O tiro ecoou pela favela. Por um segundo, ninguém se moveu. Ninguém respirou. Ninguém piscou.
Então Marconi sorriu. Meu coração afundou, porque eu tinha errado. No último instante ele desviou; a bala passou raspando sua cabeça.
— Eu esperava mais.
Meu sangue ferveu. Levantei a arma novamente, mas dessa vez ele foi mais rápido. Um dos homens dele me agarrou por trás.
— Solta ela! — Relíquia rugiu.
Tiros explodiram por todos os lados. O caos voltou. Mas agora eu era o centro dele.
Marconi caminhou lentamente até mim, como se não houvesse uma guerra acontecendo. Como se tudo aquilo fosse apenas mais um dia comum.
— Você tem o temperamento do seu pai.
Cuspi no chão.
— Vai se ferrar.
Ele riu.
— Exatamente assim.
Meu ódio só aumentava. Porque quanto mais ele falava... Mais parecia me conhecer. Mais do que deveria. Foi então que ouvi um grito. Matador.
— RAÍSSA!
Virei a cabeça. E vi. Matador correndo na nossa direção. Atirando. Abrindo caminho. Igual um homem possuído. Igual alguém disposto a morrer. Por mim.
Meu coração apertou. Porque naquele instante eu entendi uma coisa. Tudo podia ser mentira. Tudo podia ser segredo. Mas o jeito que ele me olhava nunca foi. Nunca.
Uma rajada atingiu o chão perto dele. Outra. Mais uma. Mesmo assim ele continuou avançando.
— MATADOR! — pela primeira vez, fui eu quem gritou.
Marconi observava tudo. Calmo. Frio.
— Impressionante.
— Cala a boca.
— Ele realmente te ama.
Meu sangue gelou. Porque aquela frase foi dita para machucar. E funcionou.
Foi então que tudo aconteceu rápido demais. Relíquia conseguiu derrubar o homem que me segurava. Eu me soltei. Matador chegou até nós. E Marconi apontou a arma. Direto para mim.
O tempo desacelerou. Eu vi. Matador viu. Relíquia viu. Todos viram.
O disparo aconteceu. Mas não me atingiu. Porque alguém entrou na frente.
Meu coração parou. Completamente. Porque quando a fumaça se dissipou... Vi Relíquia. Parado entre mim e a bala. Imóvel. Os olhos fixos nos meus. E uma mancha vermelha crescendo em sua camisa.
— Não...
A palavra morreu na minha garganta. Relíquia cambaleou. Uma vez. Duas. E caiu.
O mundo inteiro desapareceu. Os tiros. Os gritos. A guerra. Tudo. Porque naquele momento... Só existia ele. Corri. Me ajoelhei ao seu lado.
— Relíquia!
Minhas mãos ficaram cobertas de sangue.
— Não faz isso.
Ele tentou sorrir. Tentou. Mas m*l conseguiu.
— Você sempre fala isso.
Lágrimas queimaram meus olhos.
— Cala a boca.
— Tá chorando por mim?
— Cala a boca!
Pela primeira vez em anos... Minha voz falhou. E pela primeira vez... Relíquia pareceu feliz. Porque ele finalmente tinha ouvido aquilo. Não em palavras. Mas no meu desespero. E então ele segurou minha mão.
— Agora ele sabe.
Meu coração apertou. Porque eu sabia exatamente de quem ele estava falando. Matador. E quando levantei os olhos... Encontrei o olhar do chefe. Escuro. Dolorido. E cheio de uma verdade que ninguém mais podia ignorar.
Eu amava Relíquia. E Matador acabava de perceber isso.