Capítulo 01
Dor que Grita em Silêncio
Raíssa 🌪️
Eu não escolhi nascer. E, se pudesse, talvez nem tivesse vindo. Nasci no meio da merda, cresci no meio do caos. Desde cedo aprendi que, nesse mundo, ou você endurece... ou some. Nunca tive ninguém por mim. Nunca pude abaixar a guarda. Tive que virar mulher antes de ser criança. Viver, pra mim, sempre foi um ato de resistência.
A caixa tava em cima da cama. A seringa ao lado. Meus dedos tremiam, mas minha mente tava firme. Eu sabia o que precisava fazer.
Respirei fundo. Mais uma vez. Pela milésima vez naquele dia. Bruce me olhava calado, segurando o choro, com os olhos marejados, como se estivesse tentando passar força só no olhar.
— Tem certeza que quer fazer isso, Raíssa? — ele perguntou de novo, a voz baixa, como quem já sabe a resposta.
— Tenho, amigo. Vai ser o melhor. Pra mim... e pro bebê. — respondi, pegando a seringa da mão dele.
— Então tá. O corpo é teu, a decisão também. E eu vou tá aqui com você, sempre. — ele me abraçou forte, como se quisesse me proteger de tudo.
Eu fechei os olhos por um segundo, tentando lembrar como tinha chegado até ali. Uma gravidez indesejada. Mesmo com camisinha, mesmo com pílula do dia seguinte. Uma noite de loucura. Álcool, droga, mente embotada. E um cara que eu m*l sabia o nome. Ele não queria ser pai. E eu... eu nunca quis ser mãe.
Eu sabia o que era ser filha indesejada. Sabia o que era crescer com raiva do mundo e fome no estômago. Sabia o gosto amargo de roubar comida pra não morrer. Sabia a dor de dormir com medo e acordar com desespero. Eu não queria isso pra mais ninguém.
— Vão me chamar de monstro — murmurei pra mim mesma.
Mas eu não ligo. Podem me julgar o quanto quiserem. Quando começarem a pagar minhas contas, aí talvez eu ouça. Até lá, f**a-se.
A maternidade não é conto de fadas. Não pra quem nasceu onde eu nasci. Não pra quem vive como eu vivo. Eu não ia romantizar essa dor. Não ia fingir que tudo ia dar certo no final.
Se era pra colocar mais uma criança no mundo só pra ela sofrer, então não. Eu me recusava. Não com o meu corpo. Não com a minha história.
Quando apliquei, meu coração disparou. Doeu mais na alma do que no corpo. Mas eu respirei fundo. Era o certo pra mim.
⏰⏰⏰
Horas depois, a dor começou. Uma cólica avassaladora, como se alguém estivesse me retalhando por dentro. Me encolhi na cama, suando frio, o lençol todo embolado sob meu corpo nu e frágil.
— Bruce... — gemi, com os olhos apertados, sentindo a dor me dominar. — Tá doendo muito...
— Você foi muito corajosa, amiga — ele respondeu, passando a mão no meu rosto com carinho. — Vai passar. Vai ficar tudo bem, eu prometo.
Ele puxou uma cadeira e ficou do meu lado, atento a cada movimento meu. Pegou uma toalha molhada, limpou meu suor, ajeitou meu travesseiro. Me tratava com um cuidado que ninguém nunca teve comigo.
Bruce era o único que me via além da casca dura, além da boca suja, além da pose de quem aguenta tudo. Ele sabia que eu era só uma menina cansada, tentando sobreviver num mundo que nunca me deu escolha.
— Eu... eu não vou aguentar... — murmurei, com a voz entrecortada. Eu tremia, tentava me manter forte, mas meu corpo gritava. Meu coração também.
— Vai sim. Você é forte, Raíssa. A mais forte que eu conheço. — ele disse, se deitando ao meu lado. Me puxou pro peito dele, e ali, no abraço mais seguro do mundo, eu deixei uma lágrima escorrer.
— Tô aqui. Vou ficar contigo até você dormir. Pode descansar... eu tô aqui.
Fiquei em silêncio, tentando ignorar a dor. Me concentrando na respiração dele, no calor do corpo dele junto ao meu. Eu sabia que podia contar com ele pra tudo. Bruce era mais que um amigo. Era o irmão que a vida me deu. O único que me enxergava de verdade.
E naquela noite, enquanto o mundo lá fora seguia sua loucura, eu fiquei ali. Encolhida, dolorida, vazia. Mas, de algum jeito, com ele do lado... um pouco mais viva.