Capítulo 04

1561 Words
RAÍSSA Eu estava caçando um traidor. E a obsessão por essa busca me transformava em algo muito mais perigoso do que qualquer arma carregada na minha cintura. Desde a minha última visita àquela maldita cadeia, as palavras cortantes do Matador não abandonavam a minha cabeça por um segundo sequer: alguém de dentro o havia vendido. Eu acreditava na intuição dele com todas as minhas forças. Mais do que isso, eu sentia no meu íntimo que ele estava coberto de razão. O grande problema era descobrir a identidade daquele rato, porque, no submundo do crime, ninguém entrega a própria pele ou a cabeça do chefe de graça. — Quero os nomes exatos de todo mundo que sabia da movimentação estratégica daquele dia — ordenei, batendo com a palma da mão na mesa de madeira. A sala de reuniões mergulhou em um silêncio sepulcral. Os homens ali presentes me encararam fixamente, com expressões que oscilavam entre a indignação e o medo, como se eu tivesse enlouquecido de vez. Talvez eu estivesse mesmo perdendo o juízo, mas a paranoia era a única coisa que me mantinha viva naquele lugar. — Tá me ouvindo bem, Caveira? — perguntei, travando o olhar no gerente responsável pelas cargas. O homem engoliu seco, visivelmente tenso sob a minha pressão. — Tô ouvindo, Raíssa — ele assentiu devagar. — Emendas, abre a boca e fala de uma vez. — Eu sabia do trajeto — ele confessou em voz baixa. — Eu organizei os horários. — Quem mais estava a par de tudo? — O Relíquia — respondeu Caveira. Desviei meus olhos imediatamente para o canto da sala, onde Relíquia estava sentado de braços cruzados. Ele sustentou meu olhar firme, sem esboçar absolutamente nenhuma reação física ou emocional. O rosto dele era uma tela em branco. — Continua, Caveira. Nomes. — Só mais dois soldados da escolta pesada que estavam na contenção. — Só eles? Tem certeza? — Só, Raíssa. Mais ninguém. Cruzei os braços, sentindo um nó apertar no meu estômago. Pouca gente. Pouca gente demais sabia os detalhes daquela rota. O círculo de suspeitos estava fechando ao meu redor de forma sufocante, e eu não gostava nem um pouco da direção para onde aquelas pistas apontavam. Assim que a reunião tensa terminou, decidi descer pessoalmente para uma das bocas de fumo principais da Cidade de Deus. Eu precisava arejar a mente, respirar o ar pesado das vielas e observar o movimento de perto. Às vezes, as respostas mais complexas apareciam justamente quando ninguém parecia estar procurando por elas. Eu estava encostada em um muro descascado quando vi um dos nossos vapores correr desesperado na minha direção, desviando dos moradores. — Raíssa! Ainda bem que te achei! — ele arquejou, limpando o suor da testa. — Fala, garoto. O que aconteceu? — Tem um cara estranho circulando por aí e fazendo perguntas demais sobre a rotina da gerência. — Quem é o sujeito? É de outro morro? — Nunca vi o rosto dele por aqui. Não é cria. Franzi a testa, sentindo meu instinto de sobrevivência despertar na mesma hora. — O onde esse infeliz tá agora? — Tá sentado lá no bar do Seu Zeca, no final da principal. Perguntas demais sempre eram um prenúncio de problemas graves na favela. Principalmente na situação delicada em que nos encontrávamos. Caminhei em passos rápidos e cheguei ao estabelecimento em menos de cinco minutos. O homem estava sentado sozinho em uma mesa de plástico nos fundos do bar. Ele usava um boné preto abaixado até a altura dos olhos e óculos escuros, apesar do dia nublado. Sua postura era visivelmente tensa, os dedos batucando na mesa de forma rítmica e ansiosa. Estava tudo errado com ele. Muito errado. Aproximei-me sem fazer barulho e puxei a cadeira de plástico da frente, sentando-me de supetão. — Tá procurando alguém específico por aqui, parceiro? — perguntei, a voz mansa, mas carregada de veneno. Ele levantou os olhos rapidamente. Foi apenas uma fração de segundo, mas foi o suficiente para eu captar tudo o que precisava: reconhecimento imediato, um pavor genuíno e uma surpresa avassaladora. Aquele homem sabia perfeitamente quem eu era e o perigo que eu representava. — Eu não sei do que você tá falando — ele gaguejou, tentando disfarçar o tom de voz nervoso. — Então deixa que eu facilito as coisas para você — inclinei meu corpo sobre a mesa, diminuindo a distância entre nós e deixando o cabo da minha pistola visível. — O que exatamente você veio buscar no meu morro? O homem levantou-se num salto. Rápido demais. Um erro fatal induzido pelo desespero de fugir. Antes mesmo que é ele conseguisse dar dois passos em direção à saída, projetei meu corpo para a frente e segurei seu braço com um