Aquela informação caiu como uma bomba. Um infiltrado. Alguém trabalhando para Marconi. Alguém sentado à nossa mesa. Alguém que conhecia nossos planos.
— Quem? — minha voz saiu baixa, perigosa.
Caveira fechou os olhos.
— Eu não sei.
Matador avançou um passo.
— Para de mentir.
— Eu não tô mentindo.
— Então como sabia da infiltração?
Caveira respirou fundo.
— Porque ele entrou em contato comigo.
O quarto inteiro congelou.
— O quê? — perguntei.
— Depois que o chefe foi preso.
Meu sangue ferveu.
— E você nunca contou?
— Porque ele ameaçou minha família.
Silêncio. Pela primeira vez eu vi vergonha nos olhos dele.
— Ele sabia onde minha mãe morava. Sabia onde minha irmã trabalhava. Sabia tudo.
Ninguém falou nada, porque todos sabíamos como aquilo funcionava. Quando alguém ameaçava sua família, as regras mudavam.
— Você entregou informações? — perguntei. A voz saiu mais dura do que eu pretendia.
Caveira abaixou a cabeça. Aquilo foi suficiente.
— Seu filho da mãe... — Matador avançou.
Eu fui mais rápida e segurei o braço dele.
— Não.
— Sai da frente, Raíssa.
— Não.
— Ele nos vendeu.
— E ainda tá vivo porque resolveu falar.
Os olhos de Matador queimavam de raiva, mas ele sabia que eu tinha razão. Voltei minha atenção para Caveira.
— O infiltrado. Quem é?
— Eu não sei.
— Para de repetir isso.
— Eu juro.
— Então me diz alguma coisa.
Ele respirou fundo, como quem procura coragem.
— Eu só sei que ele é próximo.
Meu coração acelerou.
— Próximo quanto?
— Muito próximo.
Olhei para Matador, depois para Relíquia, e então para os homens no quarto. A sensação foi horrível, porque, de repente, todos pareciam suspeitos.
Mais tarde, eu estava sozinha na varanda, tentando organizar meus pensamentos e tentando não enlouquecer. Foi quando ouvi passos. Relíquia. Claro.
— Você tá pensando demais.
— Você fala isso todo dia.
— Porque é verdade.
Ele encostou na mureta ao meu lado. Por alguns segundos ficamos em silêncio, até eu perguntar:
— Você acha que é quem?
Relíquia ficou olhando a escuridão.
— Não sei.
— Mente pior que criança.
Um sorriso apareceu no canto da boca dele.
— E você é irritante.
— Fala.
O sorriso desapareceu.
— Acho que o Marconi quer que a gente desconfie uns dos outros.
Franzi a testa.
— Como assim?
— Porque enquanto a gente procura um traidor, ele se movimenta.
Aquilo fazia sentido. Sentido demais.
— Então você acha que não existe infiltrado?
— Não. Eu acho que existe.
Meu coração apertou, porque eu também achava. Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou. Número desconhecido. De novo. Atendi imediatamente.
— Fala.
Silêncio. Depois uma respiração calma, controlada. E então a voz:
— Você confia demais nas pessoas erradas, Raíssa.
Meu sangue gelou.
— Marconi.
Uma risada baixa ecoou do outro lado.
— Inteligente.
— O que você quer?
— Te ajudar.
Quase ri.
— Vai se ferrar.
— Eu tô falando sério.
— Você matou gente minha.
— E vou matar mais.
A honestidade da resposta me fez arrepiar.
— Então por que tá me ligando?
O silêncio durou alguns segundos, até ele responder:
— Porque quando descobrir quem está te traindo... você vai desejar que eu fosse seu único inimigo.
A ligação caiu. E naquele momento, pela primeira vez, eu comecei a ter medo da resposta.