Le chevalier

1956 Words
Martin       O telefone chama várias vezes, mas infelizmente ela não atende. Caminho até a varanda, apoio levemente meus braços na grade. A rua está bem movimentada, muita gente andando de um lado para o outro, alguns paparazzi aqui e acolá, achando que eu não percebi sua presença. Eles querem minha presença nas ruas? Então lhes darei o prazer de tirar algumas fotos minhas... Pego minha carteira, as chaves, fecho as portas da varanda. Assim que saio do prédio sinto os flashes sob mim, caminho até a esquina do prédio onde moro, paro um pouco, olho, e sigo pela rua que cruza com a avenida que fica meu apartamento, é uma rua estreita, com várias lojas, restaurantes, e principalmente o Café onde trabalha a tal Hannah, a garçonete que não é minha fã.  Caminhando até o estabelecimento, eu percebo que irritar aquela garota me deixa bem, parece doentio, mas isso me agrada... Sei que parece estranho, mas eu gosto! Puxo um pouco mais para baixo meu boné, que até o momento tem ajudado junto com os óculos escuros, não quero ser reconhecido, não nesse momento, embora eu saiba que os paparazzi já sabem, mas eu quero apenas desfrutar de um fim de tarde num café parisiense... Isso é algo que parecia estar a anos luz de distância quando eu era um menino em Buenos Aires. É... A vida muda!  Entro no Café, olho em volta, está cheio. Procuro por uma mesa, mas não vejo nenhuma desocupada, vou até o balcão e me sento em um banco. Continuo olhando até que avisto a minha garçonete favorita, aquela que me ama! E antes que eu chame, sou abordado por uma moça loira do outro lado do balcão. Ela me encara sorridente. — Boa tarde senhor... Já sabe o que vai pedir? Ou prefere dar uma olhada no menu?  — Não precisa do menu. Pode me trazer um cappuccino, e um pedaço daquela torta... É de morango? — Sim, é de morango. Vou providenciar... Mais alguma coisa? — É... Onde está aquela garçonete? Como é mesmo o nome dela? — Rose? — ela pergunta, e eu balanço a cabeça em negativa. Espero ela dizer o nome da garota, mesmo que eu saiba, não quero parecer previsível. — Hannah? — Isso! É esse o nome dela, tem um sotaque diferente, não parece ser daqui.... — E realmente não é... Ela é brasileira! — assim que a loira fala, eu engulo em seco. O que é isso? A garota tem o mesmo nome da minha amiga virtual, e ainda é brasileira? Há algo de errado, ou é apenas uma grande coincidência? — Ela está servindo as mesas do outro lado, no fim do corredor! — Que pena... Está lotado hoje, não é? Será que não tem nenhuma mesa desocupada onde ela está atendendo? — Infelizmente, acho que não! — ela responde, e eu tiro meus óculos, tiro o boné. Amarro um pouco mais meu cabelo, coloco o boné novamente, e os óculos. Ela me encara assustada. — Martin Gonzaléz? — Então não teria uma mesa para mim? Ou de repente, você poderia, gentilmente, trocar de lugar com ela... O que me diz?        Hannah       Hoje o Café está uma loucura. E para piorar, um dos garçons me diz que Camille está me chamando. Eu vou até o balcão, me aproximo dela. A loira parece um pouco perdida, está pálida, fala, e eu não entendo muita coisa.   — Ele qu....É... Atender! — Eu não entendo nada, Camille! — respondo a garota, e uma voz responde por ela. — Ela está querendo dizer, que é para você me atender! — fala, e eu olho em sua direção.  — Não é possível, de novo? O que você faz aqui? — Eu te falei, gostei do estabelecimento, e principalmente do seu atendimento, Hannah! — E ainda por cima, lembrou o meu nome? — falo, respiro fundo. — O que vai querer? — Eu achei que ontem você estava mais solicita, me tratando muito melhor. O que houve? — Ele fala, tira seus óculos, seus olhos azuis me encaram, e um sorriso cínico aparece em seus lábios. Que ódio desse homem! — Vou ser sincera com você... Acho que você já conseguiu a sua vingança ontem, não foi? Então, me deixa em paz! — E perder a chance de ser atendido por alguém tão linda? Acho que não...  — É sério isso? Agora me diz logo o que você vai pedir!  — Eu já pedi... É um cappuccino, e um pedaço daquela torta de morangos.... — Ele fala e aponta na direção da torta.  Com ajuda da máquina preparo o cappuccino. Abro o expositor do balcão, coloco um pedaço da torta, que costuma estar fatiada, em um prato. Coloco seu pedido em cima do balcão, Martin agradece com um sorriso cínico nos lábios. Leva a xícara aos lábios, toma um pouco do líquido, eu me afasto. Escuto sua voz me chamar. — Não vai me fazer companhia, Hannah? — Eu já te servi, se precisar de alguma coisa, e só chamar! Não vou ficar aqui olhando para você enquanto come!  [...]   O Martin realmente é insuportável. Dessa vez ele não demorou muito, até porque começaram a entrar umas pessoas que mais pareciam aqueles fotógrafos que ficam caçando celebridades, e eu percebi que ele começou a se irritar com a movimentação dessas pessoas. Ele acabou me pedindo a conta, e mais uma vez deixou uma boa gorjeta. O expediente finalmente acabou, e eu estou muito cansada. A presença de Martin em meu trabalho tem deixado os colegas de trabalho, principalmente as meninas, um pouco eufóricos. Eles acreditam que o jogador tem frequentado o Café por minha causa, sinceramente? Acho que não! Por que Martin se interessaria por mim? Isso não faz muito sentido, ele pode até me achar bonitinha, mas a ponto de interessar-se por mim? Não... Definitivamente, não!  