aperto de aço. — Me solta! Você tá maluca? — ele gritou, tentando puxar o braço. — Quem mandou você aqui? — perguntei entre os dentes, apertando ainda mais o pulso dele. — Ninguém! Eu tava só de passagem! — Mentira pura. Ele começou a se debater violentamente no meio do bar do Seu Zeca, mas não conseguiu se desvencilhar do meu domínio. Meu sangue ferveu instantaneamente, porque eu tinha uma facilidade quase sobrenatural para farejar quando alguém estava mentindo na minha cara. E aquele i****a estava praticamente berrando a verdade através do pânico. — Vou perguntar pela última vez: quem te pagou para xeretar a minha vida? — Eu juro que não sei de nada! — ele implorou. Foi exatamente nesse instante de alta tensão que um carro com os pneus cantando arrancou de forma abrupta no final da rua estreita. O estrondo metálico chamou minha atenção por um milésimo de segundo. O homem aproveitou minha breve distração, reuniu todas as suas forças e me empurrou com violência contra a parede. Perdi o equilíbrio e ele disparou em fuga pelas vielas. — Merda! — esbravejei, recuperando a postura. Corri atrás dele com toda a velocidade que minhas pernas permitiam, dobrando as esquinas lamacentas e ignorando os obstáculos. Mas quando virei o último beco sem saída... ele havia sumido completamente. Desaparecera no ar como fumaça densa. Como um verdadeiro fantasma. Naquela mesma noite, subi as escadas em direção à laje mais alta da casa do Matador, sentindo uma irritação profunda consumir meus pensamentos. Alguém estava vigiando ativamente os nossos passos, monitorando o morro e coletando informações sigilosas, e eu continuava andando no escuro sem saber o motivo real. — Você tá com uma cara de quem tá pronta para executar o primeiro que atravessar o caminho — a voz rouca de Relíquia ecoou nas minhas costas. — E talvez eu esteja mesmo — respondi, sem paciência para joguinhos. Ele caminhou devagar até parar ao meu lado na mureta. — O que aconteceu lá embaixo? O vapor me deu um toque de que o clima azedou no asfalto. Respirei fundo e contei tudo o que havia presenciado no bar, detalhe por detalhe. Quando terminei a narrativa, o semblante brincalhão dele sumiu por completo. Ele ficou sério. Sério até demais. — Isso que você tá me contando não é nada bom, Raíssa — ele comentou, olhando para as luzes da comunidade. — Eu sei disso. — Esse cara pode ter ligação direta com a armadilha que prendeu o Matador. — Eu também já pensei nessa hipótese. — Significa que tem alguém graúdo jogando contra a nossa firma neste exato momento. Fechei meus olhos com força por um breve instante, porque aquela era rigorosamente a mesma conclusão assustadora que eu vinha tentando evitar a todo custo dentro da minha mente. Quando reabri os olhos e voltou a encará-lo, percebi que Relíquia havia encurtado a distância entre nós. Ele estava perto. Muito perto de mim. Mais do que as regras de segurança do morro ditavam, mais do que meu bom senso permitia. Senti meu peito acelerar e as batidas do meu coração ecoarem nos meus ouvidos. Droga. Eu detestava profundamente quando meu corpo perdia o controle daquela forma perto dele. — Você devia tentar descansar um pouco — a voz dele saiu mais baixa, quase como um sussurro contra o vento. — Eu descanso depois que resolver essa bagunça — retruquei, sustentando a proximidade. — Você falando desse jeito parece até o Matador. — E você reclamando desse jeito parece uma velha rabugenta. Relíquia soltou uma risada genuína, os olhos semicerrados focados nos meus. Pela primeira vez em meio a todo aquele caos generalizado, eu senti os cantos da minha boca esboçarem o início de um sorriso sincero. Quase aconteceu. Mas o momento foi bruscamente interrompido quando o celular no meu bolso vibrou com força. Peguei o aparelho rapidamente. Era um SMS vindo de um número inteiramente desconhecido, mascarado por criptografia. Abri a caixa de entrada e senti o sangue congelar instantaneamente nas minhas veias ao ler as palavras na tela iluminada: "Pare de procurar o traidor imediatamente." Antes mesmo que eu pudesse processar a ameaça, uma segunda mensagem piscou logo em sequência na tela de vidro: "Ou você vai acabar ocupando uma cela exatamente ao lado da cela do Matador." Qualquer vestígio de humor desapareceu do meu rosto no mesmo segundo. Guardei o celular com os dedos trêmulos de fúria, porque agora eu tinha uma certeza absoluta gravada no peito: minhas investigações estavam chegando perto demais da verdade. E alguém muito poderoso estava morrendo de medo do que eu poderia descobrir.
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