Capítulo 05

577 Words
A Rainha Não Sangra em Público Raíssa 🌪️ No morro, você não grita. Você sussurra e todo mundo ouve. Gritar é coisa de moleque. E o Biel tava gritando — não com a boca, mas com os olhos. Querendo saber demais, falando nos cantos, observando onde não devia. E se ele achava que ia me encurralar... ele não me conhecia. Eu fui até a laje da contenção no fim da tarde, com o céu alaranjado queimando por cima das casas. Tava todo mundo reunido: os da ronda, os da vigia e os da boca esperando ordem. Era hora de mostrar quem comandava. Desci firme, sem hesitar, sem demonstrar nada. Meus passos batiam no concreto como um relógio de contagem regressiva. Biel me viu de longe e já travou o sorriso. A postura dele mudou na hora. Moleque esperto entende quando o clima vira. — Reúne geral. — falei seco, sem nem olhar diretamente pra ele. Os meninos se organizaram em círculo, todos me olhando com atenção. Eu parei no centro, mão no bolso, cigarro na boca. Acendi com calma. — Tem boato rolando solto por aí. Gente dizendo que tô sumida, que tô fraca, que tô com problema. — dei uma tragada lenta, e encarei o Biel. — Isso chega nos meus ouvidos, entendeu? Silêncio. — E deixa eu lembrar uma coisa pra vocês... — continuei, andando devagar entre eles. — Aqui, quem cuida da p***a toda sou eu. Quem leva ordem até o chefe sou eu. Quem segura o morro nas costas sou eu. Não tem espaço pra desconfiança aqui. Parei na frente dele. — Biel... chega aí. Ele veio devagar, tentando manter o semblante neutro. — Tranquilo, Raíssa? — Tranquilo uma ova. — dei um sorriso de canto. — Tava te observando. E eu não gosto quando alguém me observa demais. Quando começa a prestar atenção onde não deve, a levantar hipótese demais. Isso dá brecha pra gente pensar que talvez... você esteja querendo o meu lugar. — Nunca, Raíssa. Jamais desrespeitaria tua posição. Só achei estranho tu sumir... — tentou justificar. — Estranho é tua língua solta. — dei um passo à frente, ficando cara a cara. — Se tu tá com tempo pra pensar demais, então tá com tempo de menos pra trabalhar. A partir de agora, tu vai fazer ronda na parte baixa, do lado da vala. Sozinho. Turno triplo. Ele arregalou os olhos. — Sozinho? A noite? — Tá surdo, p***a? Ou prefere que eu ache que cê tá me desafiando? — meu tom era calmo, mas o olhar podia cortar concreto. Os outros ficaram em silêncio. Sabiam que aquele castigo era mais que punição: era um aviso. — Avisa tua mãe que cê vai chegar tarde por uns dias. E se reclamar, troca de lugar com os cara da escadaria. — finalizei. Me afastei, sem olhar pra trás. — Mais alguém com tempo pra observar minha vida, ou podemos voltar pro foco? — perguntei, já indo em direção à saída da laje. Ninguém respondeu. O clima ficou denso, mas controlado. Exatamente como eu queria. Biel ia sentir na pele o que significava cutucar onça dormindo. Ele ia voltar calado, humilde, e com sorte — inteiro. Porque no morro, a hierarquia é lei. E se você for mulher e ocupar o topo, tem que estar disposta a arrancar pescoço com sorriso no rosto. Eu não sangro em público. E quem me desafia... aprende na marra por que me chamam de Raíssa.
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