Felicia
Vagarosamente abri meus olhos, pela pequena a******a na cortina consegui ver que já era dia, pela cor cinzenta e pela chuva da noite passada, imagino como deve estar frio lá fora. Me assustei ao perceber que eu não estava sozinha, Carter dormia em uma poltrona logo a frente da cama. Mas porque ele estava aqui? O que aconteceu, para ele está dormindo aqui?
Com cuidado levantei e fui até ele. Meu pé já não doía tanto. Me aproximei dele e toquei seu ombro, um pouco assustada.
— Carter! — Chamei. E como ele falou noite passada, ele realmente tinha um sono leve, acordou assim que o chamei.
— Oi, o que houve? Está sentindo dor? — perguntou um pouco atordoado. — Ele era tão lindo, assim na luz do dia eu podia vê-lo melhor.
— Não, eu estou bem. Mas porque você está dormindo aí? — Esfreguei meus olhos tentando fazer o inchaço dos meus olhos desaparecer.
— Eu vim ver se você estava bem, e quando cheguei aqui, você estava com muita febre e tendo pesadelos. Não lembra? — Me encarou. O azul dos seus olhos era ainda mais vivo com a luz do dia, percebi que ele era mais lindo ao acordar.
— Não, não consigo lembrar de nada. Meu Deus, eu fiz algo vergonhoso? — Coloquei as mãos sobre o rosto.
Ele sorriu.
— Relaxa, não fez nada que você possa se envergonhar — Se levantou ficando na minha frente — Você não acordava, então eu achei melhor ficar aqui até a febre baixar. — Vi uma vasilha e algumas toalhas ao lado da cama.
— Eu estou te dando tanto trabalho, te incomodando. Eu vou pegar minhas coisas e ir embora. — Olhei para ele me sentindo uma intrusa.
— Você não me deu trabalho algum, e muito menos está me incomodando. Tem mais, só deixarei você sair daqui quando eu tiver certeza que você está bem. Eu ia te levar até o hospital, mas antes de dormir mandei uma mensagem para o meu irmão pedindo que passe aqui após o plantão. Então você só sai daqui quando ele te examinar. — Tocou o meu queixo e me senti muito envergonhada.
— Carter, não precisa incomodar seu irmão, eu estou bem. — Falei tentando convencê-lo de me deixar ir embora, não queria abusar da boa vontade dele.
— Você não está nada bem, teve febre, torceu o pé, cortou a mão. Você não vai sair daqui nesse estado. — disse ríspido. — Vou pegar suas roupas, você se troca, tomamos café e esperamos o Noah chegar. — Ele era teimoso e estava parecendo meu namorado.
— Você é sempre assim? — Perguntei e ele me olhou confuso.
— Assim como? — Perguntou-me, encarando com os olhos semicerrados.
— Autoritário. — Disse sorrindo de canto.
— Só com pessoas teimosas. — Confessou sorrindo.
— Ei, eu não sou teimosa. Só não gosto de incomodar. — Me expliquei.
— Não está incomodando, não precisa se preocupar. — sorriu e tocou minha testa com o dorso da mão. — Com febre você não está mais. E seu pé, como está? — Perguntou preocupado.
— Não dói mais como ontem, consigo apoiá-lo no chão, mas não dói muito, só um pequeno desconforto. — falei apoiando meu pé no chão.
— Isso é muito bom. Pelo menos seus machucados não são graves, mas não fica muito tempo em pé, é melhor você se sentar. — Apontou para a cama onde me sentei em seguida. — E sua família? O que você vai fazer agora que descobriu tudo? — Questionou voltando a me olhar nos olhos.
— Eu tenho algumas economias no banco, vou alugar um lugar para mim. O que eu tenho dá para passar algum tempo, até encontrar um novo emprego. — Respondi.
— Se eu puder ajudar em algo, pode contar comigo. — Voltou a oferecer sua ajuda.
— Você já fez o bastante por mim, e sou muito grata por isso. Mas acho que consigo me virar com o que tenho. — Agradeci e não queria incomodar ele mais.
