes que eu conseguisse me soltar, uma mão tocou meu ombro.
— Posso roubar a noiva um minutinho, figlio mio?
O homem tinha uns sessenta anos, cabelo grisalho penteado para trás e o sorriso mais simpático do salão inteiro. Era o único ali que parecia feliz de verdade por estar num casamento.
Dante me soltou na hora.
— Tio Salvatore.
— Vai, vai, cumprimenta os velhos da Comissão. Eles estão reclamando que você não passou na mesa deles. — Salvatore deu dois tapinhas no rosto do sobrinho, e eu quase caí para trás ao ver que Dante deixou. — Eu cuido da sua esposa.
Dante me olhou por um segundo, como quem avisa: comporte-se. Depois atravessou o salão.
Salvatore pegou minha mão com delicadeza, como se eu fosse de porcelana.
— Não liga para o meu sobrinho, ragazza. Ele puxou o pai: late muito, mas quase nunca morde.
— Quase nunca?
— Ninguém é perfeito. — Ele riu e me conduziu num passo lento, desses que os avôs dançavam em festa de família. — Você fez uma coisa muito corajosa hoje. Podia ter corrido.
— Pensei nisso.
— Todo mundo pensa. Poucos têm estômago para ficar.
A música terminou. Ele sorriu, satisfeito, e me puxou para um abraço apertado de boas-vindas.
E eu senti o cheiro.
Charuto. Doce, enjoativo, com um fundo de cereja que grudava na garganta.
Meu corpo parou de me obedecer. Os dedos ficaram frios dentro das mãos dele. Minhas pernas travaram no lugar, como se o chão tivesse virado cimento fresco e secado de uma vez só.
Fiquei ali, com o queixo no ombro de um homem que eu m*l conhecia. Contei os fios do paletó dele para não gritar.
Um. Dois. Três.
— Tudo bem, querida? — Ele se afastou só o bastante para me olhar. — Ficou pálida.
— Sapato novo — consegui dizer. — Está me matando.
— Ah, os sapatos. — Ele riu e soltou minhas mãos. — Coisa de noiva.
Ele olhou por cima do meu ombro, para a mesa onde a Gianna beliscava um pedaço de pão. Estava sozinha, com a bolsinha térmica no colo.
— Sua irmãzinha parece cansada. Alguém precisa cuidar bem dela, naquela casa grande. — Ele ajeitou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — Bem-vinda à família, ragazza. Aqui a gente sempre cuida dos nossos.
Ele se afastou distribuindo abraços e tapinhas nas costas pelo caminho. Eu fiquei parada no meio da pista, com o gosto de cereja ainda na garganta.
Precisava de ar. Precisava de uma parede, de uma janela, de qualquer lugar onde ninguém estivesse me olhando.
Atravessei o salão sorrindo para desconhecidos e segui pelo corredor dos banheiros. Encostei na parede fria, fechei os olhos e contei até dez. Depois até vinte.
Não adiantou.
— Fugindo da própria festa?
Abri os olhos. Dante estava no fim do corredor, com as mãos nos bolsos. Bloqueava o caminho de volta como se tivesse sido construído ali junto com o prédio.
— Tomando ar — falei.
— Toma rápido. A gente vai embora em dez minutos.
— Para onde?
— Para casa. — Ele começou a andar na minha direção, sem pressa. — A nossa casa.
Eu não recuei. Também não tinha para onde: atrás de mim, só a parede e um quadro torto de uma paisagem da Toscana.
Ele parou tão perto que eu precisei inclinar a cabeça de novo. O relógio parado brilhou no pulso dele quando ele apoiou a mão na parede, ao lado do meu rosto.
— Você foi bem hoje, Castellano. Sorriu quando mandei. Dançou quando mandei. Não chorou nenhuma vez.
— Quer um troféu ou posso te agradecer por escrito?
Ele se inclinou até a boca dele ficar a um dedo da minha orelha, exatamente como no altar. Só que dessa vez ninguém estava olhando.
— Hoje à noite, você vai me contar onde estava quando meu pai morreu.