Capítulo 32

503 Words
O tiro ecoou pela favela. Por um segundo, ninguém se moveu. Ninguém respirou. Ninguém piscou. Então Marconi sorriu. Meu coração afundou, porque eu tinha errado. No último instante ele desviou; a bala passou raspando sua cabeça. — Eu esperava mais. Meu sangue ferveu. Levantei a arma novamente, mas dessa vez ele foi mais rápido. Um dos homens dele me agarrou por trás. — Solta ela! — Relíquia rugiu. Tiros explodiram por todos os lados. O caos voltou. Mas agora eu era o centro dele. Marconi caminhou lentamente até mim, como se não houvesse uma guerra acontecendo. Como se tudo aquilo fosse apenas mais um dia comum. — Você tem o temperamento do seu pai. Cuspi no chão. — Vai se ferrar. Ele riu. — Exatamente assim. Meu ódio só aumentava. Porque quanto mais ele falava... Mais parecia me conhecer. Mais do que deveria. Foi então que ouvi um grito. Matador. — RAÍSSA! Virei a cabeça. E vi. Matador correndo na nossa direção. Atirando. Abrindo caminho. Igual um homem possuído. Igual alguém disposto a morrer. Por mim. Meu coração apertou. Porque naquele instante eu entendi uma coisa. Tudo podia ser mentira. Tudo podia ser segredo. Mas o jeito que ele me olhava nunca foi. Nunca. Uma rajada atingiu o chão perto dele. Outra. Mais uma. Mesmo assim ele continuou avançando. — MATADOR! — pela primeira vez, fui eu quem gritou. Marconi observava tudo. Calmo. Frio. — Impressionante. — Cala a boca. — Ele realmente te ama. Meu sangue gelou. Porque aquela frase foi dita para machucar. E funcionou. Foi então que tudo aconteceu rápido demais. Relíquia conseguiu derrubar o homem que me segurava. Eu me soltei. Matador chegou até nós. E Marconi apontou a arma. Direto para mim. O tempo desacelerou. Eu vi. Matador viu. Relíquia viu. Todos viram. O disparo aconteceu. Mas não me atingiu. Porque alguém entrou na frente. Meu coração parou. Completamente. Porque quando a fumaça se dissipou... Vi Relíquia. Parado entre mim e a bala. Imóvel. Os olhos fixos nos meus. E uma mancha vermelha crescendo em sua camisa. — Não... A palavra morreu na minha garganta. Relíquia cambaleou. Uma vez. Duas. E caiu. O mundo inteiro desapareceu. Os tiros. Os gritos. A guerra. Tudo. Porque naquele momento... Só existia ele. Corri. Me ajoelhei ao seu lado. — Relíquia! Minhas mãos ficaram cobertas de sangue. — Não faz isso. Ele tentou sorrir. Tentou. Mas m*l conseguiu. — Você sempre fala isso. Lágrimas queimaram meus olhos. — Cala a boca. — Tá chorando por mim? — Cala a boca! Pela primeira vez em anos... Minha voz falhou. E pela primeira vez... Relíquia pareceu feliz. Porque ele finalmente tinha ouvido aquilo. Não em palavras. Mas no meu desespero. E então ele segurou minha mão. — Agora ele sabe. Meu coração apertou. Porque eu sabia exatamente de quem ele estava falando. Matador. E quando levantei os olhos... Encontrei o olhar do chefe. Escuro. Dolorido. E cheio de uma verdade que ninguém mais podia ignorar. Eu amava Relíquia. E Matador acabava de perceber isso.
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