Capítulo 28

497 Words
O silêncio ficou pesado. Pesado demais. Porque, pela primeira vez desde que tudo começou, ninguém estava olhando para Marconi. Todos estavam olhando para Relíquia. Meu coração batia tão forte que chegava a doer. — Como você conhece ele? — perguntei. Relíquia não respondeu. Erro. Um grande erro. Porque o silêncio dele falava mais do que qualquer palavra. — Relíquia — a voz de Matador saiu fria, fria como eu nunca tinha ouvido. — Responde ela. Os olhos de Relíquia encontraram os meus, e eu vi algo ali: arrependimento. Meu sangue gelou. — Eu conheço ele. A rua inteira pareceu congelar. — Desde quando? — perguntei. — Antes de conhecer você. O mundo girou, porque aquilo era impossível. Ou pelo menos deveria ser. — Você tá me dizendo que conhecia o Marconi antes de entrar para a facção? — Sim. Matador deu um passo à frente. — Por que nunca falou isso? Relíquia soltou uma risada amarga. — Porque ninguém perguntou. — Não brinca comigo. A tensão ficou tão pesada que os homens começaram a apontar as armas. Uns para Marconi, outros para Relíquia. Aquilo podia acabar em tragédia a qualquer segundo. — Você trabalha pra ele? — perguntei. Minha voz saiu mais baixa do que eu queria, porque eu não tinha certeza se queria ouvir a resposta. — Não. — Jura? — Marconi debochou. Relíquia virou para ele. — Cala a boca. — Ou o quê? Os dois se encararam como dois homens que carregavam anos de ódio. Anos demais. Foi então que Marconi sorriu. Aquele sorriso maldito. — Conta a verdade pra ela. Meu coração acelerou. — Que verdade? Ninguém respondeu, até que Marconi resolveu responder por eles: — O homem que tirou você da rua não foi o Matador. O mundo parou. — O quê? — Foi o Relíquia. Meu sangue desapareceu, porque aquilo eu não esperava. Nem por um segundo. Virei imediatamente para Relíquia, e a expressão dele confirmou tudo. — É verdade? Ele fechou os olhos. Merda. — É. Meu coração falhou uma batida. — Você me conhecia? — Conhecia. — Desde quando? — minha voz falhou pela primeira vez. — Desde antes da Cidade de Deus. O silêncio explodiu ao nosso redor. — Então todos esses anos... — Eu sabia quem você era. Minha respiração ficou pesada, porque de repente minha vida inteira parecia uma mentira. Matador, Marconi, Relíquia. Todos sabiam coisas que eu não sabia. Todos. — E ninguém me contou. Relíquia abaixou a cabeça. — Eu queria. — Mas não contou. — Não. — Por quê? Ele demorou para responder. Tempo demais. Até finalmente dizer. — Porque eu me apaixonei por você. O silêncio que veio depois foi mortal. Completamente mortal. Porque, pela primeira vez, a verdade não machucava apenas a mim. Machucava Matador também. Lentamente, virei o rosto e encontrei os olhos dele. Escuros. Frios. Furiosos. E naquele instante eu soube: a guerra contra Marconi ainda nem tinha começado, mas a guerra entre Matador e Relíquia acabava de nascer.
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