— Mesmo assim, pega meu número, caso precise, sinta-se à vontade para ligar quando precisar e no horário que quiser. E claro que se quiser apenas conversar também estarei disponível. — sorriu.
— Muito obrigada, Carter, por tudo. — Agradeci novamente.
— Eu que agradeço por confiar em mim, um estranho no meio da noite e ainda ir para casa dele, muito corajosa você, diria que até um pouco louquinha. — Riu.
— Confesso que fui um pouco imprudente ao fazer isso, mas eu não estava com condições de pensar no que estava fazendo, muito menos nas consequências das minhas decisões. — Dei de ombros.
— Eu jamais faria algo r**m para você ou para qualquer outra pessoa, mas nem todos tem boas intenções, não faça isso mais, nunca sabemos como são as pessoas verdadeiramente. — Pediu.
— Prometo não fazer mais isso. — sorri gentilmente.
Carter trouxe minhas roupas já secas, elas estavam cheirosas, tinha o cheiro dele. Me troquei, arrumei meus cabelos prendendo eles em um r**o de cavalo e lavei o rosto, eu estava um trapo. Olheiras enormes e umas bolsas de ar embaixo dos meus olhos devido ao choro de horas atrás. Ele fez um sanduíche natural, um suco de laranja e cortou algumas frutas.
— Desculpe não poder te oferecer uma refeição mais completa, mas é que eu não sei fazer outras coisas na cozinha, além do básico. A Rose é que faz comidas maravilhosas, mas hoje é a folga dela, então eu mesmo me aventurei na cozinha. — Explicou, sentando-se ao meu lado.
— Está perfeito. E eu adoro frutas pela manhã e nesse horário também não como muito. — confessei.
Ouvimos a campainha tocar e Carter foi atender, só podia ser o irmão dele. Ouvi mais uma voz rouca e eu tinha quase certeza que era o outro Williams, ouvi passos vindo até a cozinha, e eles pareciam estar rindo, tomei o resto do meu suco limpando a boca em seguida. Os dois homens entram na cozinha.
— Então você é a vítima do meu irmão desastrado? — O homem que acompanha Carter fala ao entrar na cozinha.
— Ei, foi um acidente. Não quis machucá-la — Carter se defende.
— Ele que é minha vítima, se tem alguém desastrado aqui, esse alguém sou eu. — falei assumindo a culpa que na verdade era toda minha, eu atravessei a rua sem olhar para os lados, Carter não tinha culpa nenhuma.
Os dois se olharam e logo desviaram seu olhar para mim, recebi um sorriso dos dois e me senti novamente um pouco de vergonha.
— Eu sou Noah Williams, irmão do Carter. É um prazer te conhecer — sorridente ele se apresentou me fazendo sorrir também.
— Sou a Felícia, e o prazer é todo meu — retribuo o sorriso.
— Vamos para a sala, lá é melhor para o Noah te examinar. — Carter sugeriu.
Noah começou a tirar o curativo que Carter havia feito na noite passada. O Williams mais velho observava tudo sentado em uma poltrona ao lado.
— Vejo que meu irmão aprendeu direitinho, quem não sabe pensa que o curativo foi feito por um profissional — Carter fez uma careta com a fala do irmão.
Sorri me divertindo com os dois.
— Qualquer pessoa é capaz de fazer um curativo, Noah, não exagere. — Carter foi modesto.
— Oh, que modesto é meu irmão — sorri com a pequena implicância entre os dois irmãos.
Noah era tão lindo quanto o irmão, mesmo porte físico, cabelos castanhos, boca carnuda e bem delineada, olhos azuis como os de Carter, a única diferença eram suas alturas, Noah era mais baixo que Carter alguns centímetros. Mas lindíssimo como o irmão.
— Fisicamente, você não tem nenhum problema. Só peço que não force muito o seu pé, por uns três dias, foi apenas uma pequena torção, mas que se não tiver repouso pode piorar. — Revelou a minha situação e fiquei aliviada com o diagnóstico dele.
— Quanto a febre que ela teve durante a madrugada? — Carter que estava em silêncio se pronunciou, perguntando ao irmão.
