Introdução
O dia sempre começou bem cedo na minha casa. Quando eu digo cedo, é tão cedo que ainda dá para ver o céu escuro do lado de fora.
O motivo? Bom, infelizmente eu não tenho lá tanta opção e preciso acordar mais ou menos quatro e meia da manhã para ir trabalhar — ou, como algumas das minhas amigas gostam de falar: acordar cedo para se atrasar com calma.
O meu nome é Letícia, vivo em São Paulo desde que me entendo por gente.
Eu não moro com os meus pais, e sim com a minha avó, em uma casinha bem pequena no centro da cidade.
O motivo? Bom, nunca consegui ser eu mesma com a minha mãe por perto. E não me entenda mal, ela realmente não é ruim sendo mãe, é só que... eu precisava e muito de um canto para respirar. Por causa disso, quando atingi a maioridade, fiz um acordo com a minha avó.
E quando eu digo acordo, não pense em nada muito formal ou cheio de advogado. Foi mais um daqueles combinados de família mesmo, daqueles que a gente fecha com o olhar e sela com um prato de comida. Eu ajudaria nas despesas, daria uma mãozinha nas tarefas de casa e, em troca, teria o meu cantinho. Um espaço só meu, onde eu poderia sonhar alto, colocar música italiana no último volume e ninguém vir me perguntar se eu já arrumei um namorado decente.
Minha avó, dona Célia, aceitou na hora. Disse que preferia me ter por perto do que me saber rodando por aí. E também, convenhamos, ela adora ter alguém para quem reclamar da novela das nove.
A casa não é grande. Na verdade, se você espirrar na sala, corre o risco de bater com a cabeça na parede do quarto. Mas é aconchegante. Tem aquele cheirinho de café passado na hora e de roupa lavada que só casa de avó tem. O sofá é meio desbotado, a televisão é daquelas antigas, dessas que fazem barulho quando você aperta o botão, e a geladeira vive fazendo um barulhinho estranho de madrugada. Mas é o meu lar.
E, sinceramente? Melhor um lar apertado com liberdade do que uma casa grande cheia de regras que não fazem sentido.
Naquela manhã específica, aliás, o despertador tocou às quatro e vinte e cinco, como sempre. E, como sempre, eu apertei o soneca umas três vezes antes de finalmente jogar o cobertor para o lado. Minha avó já estava na cozinha, com o cabelo preso num lenço e o rádio ligado naquela estação que só toca música antiga.
— Bom dia, dorminhoca — ela disse, sem nem virar para trás. — O café tá na garrafa. E olha que hoje você tem cara de quem vai se atrasar.
— Bom dia pra você também, vó. Que incentivo, hein?
Ela riu, aquele riso curto e gostoso que só ela tem.
— Incentivo é o que você precisa pra sair dessa cama e ir atrás desse tal de intercâmbio. Ou você acha que a Itália vai vir até você?
Eu parei com a xícara no ar.
— Vó... você andou mexendo nas minhas coisas de novo?
— Mexendo é uma palavra muito feia. Eu só dei uma organizada. Aquele monte de papel amassado no fundo da gaveta tava pedindo socorro.
Revirei os olhos, mas não consegui segurar o sorriso. Era típico dela. Dona Célia nunca foi de respeitar gavetas alheias, mas também nunca foi de deixar de acreditar em mim. E, naquele momento, com o céu ainda escuro lá fora e o cheiro de café preenchendo a cozinha, eu senti uma pontinha de esperança. Quem sabe aquele ano não seria diferente?
Se eu soubesse o que me esperava, talvez tivesse ficado na cama.