Casa. Essa palavra é tão linda! Chegar em seu lar e desfrutar de um delicioso banho quente. Uma deliciosa refeição... Quero dizer, não tão deliciosa assim, é apenas pão baguette com queijo, e uma xícara de café. Mas, quando estamos com fome, qualquer prato torna-se delicioso. Sento-me no sofá, ligo a TV, e como se não bastassem os momentos que passei ao lado do Martin, o programa de esportes faz uma cobertura sobre o cotidiano dele. Ele e seu sorriso cínico são inseparáveis. O som do celular chama minha atenção, pego, e noto que se trata de uma notificação da operadora. Ao verificar o celular, lembro-me das ligações de um número desconhecido, tenho uma expectativa de que seja Javier, e algo me chama atenção nesse número desconhecido... O código é de Paris! Talvez não seja Javier, pode ser um engano, não sei se ligo! Mas, a curiosidade é mais forte que eu, digito o número. Salvo nos contatos, e em seguida mando uma mensagem de texto em espanhol.   Olá?  Eu recebi três ligações desse número, mas é desconhecido para mim... Se puder se identificar, eu agradeço.   Hannah.   Alguns minutos depois...   Olá, Hannah? Sou eu, o Javier. Esse é o meu número, você pode salvá-lo e podemos conversar...   É o número do Javier? Mas, o que ele faz em Paris?        Martin       “Mas, o que você faz em Paris?” “Estou a trabalho. Fui transferido para Paris...” “Que bom. Você continua trabalhando como representante de material esportivo?” “Sim, eu continuo.”  “Já que você está em Paris, nós poderíamos nos conhecer. O que acha?”   Eu visualizei, mas não respondi sua pergunta. Se eu fosse o Javier, o representante de material esportivo, isto seria mais fácil. Infelizmente não sou, então não sei o que fazer, mas não posso perder sua amizade, ela é sincera, e eu convivo com a falsidade todos os dias em vários ambientes, e ter ao meu lado alguém assim é uma dádiva.  Alguns dias passaram desde que Hannah, a fada cintilante, perguntou se podíamos nos conhecer. Eu continuo frequentando o Café para irritar a outra Hannah, a que me odeia, às vezes ela me lembra a Lara Croft, parece que está sempre preparada para enfrentar algo, e eu gosto disso, e acho que as duas Hannah’s tem algo em comum, as duas gostam de me enfrentar, de me desafiar e jogar verdades na minha cara, e eu gosto muito de tudo isso! Enquanto penso nas duas, alguém joga uma toalha na minha cabeça, eu tiro-a rapidamente e olho na direção em que foi jogada.  — O que é isso? Está sonhando acordado, artilheiro, quer dizer... Como eles têm te chamado, mesmo? Ah, “El perverso”! — Fala Lee em tom de ironia. — Você não tem mesmo o que fazer, não é Lee? — Tenho, e por ter tanto o que fazer, é que eu reparei que você está muito distante, têm frequentado o Café onde a Hannah trabalha. A imprensa está no seu pé, e você sabe disso! — Eu sei, mas o que tem demais frequentar um Café que fica próximo a minha casa? Por falar nisso, acho que preciso da sua ajuda para procurar uma casa... — Como assim? — Eu preciso de uma casa em um condomínio fechado, feito aquele que você mora... — Ah, entendi. Acho que tem algumas casas para vender e alugar por lá. Eu vou te passar depois o telefone do corretor que me vendeu a minha. Voltando ao assunto “Hannah”, eu fiquei sabendo que o Juan também está frequentando o Café... — Como você sabe disso? — Pergunto enquanto termino de me vestir. — Eu o ouvi conversando com o Jean, ele agora vive de papo com o grupo de franceses e têm se afastado da gente e dos outros jogadores... — Isso não me surpreende, é típico dele procurar algo ou alguém que lhe ofereça vantagens. — Pela lógica, ele deveria estar do seu lado. — Mas, você esquece que nunca fomos amigos de verdade, e ele foi um dos que me culpou por perdermos o título de 2014 para Alemanha. Mas, por que ele tem frequentado o Café? — É verdade, eu me lembro de tudo. Mas, você sabe, ele também deve estar interessado na garçonete... — Ele também? Como assim? — Ah Martin, não se faça de desentendido, você sabe do que estou falando! — Não sei do que está falando. Mas, vamos esquecer essa história, eu quero saber da sua festa! Lee e a sua terrível mania de querer saber de tudo, quase não me deixou em paz. Ele insistiu na ideia de que tenho algum interesse na Hannah. Ela é atraente, é bonita, e eu adoro provocá-la, tirá-la do sério, mas não tenho interesse nela do jeito que o Lee afirma.  [...]   Alguns dias se passaram, e finalmente chegou o dia da festa do Lee. Ele parecia uma criança, passou a semana toda falando da festa, convidou todos do clube, inclusive os funcionários. Assim que sai do carro, vesti o meu blazer, e observei a área à minha frente, meu amigo tem bom gosto, uma bela casa no Distrito de Saint-Germain, com uma fachada antiga cheia de janelas envidraçadas. Toco a campainha. A grande porta de madeira se abre, sou recebido pelo aniversariante que estampa um sorriso vibrante, e seus olhos puxados parecem enormes. Passamos pelo hall, e ele me conduz até a sala. Olho ao redor e vejo várias figuras conhecidas, companheiros de time e também pessoas que eu não conheço, que ele faz questão de me apresentar.  Conversa vai, conversa vem até que eu avisto Juan e seu sorriso sínico. Algo que ultimamente detesto nele. Mas, o que realmente chama a minha atenção não é o sorriso dele, mas quem o acompanha. Hannah. O que ela faz ao lado dele?
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