— A febre foi devido a tanto tempo exposta na chuva e no frio. Ela não tem nenhum sintomas de resfriado. Não há nada com o que se preocupar, desde que ela não saia mas no frio sem agasalho ou na chuva. — Acrescentou me encarando, repreendendo a minha atitude.
— Está vendo, Carter. Eu estou bem e graças a você que me acolheu e cuidou de mim. — sorri e recebi um sorriso tímido dele. — Obrigada Noah, por vim me atender aqui, sei que enfrentou um plantão difícil noite passada. — Eu seria grata aos dois pelo que fizeram por mim para sempre.
— Não precisa agradecer. Amigos do meu irmão, são meus amigos também, jamais negaria um pedido dele. — Confessou.
Reparei que entre os irmãos havia uma grande amizade e cumplicidade, sempre tentei ser assim com a Alice, até a via como uma grande amiga também, mas ela sempre me tratou com falsidade, me traiu e me decepcionou da pior forma.
— Agora eu preciso ir. Felicia foi um prazer te conhecer, espero que possamos nos encontrar novamente e numa situação melhor. — segurou minha mão despedindo-se.
— Obrigada, Noah! — Carter agradeceu — Antes de ir gostaria de saber se você tem notícias da mamãe? — Perguntou cruzando os braços.
— Ela foi visitar uma velha amiga que fez uma cirurgia, ia passar uma semana com ela. Continua aprontando com você? — Riu, como se aquele assunto incomodasse o Carter.
— Sim, e eu já estou cansado disso, preciso dar um basta nessa história, mamãe tem que entender que eu não sou mais adolescente faz muito tempo. — bufou irritado.
— Case-se e ela larga do seu pé — Noah diz rindo da careta que Carter faz.
— Você sabe o que eu penso a respeito disso, não é mesmo? — Eu estava ficando constrangida por estar ouvindo aquela conversa tão pessoal.
— Sei, mas a dona Julieta não vai desistir. — Afirmou Noah.
— Ela não vai conseguir nada com isso, só vai conseguir que eu seja odiado por todas as mulheres de Londres. — Disse o mais velho.
— Quem foi a louca dessa vez? — Noah pergunta e eu fiquei sem entender bem a conversa dos dois.
— Catherine Smith! Saiu furiosa do restaurante ontem. — Carter riu.
— A mamãe só pode está muito desesperada mesmo pra ver você casado, para querer você com aquela louca. — Acho que a mulher que eles estão falando não deve ser bem vista por eles.
— Antes que eu esqueça e seja uma surpresa para você. A mamãe reformou a casa de campo e pretende se mudar para lá, talvez ela esqueça um pouco desse negócio de querer te casar. — Disse o Williams mais jovem.
— Duvido muito que isso aconteça, mas estou feliz que ela tenha reformado aquele lugar, temos boas lembranças de nossa infância naquela casa. — reprimiu.
— Verdade, meu irmão. Mas agora eu preciso ir, um bom dia para vocês e até a próxima. — Mas uma vez Noah se despediu e foi acompanhado por Carter até a porta.
— Seu irmão é simpático, gostei dele. Vocês parecem ter uma boa relação. — Falei assim que o Noah foi embora.
— Ele é a melhor pessoa do mundo, e sim, temos uma relação ótima. Além de irmãos, somos melhores amigos. — Respondeu.
— Admiro muito irmãos que são assim. Pena que Alice foi tão c***l comigo. — Disse.
— Sinto muito, Felícia. — Falou com sinceridade.
— Tudo bem, vida que segue e agora estou sozinha. — Não me deixaria ficar triste por causa dela.
— Você não está sozinha, se precisar de um amigo eu estou aqui. — Falou sorrindo gentilmente.
— Você é muito gentil, o mundo precisa de mais pessoas como você. Mas preciso ir embora, tenho algumas coisas para resolver. — Falei me levantando do sofá.
— Eu te deixo em casa ou onde você quiser ficar. — sugeriu.
— Eu preciso ir ao banco, depois vou procurar um lugar pra alugar, pra enfim ir para casa buscar minhas coisas. — Respondi.
