Silêncio Depois da Tempestade
Raíssa 🌪️
Acordei com os olhos pesados e o corpo doído, como se eu tivesse apanhado a noite inteira. O sol ainda não tinha subido direito, e a luz fraca da manhã m*l entrava pela janela. Tudo doía. Doía por dentro, mas doía mais ainda por fora. Era um vazio novo, pesado, silencioso.
Bruce ainda tava ali, sentado no chão, encostado na parede, de cabeça caída pro lado. Devia ter cochilado me vigiando. Até dormindo ele parecia preocupado. O cabelo bagunçado, a blusa suada. Aquele moleque tinha um coração do tamanho do mundo.
Me mexi devagar, sentindo o lençol grudar nas pernas. Havia manchas de sangue no tecido. Não era algo bonito de se ver, mas era o que restava da noite anterior. A consequência de uma escolha que não se desfaz.
Respirei fundo e sentei na cama, mesmo com a cabeça girando um pouco. Meus olhos foram direto pra janela. O céu tava nublado, e eu sorri de canto. Sempre preferi dias nublados. Com o sol escondido, parecia que o mundo também ficava mais quieto. Mais parecido comigo.
— Tá viva? — ouvi a voz rouca do Bruce, ainda meio dormindo.
— Por pouco — respondi, com a voz fraca, mas com aquele meu jeito debochado de sempre.
Ele se levantou, espreguiçando o corpo cansado, e sentou ao meu lado na cama.
— Tu devia descansar mais um pouco. Tá muito pálida, Raíssa.
— Eu tô bem. — menti. — Já aguentei coisa pior.
— Eu sei... — ele respondeu baixinho, olhando pro lençol sujo de sangue. — Mas não precisava ser assim. Não sozinha.
Me calei. Às vezes o Bruce esquecia que eu aprendi a ser sozinha desde pequena. Ninguém nunca me deu a mão. Nem quando eu precisei. Nem quando eu implorei.
Fechei os olhos e, por um segundo, fui jogada de volta pra um beco escuro, aos nove anos. Eu escondida atrás de uma pilha de entulho, com o estômago colado nas costas e as mãos sujas de farinha. Lembro do cheiro de comida vindo da casa de cima, e da vergonha de ter roubado um pacote de biscoito vencido. O dono do mercadinho me pegou, me bateu com a cinta nas costas e ainda me chamou de peste.
Naquela noite, dormi com fome. Com dor. Com ódio.
Foi ali que prometi nunca mais depender de ninguém.
— Ei — Bruce me chamou de volta ao presente, passando a mão no meu cabelo bagunçado. — Quer tomar um banho? Eu troco os lençóis pra tu.
Assenti com a cabeça. A água talvez ajudasse a limpar um pouco do que eu tava sentindo. Mas no fundo eu sabia... tem coisa que nem a água lava.
Me levantei com dificuldade, e ele me ajudou a caminhar até o banheiro. Fiquei olhando pro espelho por um tempo antes de entrar no chuveiro. Eu tava abatida. Olhos fundos, lábios secos. Uma mulher esgotada. Mas ainda assim, viva.
E por incrível que pareça, isso já era muita coisa.
Deixei a água cair sobre mim. Quente. Pesada. Como se estivesse levando embora tudo o que restava daquela noite.
Ali, sozinha, me permiti chorar. Baixinho. Sem alarde. Só eu e a água misturada com as lágrimas. Um choro contido, quase calmo, como quem sabe que precisa continuar mesmo depois de quebrada.
Quando voltei pro quarto, Bruce já tinha arrumado tudo. Lençol limpo, copo d’água no criado-mudo, ventilador ligado. Ele me esperava sentado, com aquele olhar de quem não ia sair dali tão cedo.
— Obrigada — sussurrei, deitando de novo.
— Por nada. Tu faria o mesmo por mim.
Me virei de lado, encarando a parede, e puxei o lençol até o queixo. A dor física tinha dado uma trégua, mas por dentro, eu sabia... a ferida ia demorar pra fechar.
Mas ia fechar.
Porque, como tudo na minha vida, eu ia dar conta. Sozinha ou com ele do lado. Eu sempre dei.