O silêncio ficou pesado. Pesado demais. Porque, pela primeira vez desde que tudo começou, ninguém estava olhando para Marconi. Todos estavam olhando para Relíquia.
Meu coração batia tão forte que chegava a doer.
— Como você conhece ele? — perguntei.
Relíquia não respondeu. Erro. Um grande erro. Porque o silêncio dele falava mais do que qualquer palavra.
— Relíquia — a voz de Matador saiu fria, fria como eu nunca tinha ouvido. — Responde ela.
Os olhos de Relíquia encontraram os meus, e eu vi algo ali: arrependimento. Meu sangue gelou.
— Eu conheço ele.
A rua inteira pareceu congelar.
— Desde quando? — perguntei.
— Antes de conhecer você.
O mundo girou, porque aquilo era impossível. Ou pelo menos deveria ser.
— Você tá me dizendo que conhecia o Marconi antes de entrar para a facção?
— Sim.
Matador deu um passo à frente.
— Por que nunca falou isso?
Relíquia soltou uma risada amarga.
— Porque ninguém perguntou.
— Não brinca comigo.
A tensão ficou tão pesada que os homens começaram a apontar as armas. Uns para Marconi, outros para Relíquia. Aquilo podia acabar em tragédia a qualquer segundo.
— Você trabalha pra ele? — perguntei. Minha voz saiu mais baixa do que eu queria, porque eu não tinha certeza se queria ouvir a resposta.
— Não.
— Jura? — Marconi debochou.
Relíquia virou para ele.
— Cala a boca.
— Ou o quê?
Os dois se encararam como dois homens que carregavam anos de ódio. Anos demais.
Foi então que Marconi sorriu. Aquele sorriso maldito.
— Conta a verdade pra ela.
Meu coração acelerou.
— Que verdade?
Ninguém respondeu, até que Marconi resolveu responder por eles:
— O homem que tirou você da rua não foi o Matador.
O mundo parou.
— O quê?
— Foi o Relíquia.
Meu sangue desapareceu, porque aquilo eu não esperava. Nem por um segundo. Virei imediatamente para Relíquia, e a expressão dele confirmou tudo.
— É verdade?
Ele fechou os olhos. Merda.
— É.
Meu coração falhou uma batida.
— Você me conhecia?
— Conhecia.
— Desde quando? — minha voz falhou pela primeira vez.
— Desde antes da Cidade de Deus.
O silêncio explodiu ao nosso redor.
— Então todos esses anos...
— Eu sabia quem você era.
Minha respiração ficou pesada, porque de repente minha vida inteira parecia uma mentira. Matador, Marconi, Relíquia. Todos sabiam coisas que eu não sabia. Todos.
— E ninguém me contou.
Relíquia abaixou a cabeça.
— Eu queria.
— Mas não contou.
— Não.
— Por quê?
Ele demorou para responder. Tempo demais. Até finalmente dizer.
— Porque eu me apaixonei por você.
O silêncio que veio depois foi mortal. Completamente mortal. Porque, pela primeira vez, a verdade não machucava apenas a mim. Machucava Matador também.
Lentamente, virei o rosto e encontrei os olhos dele. Escuros. Frios. Furiosos.
E naquele instante eu soube: a guerra contra Marconi ainda nem tinha começado, mas a guerra entre Matador e Relíquia acabava de nascer.