Capítulo 03

639 Words
A Máscara que Protege Raíssa 🌪️ O lençol limpo cobria meu corpo, mas dentro de mim ainda havia um campo de batalha em silêncio. Eu tava ali, parada, ouvindo os sons lá fora. O morro começava a acordar. Vozes, passos, música de algum rádio ligado. A vida seguia. E eu... eu também precisava seguir. Bruce ainda tava ali, sentado na beirada da cama, quieto, respeitando meu tempo. — Hoje é dia de ronda, né? — ele perguntou, como quem já sabia a resposta. — É. — murmurei, com a voz seca. — E eu não posso sumir por mais de dois dias. O pessoal já começa a inventar história. — Então finge. Finge que tá tudo bem. Faz teu teatro. Mas, quando voltar pra cá, tira essa armadura, nem que seja por meia hora. Me virei pra ele, encarando com olhos que já não sabiam mais chorar. — Eu não tenho esse luxo, Bruce. No morro, se tu piscar, alguém pega teu lugar. E eu não vou deixar isso acontecer. Levantei com dificuldade, indo até o guarda-roupa. Peguei meu short preto de cós alto, a blusa regata que me dava liberdade de movimento e o coturno surrado que já era quase uma parte de mim. A dor ainda cutucava por dentro, mas eu aprendi a conviver com dor desde pequena. Bruce me observava calado enquanto eu me vestia, amarrando o cabelo no alto como quem se prepara pra guerra. — Vai com calma hoje, por favor. — ele pediu, mas sabia que era em vão. — Calma não combina comigo, irmão. — dei um meio sorriso, sem humor. — Eu tenho um nome a zelar. No morro, ninguém sabe da minha vida. Ninguém nunca soube. Sabem da Raíssa durona, que anda com arma na cintura e desafia qualquer um com o olhar. Sabem da mina que responde direto pro chefe, que cuida dos corres, resolve as tretas, cobra os atrasos. Mas ninguém sabe da mulher que quase desmoronou numa madrugada silenciosa, com o corpo doendo e o coração vazio. E nem vão saber. A rua me recebeu com aquele calor abafado, cheiro de maconha no ar e os olhares de sempre. Uns de respeito. Outros de medo. Alguns de inveja. Mas todos sabiam que, ali, eu era a que mandava. — E aí, Raíssa, sumida! — gritou um dos meninos da boca. — Tava resolvendo uns bagulho fora. Mas já voltei. — respondi firme, com o tom de quem não dá espaço pra pergunta. Passei por eles como se nada tivesse mudado. Mas tudo tinha. E ninguém podia notar. No morro, fraqueza é cheiro de sangue. E eu não podia dar esse gosto a ninguém. Fui até a laje de observação, peguei meu rádio, chequei as mensagens, atualizei as ordens do dia. Falei com os caras da segurança, repassei os horários da entrega da carga da noite. Fiz o que sempre fiz. No automático. Mas com a cabeça latejando. Cada passo que eu dava era um lembrete do que eu tinha feito. Mas cada palavra firme que eu soltava, era uma forma de me lembrar que ainda era eu. Que ainda tava no controle. Ninguém precisa saber que chorei. Ninguém precisa saber que quase desisti. Só eu sei o que eu fiz. E foi por mim. Foi pela mulher que eu me tornei. Pela menina que sobreviveu. E por aquela criança que eu decidi não deixar nascer num mundo como esse. — Raíssa, fecharam a favela de baixo. Estão revistando geral lá. — disse um dos soldados, chegando na laje. — Fica em alerta. Quero os dois becos monitorados e rádio ligado direto. Se subirem, é pra avisar, não pra agir. — respondi, já com o sangue fervendo de novo. A guerreira voltou. Pelo menos, era isso que eles viam. Mas lá dentro... eu ainda era uma cicatriz aberta.
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