Capítulo Dois - Cuidando de uma estranha.

2586 Words
Carter Passei pelas portas da construtora e tudo estava como sempre, um grande vai e vem de pessoas. Alguns atrasados, outros dando ordens, outros dispersos em seus próprios pensamentos, outros cansados do fim de semana. Passei pela recepção onde a sorridente senhorita Sanchez se encontrava. Entre no elevador, cumprimentando alguns funcionários que passam por mim, sempre gostei de ter um pouco de i********e com meus funcionários, não quero que me vejam como alguém superior a eles. Claro que na empresa eu era o chefe, mas não era melhor do que eles. Sempre procurei tratá-los bem, nunca quis ser e nem sou o chefe que as pessoas sentem medo só de ouvir o nome. Sai do elevador e a primeira pessoa que vi foi o Pietro, meu assistente, que estava concentrado no seu computador, com certeza lendo alguma fofoca. Nunca vi homem mais fofoqueiro do que ele. Pietro é meu assistente há mais de dez anos, o meu braço direito na empresa e o esquerdo também. Além de assistente é um bom amigo, só que às vezes tem a língua afiada demais. — Bom dia, Pietro — Cumprimentei e ele me seguiu até a minha sala — Qual a minha agenda para hoje? — Certeza que teria um dia cheio, como todos os outros dias. — Bom dia, chefe! O senhor tem apenas uma reunião agora pela manhã com dois arquitetos e um encontro marcado com uma de suas pretendentes — deu um sorriso zombeteiro ao falar sobre o encontro. Mais uma loucura da mamãe. — Que encontro? Que pretendente? — perguntei encarando a Pietro que apertou os lábios prendendo o riso. — Sua mãe não desistiu de casar você, senhor Williams. — falou soltando o sorriso que ele segurava até o momento. — E quem é a peça dessa vez? — Procurei, queria saber o que me aguardava nesse encontro, observando Pietro se divertir com meu afobamento. — Catherine Smith, trinta e cinco anos, divorciada, loira, um metro e setenta e cinco, socialite, famosa por aparecer em sites de fofocas e pelas inúmeras cirurgias plásticas. — Disse a ficha completa da mulher que eu encontraria. — E um depósito humano de nicotina. Me pergunto qual o estado do pulmão daquela mulher. — conclui e tirei o blazer ficando apenas com a camisa, odiava alguns tipos de roupas e blazeres e casacos estavam na lista. — Por hoje é só isso, senhor, sua tarde está livre. Deseja mais alguma coisa? — Perguntou ainda com um sorriso no rosto, o maldito estava se divertindo com a minha desgraça. — Pietro, porque você não desmarcou esse encontro? Nem fui eu que marquei com aquela maluca — Disse afrouxando o nó da gravata. — Jamais! Foi a rainha mãe que marcou esse encontro, ainda tenho amor à vida — Disse mexendo no tablet que estava em suas mãos. — Minha mãe e essa ideia maluca de querer me casar — Suspirei — Estamos nessa a dez anos e ela não desiste. — Eu tinha que falar a verdade para a minha mãe ou eu iria enlouquecer. — Talvez ela acredite no instinto de mãe, de ainda o ver casado e com filhinhos bagunçando a casa toda — Disse fazendo um gesto com as mãos. — Eu já passei dessa fase, não me vejo vivendo e nem quero isso pra mim. — Revelei, eu não tinha vontade de casar e ter filhos. — Eu li o horóscopo e as previsões do seu signo diziam que provavelmente você irá conhecer o amor da sua vida hoje. — Lá vem o Pietro com as suas maluquices. — Ora Pietro, não me faça rir. Não acredito nessas coisas. E ao invés de perder tempo com essas tolices, deveria ter inventado qualquer desculpa para não ir a esse encontro. — Retruquei apoiando os braços sobre a mesa. — Nas segundas eu tenho baixa criatividade, senhor. Desculpa, mas não tem como fugir do encontro. — disse, segurando o riso. — Pois bem, sua baixa criatividade vai ser descontada do seu salário no final do mês — o desespero apontou no seu rosto, e ele arregalou os olhos. — Você não é capaz de fazer isso! Você me adora. — exclamou com convicção. — Eu sou seu chefe. Então sim, eu sou capaz e posso fazer isso. — Ameacei, estava divertido ver ele em pânico. — Não faça isso, senhor. Minha mãezinha e meus gatinhos dependem de mim e do meu salário — pediu juntando as mãos em suplício. — Devia ter pensado nisso antes de me negar ajudar. — Continuei. Sorri vendo o desespero do homem, em seguida o dispensando. A reunião com os novos arquitetos correu bem, e a construtora Williams agora terá mais dois grandes arquitetos integrando a equipe. A manhã passou tão rápido que eu nem notei, e eu tive que almoçar com a desagradável da Catherine Smith. Porque minha mãe não pode ser como as outras mulheres da idade dela? Porque ela quer tanto que eu me case, se não é uma coisa que me agrada? Sai da empresa e vi Pietro seguindo para o restaurante do outro lado da rua com a recepcionista da empresa. Ele era apaixonado pela senhorita Sanchez, mas ela só o via como amigo. Entrei no