Esperei Carter se arrumar e saímos da casa dele, que por sinal era uma casa linda e gigantesca, eu me sentiria perdida morando numa casa tão grande sozinha.
— O que você faz? No que trabalha? — perguntou concentrado no trânsito.
— Até ontem eu era garçonete em um café da mãe do meu ex-noivo, mas sou formada em pedagogia, me formei a um ano e meio, porém ainda estou à procura de um emprego. Já deixei vários currículos em algumas escolas, mas não tive resposta de nenhuma — respondi — E depois de ontem, não irei continuar no café, não quero nada que me aproxime do Peter, e nas horas vagas sou voluntária na ong.
— Você gosta da sua profissão? — perguntou, me olhando rapidamente enquanto parava no sinal.
— Adoro! Eu realizei meu sonho de menina, me formar em pedagogia, meu pai sempre me dizia que eu iria ser uma ótima professora, quando falava sobre meu sonho. Mas, ainda estou na luta para conseguir exercer minha profissão.
— Tenho certeza que em breve você vai conseguir realizar seu sonho — disse, com um sorriso carinhoso.
— É o que eu mais desejo nesse momento. Agora mais do que nunca vou precisar de um emprego urgente. Preciso arrumar um lugar para ficar também. Não quero voltar para a mesma casa da minha mãe e da Alice nunca mais.
Chegamos no banco e Carter estacionou o carro do outro lado da rua. O frio estava mesmo congelante, e ele acabou me emprestando um casaco dele já que eu estava com apenas um.
— Tem certeza que vai ficar bem sozinha? Eu posso te esperar e te levar em casa, seu pé ainda não está bem.
— Eu agradeço, mas já tomei muito do seu tempo. Não se preocupe, eu ficarei bem. Mais uma vez, muito obrigada por tudo, você foi um anjo comigo. — Agradeci e ele sorriu, eu estava encantada pelo sorriso dele.
— Faria tudo novamente, e já sabe, se precisar de mim é só me ligar. Aí está meu número pessoal e o da empresa. Foi um prazer te conhecer, Felicia. — Ele tinha me entregado um cartão com seus contatos.
— Até mais, espero te ver na ONG em breve.
— Irei organizar minha agenda e prometo tirar um dia para visitar a ONG. — assenti e saí do carro fechando a porta e vendo-o ir embora logo em seguida.
Encontrei uma pessoa tão boa em uma hora tão r**m, se preocupou e cuidou de mim tão bem como se já me conhecesse a bastante tempo. Algo dentro de mim dizia que ainda iria encontrar aquele homem em algum momento da minha vida. Mesmo minha vida de cabeça para baixo, uma sensação de alívio e recomeço brotou dentro de mim.
Entrei no banco e tentei sacar meu dinheiro, mas minha conta estava dando zerada, tentei várias vezes e a sempre a maldita mensagem aparecia. Procurei o gerente e relatei minha situação.
— Sinto muito, senhorita Cooper, mas todo o dinheiro da sua conta foi sacado semana passada.
— Como assim todo meu dinheiro foi sacado? Mas eu não saquei dinheiro nenhum. — falei incrédula.
— Além da senhorita, mas alguém tinha acesso a conta? — perguntou o senhor grisalho.
Lembrei que o Peter tinha acesso à conta, só podia ter sido ele. Estava juntando dinheiro para comprar meu apartamento e ter minha liberdade, e aquele desgraçado dizia que estava depositando dinheiro na conta, quando na verdade estava me roubando. Maldito seja.
— Sim, meu ex noivo. — respondi ao senhor.
— Se o acesso dele a conta, foi permitido por você, nós não podemos fazer nada.
— Infelizmente foi liberado por mim sim, uma grande estupidez que fiz.
— Lamento muito por você.
— Você não tem culpa, mesmo assim obrigada, tenha um bom dia! — Agradeci e sai do banco, não culpava eles, eu fui a única culpada disso acontecer, acreditei num crápula e acabei me ferrando.
Mas se ele pensa que isso vai ficar assim, ele está muito enganado. Ele vai conhecer a verdadeira Felícia Cooper.