Capítulo 23

564 Words
Aquela informação caiu como uma bomba. Um infiltrado. Alguém trabalhando para Marconi. Alguém sentado à nossa mesa. Alguém que conhecia nossos planos. — Quem? — minha voz saiu baixa, perigosa. Caveira fechou os olhos. — Eu não sei. Matador avançou um passo. — Para de mentir. — Eu não tô mentindo. — Então como sabia da infiltração? Caveira respirou fundo. — Porque ele entrou em contato comigo. O quarto inteiro congelou. — O quê? — perguntei. — Depois que o chefe foi preso. Meu sangue ferveu. — E você nunca contou? — Porque ele ameaçou minha família. Silêncio. Pela primeira vez eu vi vergonha nos olhos dele. — Ele sabia onde minha mãe morava. Sabia onde minha irmã trabalhava. Sabia tudo. Ninguém falou nada, porque todos sabíamos como aquilo funcionava. Quando alguém ameaçava sua família, as regras mudavam. — Você entregou informações? — perguntei. A voz saiu mais dura do que eu pretendia. Caveira abaixou a cabeça. Aquilo foi suficiente. — Seu filho da mãe... — Matador avançou. Eu fui mais rápida e segurei o braço dele. — Não. — Sai da frente, Raíssa. — Não. — Ele nos vendeu. — E ainda tá vivo porque resolveu falar. Os olhos de Matador queimavam de raiva, mas ele sabia que eu tinha razão. Voltei minha atenção para Caveira. — O infiltrado. Quem é? — Eu não sei. — Para de repetir isso. — Eu juro. — Então me diz alguma coisa. Ele respirou fundo, como quem procura coragem. — Eu só sei que ele é próximo. Meu coração acelerou. — Próximo quanto? — Muito próximo. Olhei para Matador, depois para Relíquia, e então para os homens no quarto. A sensação foi horrível, porque, de repente, todos pareciam suspeitos. Mais tarde, eu estava sozinha na varanda, tentando organizar meus pensamentos e tentando não enlouquecer. Foi quando ouvi passos. Relíquia. Claro. — Você tá pensando demais. — Você fala isso todo dia. — Porque é verdade. Ele encostou na mureta ao meu lado. Por alguns segundos ficamos em silêncio, até eu perguntar: — Você acha que é quem? Relíquia ficou olhando a escuridão. — Não sei. — Mente pior que criança. Um sorriso apareceu no canto da boca dele. — E você é irritante. — Fala. O sorriso desapareceu. — Acho que o Marconi quer que a gente desconfie uns dos outros. Franzi a testa. — Como assim? — Porque enquanto a gente procura um traidor, ele se movimenta. Aquilo fazia sentido. Sentido demais. — Então você acha que não existe infiltrado? — Não. Eu acho que existe. Meu coração apertou, porque eu também achava. Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou. Número desconhecido. De novo. Atendi imediatamente. — Fala. Silêncio. Depois uma respiração calma, controlada. E então a voz: — Você confia demais nas pessoas erradas, Raíssa. Meu sangue gelou. — Marconi. Uma risada baixa ecoou do outro lado. — Inteligente. — O que você quer? — Te ajudar. Quase ri. — Vai se ferrar. — Eu tô falando sério. — Você matou gente minha. — E vou matar mais. A honestidade da resposta me fez arrepiar. — Então por que tá me ligando? O silêncio durou alguns segundos, até ele responder: — Porque quando descobrir quem está te traindo... você vai desejar que eu fosse seu único inimigo. A ligação caiu. E naquele momento, pela primeira vez, eu comecei a ter medo da resposta.
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