carro e dirigi até o restaurante que fica próximo ao Big Ben. Minha vontade era dar meia volta e almoçar na empresa, eu não marquei encontro nenhum, então não tenho compromisso com ninguém, principalmente por ser aquela mulher. Mas apesar de tudo ela é uma mulher e não merece ficar me esperando sem uma resposta. Entrei no restaurante e o maitre me indicou à mesa. De longe vi a mulher que me esperava, me aproximei da mesa e minhas narinas foram atacadas pelo cheiro forte do seu perfume. Parece que tomou banho com todo o líquido, sua tentativa de camuflar o cheiro forte do cigarro não deu certo, na verdade, só piorou. — Boa tarde, senhorita Smith — disse e ela se levantou para me cumprimentar. — Boa tarde, Carter. Pode me chamar de Catherine ou Cath — disse com um sorriso sugestivo. — Não somos íntimos, então prefiro manter a formalidade. — Fui sincero. Me sentei e fizemos nossos pedidos. Quanto mais rápido almoçássemos, mais rápido eu me livraria desse maldito encontro. Não que ela tenha culpa de estarmos aqui, mas é que eu não queria estar nesse encontro, mas minha mãe insiste que eu tenho que me casar. Segundo ela, eu já estou com idade para ser avô. Mas a verdade é que eu nunca pensei em casamento, filhos. Não consigo me ver preso em uma rotina de casado. Sem falar que o perfume de Catherine estava me dando dor de cabeça. — Fiquei muito feliz com o convite e muito surpresa também, sempre nos encontramos em alguns eventos e você nunca me deu atenção — disse ela, tomando um pouco de vinho. — Catherine não vou mentir para você, nem quero lhe dar falsas esperanças. O convite não foi eu que fiz, mas sim minha mãe se passando por mim. — Revelei a verdade — Como assim? Sua mãe? — perguntou curiosa, apertando o guardanapo entre os dedos. — Minha mãe quer que eu me case, ela vive arrumando encontros e mais encontros para mim. Mas eu simplesmente não quero casar, não vou me casar, nem pretendo ter um relacionamento sério com ninguém no momento, muito menos com você. — Às vezes a minha sinceridade ia longe demais. — Maldito. — esbravejou furiosa. — Se não quisesse me encontrar, que desmarcasse o encontro. Você acha que eu sou palhaça? Sua mãe conversou com a minha e ela falou que você estava muito empolgado, que tinha feito o convite porque tinha interesses em mim, que tinha certeza que sairíamos daqui como namorados. — revelou furiosa. — Sinto muito, mas não era minha intenção magoá-la, eu não lhe prometi nada em nenhum momento. E eu não vejo minha mãe faz alguns dias, fiquei sabendo do nosso encontro hoje pela manhã. Espero que me entenda, e que possa encontrar uma pessoa que esteja interessado em você, porque eu não estou. — fui sincero. — Eu quero que você vá para o inferno, você é um velho rabugento. Isso não vai ficar assim. Que humilhação! — falou aos gritos e ainda me chamou de velho — Ainda vai ouvir falar muito de mim, Carter Williams. Me aguarde — pegou sua bolsa e saiu pisando firme batendo seus saltos pelo salão do restaurante. Sentia que se eu tivesse pelo menos mais cinco encontros igual o com a Catherine, eu teria que ir embora de Londres. Pedi a conta e voltei para a empresa, eu estava com minha tarde livre, mas queria revisar alguns contratos de clientes novos. A tarde passou se arrastando e o céu se pintou de cinza, começaria a chover em breve. Comecei a organizar todos os contratos revisados e saí da minha sala. Como não ia precisar de Pietro, dei folga para ele o resto da tarde. Quando finalmente saí da empresa, já era noite, e o céu estava caindo sobre Londres. Não seria fácil chegar em casa, a visibilidade estava horrível. Estava cansado e não via a hora de tomar um banho e me jogar na minha cama. Sei que é um grande risco dirigir durante uma tempestade tão forte, mas não tinha como esperar ela cessar, pelo jeito iria durar a noite toda e não estava a fim de passar a noite na construtora. O caminho para casa estava tranquilo, mas em um certo ponto onde a luminosidade da rua não era tão boa e a chuva complicando a visibilidade, para minha triste surpresa, uma mulher que parecia estar totalmente perdida, apareceu de repente no meio da rua. Consegui ser rápido o suficiente para desviar o carro dela, porém ela acabou se assustando e jogando seu corpo contra o chão. Estacionei o carro de qualquer jeito e corri até ela, torcendo que ela não tivesse se machucado gravemente. Ao me aproximar da jovem, tive a sensação de estar na presença de um anjo. Seus lindos e tristes olhos da cor da noite me encararam com medo. Seus cabelos estavam colados sobre suas bochechas alvas, deduzi que ela estava chorando, sua aparência era de exaustão. Ela não conseguia se levantar. Temi que ela tivesse quebrado algo, ela também estava com a mão cortada. Ofereci ajuda e ela aceitou, não pude levá-la até o hospital, devido ao