Capítulo 04

612 Words
Sombra na Retaguarda Raíssa 🌪️ A manhã foi passando devagar, o sol começou a bater forte nas lajes e a favela ficou naquele estado morno — o tipo de silêncio que antecede o estouro. Eu já conhecia esse cheiro no ar. Era tensão, era perigo. Mesmo com a cabeça latejando e o corpo ainda sensível, mantive minha postura. Dei ordens, repassei rota, organizei ronda. Na frente dos outros, eu era a mesma Raíssa de sempre. A que fala pouco, mas que ninguém tem coragem de contrariar. Só que... tinha um olhar me incomodando. Um olhar que não desviava. Era do Biel, um dos moleques da contenção. Tinha vinte e poucos anos, morava na parte alta e sempre foi observador demais pro meu gosto. Nunca gostou de mim de verdade, mas respeitava. Porque sabia que eu era quem resolvia. Só que naquele dia, ele me encarava diferente. Como quem vê uma rachadura num muro antigo. — Tá tudo certo contigo, Raíssa? — ele soltou, com aquela voz mansa e disfarçada de respeito. Mas eu li nas entrelinhas. — Por quê? Tô com cara de morta? — respondi seca, ajeitando o rádio no cinto. — Não. É que tu ficou uns dias fora, e agora tá meio... sei lá. Sumida demais. Calada demais. — ele forçou um sorriso falso. — Tu nunca foi de desaparecer. — Quando eu quiser ser monitorada, eu te aviso. — sorri de lado. — Cuida da tua função, que da minha cuido eu. Ele levantou as mãos em sinal de paz, mas o recado tava dado. Alguém tava prestando atenção demais. E no morro, isso nunca é bom. Desci a laje com o sangue fervendo. Cada passo que eu dava era mais pesado. Não era medo. Era raiva. Raiva de saber que, por mais forte que eu tentasse parecer, sempre ia ter alguém pronto pra farejar fraqueza. Como se fosse crime... sentir. Voltei pra minha casa. Fechei a porta. Encostei a testa na madeira. Precisei respirar fundo. Naquela hora, meu corpo cobrou tudo de novo. O corte da dor voltou. Aquela pressão baixa, o enjoo leve. Mas eu não podia parar. Ainda não. Lavei o rosto, amarrei o cabelo de novo. Borrifei perfume no pescoço e peguei a pistola que ficava embaixo do travesseiro. Coloquei na cintura como se fosse parte de mim. Eu era a Raíssa. Braço direito do chefe. Responsável pela contenção da área alta. E ninguém, absolutamente ninguém, podia saber que na noite anterior, eu quase não levantei da cama. Mas se o Biel tava atento, outros podiam estar também. Peguei o celular e mandei mensagem rápida pro Bruce: > "Cuidado com o Biel. Tá farejando demais. Se ele perguntar algo, desconversa. Tamo junto." A resposta veio segundos depois: > "Já peguei a visão. Qualquer coisa, te ligo. Tô contigo, até o fim." Bruce era minha linha de frente e minha retaguarda. Era quem sabia a verdade — toda a verdade. E, por isso, era também meu único ponto vulnerável. Se pegassem ele, se torturassem por informação... eu tava lascada. Abri a janela e olhei o morro de cima. Gente indo e vindo, moto subindo, criança jogando bola. Vida comum. Mas por baixo da rotina, o terreno tremia. Eu sentia. Biel não ia parar. Alguém ia alimentar a dúvida dele. E uma mulher no poder, já é algo difícil de engolir pra esses moleques com ego inflado. Uma mulher que some por dois dias e volta com o olhar meio perdido? É motivo pra cochicho. Eu precisava agir rápido. — Chega de luto, chega de dor. — falei pra mim mesma. — Agora é guerra de novo. E se alguém tentasse me derrubar... ia cair primeiro.
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