mau tempo e um acidente de trânsito que deixou bastante pessoas feridas, o hospital estava lotado com os feridos. Me ofereci para levá-la até em casa, mas ela recusou, e quando falou sobre sua casa eu pude notar uma tristeza, a tristeza que já morou nos meus olhos e no meu coração por muito tempo. Perdendo a noção e indo totalmente contra o que eu havia prometido para mim mesmo, eu a levei para minha casa, permitindo que usasse meu banheiro e minhas roupas. Agora eu tinha uma garota totalmente desconhecida, a qual eu estava cuidando como se fosse alguém importante para mim, e o pior, a deixei na minha cama. Cama que nenhuma mulher sequer chegou perto. Talvez eu esteja fazendo tudo isso por me sentir culpado por ela estar machucada, mas eu poderia fazer isso na sala ou no quarto de hóspedes ou até mesmo em um hotel. Onde eu estava com a cabeça? Será que foi pelo momento ou pela culpa que eu estava sentindo? Ou aquele olhar e sorriso doce de menina? Talvez a voz serena e calma? Me perguntava qual o motivo de estar agindo daquele jeito com uma estranha, talvez culpa ou empatia? Mas quando Felícia me falou o motivo de estar sozinha no meio da chuva e aquela hora da noite, eu senti ainda mais vontade de ajudá-la. Sim, Felícia era o nome da linda jovem à minha frente. Felícia foi traída pelas pessoas que mais amava e no mesmo dia quase fora atropelada por mim. Agora ela estava ali, na minha frente, saboreando uma sopa de legumes como se fosse a melhor coisa do mundo. Ela demonstrava uma inocência que eu não via no rosto de uma mulher há muito tempo. Felícia estava machucada, tanto por fora, quanto por dentro. Ela passou pela mesma decepção que eu, e irei ajudá-la a curar todos os seus machucados. Depois de ajudá-la e ela se alimentar, a deixei sozinha. Deixei as louças sujas na pia e coloquei suas roupas na secadora, depois fui para cama. Demorei a dormir, a cena do quase atropelamento da Felícia rondava minha cabeça, fiquei imaginando o que poderia ter acontecido com ela se eu não tivesse conseguido desviar o carro, também fiquei pensando no quão c***l a família dela foi com ela. Como uma mãe e uma irmã são capazes de algo tão desprezível e repugnante? [...] Acordei assustado, eram quase quatro horas da manhã. Não lembro quanto tempo dormi, a preocupação com a mulher que dormia no quarto ao lado estava tomando toda minha atenção. Resolvi levantar e ver como ela estava. Fui até o banheiro e joguei uma água no rosto para tirar minha sonolência. Entrei no quarto que a jovem se encontrava, somente a luz do abajur na cabeceira da cama estava acesa, entrei com cuidado para não assustá-la e ao me aproximar da cama notei que a mesma falava algo indecifrável. Me aproximei tocando de leve a testa da garota, ela estava ardendo em febre. Acendi a luz do quarto e tentei acordá-la, mas não adiantou muito. Lembrei-me de quando eu e o Noah éramos crianças e tínhamos febre, a mamãe sempre nos colocava embaixo do chuveiro ou fazia compressas com água fria até nossa febre baixar. Eu não podia simplesmente pegar a Felícia e jogá-la embaixo do chuveiro ela estava dormindo, então a única solução eram as compressas, peguei toalhas limpas e uma vasilha com água, em seguida comecei com os cuidados, passava a toalha na testa dela, e em seus pulsos. — Papai, por favor, me leva com você. — Felícia falou com os olhos fechados — Não me deixa sozinha, eu preciso de você. — balbuciou se mexendo entre as cobertas. — Felícia, acorda! Felícia — tentei acordá-la — Felícia — insisti, tocando seu rosto. — Mas não adiantou muito. Alguns longos segundos se passaram até que em um sobressalto ela acordou me encarando assustada. Vi suas orbes negras mergulhadas em lágrimas, tão rápido como um piscar de olhos ela já estava abraçada ao meu corpo. Pisquei tentando entender o que estava acontecendo, quando seus soluços quebraram o silêncio do quarto. Com um impulso a envolvi em meus braços, sentindo o calor de sua pele, mas não era mais um calor febril, era apenas o seu calor corporal natural. — No fim todos me abandonam, eles prometem estar sempre comigo, mas me largam sozinha no meio do caminho — confessou entre soluços. — Calma, respira, você não está sozinha, eu estou aqui — acariciei seus cabelos. — Prometo nunca te abandonar. — As palavras saíram da minha boca como se fosse a coisa mais importante que eu tinha a dizer. Aos poucos seu choro foi cessando, mas ainda continuava abraçada a mim. Até que senti seus braços deslizarem pelas laterais do meu corpo, ela tinha voltado a dormir. Com calma a coloquei deitada na cama novamente, cobrindo-a em seguida. Ela tinha algo que tomava toda minha atenção, eu não conseguia entender, mas meu sentimento por ela era de proteção, como se ela precisasse dos meus cuidados.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD