Felicia
Eu não podia acreditar que o Peter tinha feito aquilo comigo. Saí do banco furiosa, todas as minhas economias de anos haviam sido roubadas por aquele escroto do Peter, ah mas ele me pagaria cada centavo roubado. Peguei um táxi e fui para o único lugar que eu sabia que ele estaria naquele horário: o restaurante de sua família.
Cheguei no horário do almoço, o restaurante estava lotado. Meus colegas de trabalho me olharam como se eu fosse um fantasma ou uma serial killer, mas naquele momento eu era uma pessoa traída em busca de vingança. Passei por eles sem dar atenção nenhuma, não estava com humor para conversar, meu alvo era outra pessoa. Segui o corredor que dava acesso à cozinha, pelo vidro da sala de descanso, vi o filhote de d***o na sala, mas ele não estava sozinho, Alice e minha mãe estavam com ele. Me aproximei da porta que estava aberta e por sorte eles não me viram e assim poderia escutar a conversa deles, me aproximei e pude escutar o final da conversa deles.
— Você é o pai, Peter! É seu dever assumir a criança e a Alice. — Mamãe gritou batendo as mãos sobre a mesa.
— Eu não vou assumir essa criança, quem me garante que eu sou mesmo o pai? Já falei com a Alice o que ela deve fazer. — Peter não estava nem se importando com o bebê e com a minha irmã. Fiquei feliz, não pela criança, mas pela Alice e por ela ter feito o que fez comigo.
— Eu já disse que eu não vou fazer aborto nenhum, Peter, essa criança é fruto do nosso amor, jamais a mataria. E eu lhe asseguro que esse bebê é seu filho sim. — disse alisando o ventre.
— Então foi pra isso que você roubou todo meu dinheiro, seu maldito desgraçado? — Entrei na sala gritando furiosa. — Para matar o seu filho. — Conclui sentindo muito nojo dele.
O restaurante tinha uma sala de descanso separada da sala dos funcionários, que ficava nos fundos do restaurante, onde os patrões ficavam, mas dava para ver tudo que acontecia no salão do restaurante.
— Felícia! Onde você esteve, meu amor? Estava tão preocupado com você. — Como um ser humano pode ser tão sínico? Olhar para ele me dava ânsia.
— Não venha com suas falsidades, não devo satisfação da minha vida a você. Apenas quero o dinheiro que você me roubou de volta. — Rosnei brava.
— Eu não roubei dinheiro nenhum, aquele dinheiro também era meu. Eu colocava dinheiro naquela conta, sendo assim tenho direito sobre ele. — Retrucou me deixando mais brava ainda pelas suas mentiras.
— Você colocou algumas migalhas apenas duas vezes. Aquele dinheiro era meu, esforço de vários anos de trabalho. Para que você usou aquele dinheiro? — Perguntei desconfiada.
— Ele deu um desfalque no restaurante da família dele, e a dona Ester cancelou todos os cartões dele como castigo, por isso ele pegou todo o dinheiro da sua conta e você como toda tonta apaixonada, nem notou, sua i*****l. — Alice falou me xingando em seguida.
— Você sabia? — perguntei. — Claro que sabia! Vocês estavam juntos em tudo para me ferrar. — Cruzei os braços sobre o peito.
— Não se faça de coitadinha, Felicia. Você sabia que a Alice era apaixonada pelo Peter, mas mesmo assim colocou suas garras nele e nem se importou com os sentimentos de sua irmã. — Mamãe cuspiu suas palavras com ódio.
— Eu nunca soube que ela tinha algum sentimento por ele. Eu jamais ficaria com um homem que minha irmã gostasse. — Retruquei com um nó na garganta, todos estavam contra mim, eu era a vítima daquela história, mas me colocaram como vilã.
— Sempre foi assim, você sempre teve o que queria. Em casa tinha toda a atenção do papai e que bom que ele foi embora, na escola as melhores notas sempre foram as suas, os garotos sempre se interessavam por você. Mas você sempre com esse seu joguinho de quem não sabe de nada. — Alice replicou furiosa.
Alice guardava mágoas no coração que eu jamais pensei que existiam. Além da mágoa eu também senti um pouco de inveja, minha irmã sentia inveja de mim por algo que eu nem tinha culpa.
— Não tenho culpa de nada disso, Alice. Eu era apenas uma criança quando o papai vivia conosco e eu sempre fui apegada a ele, ao contrário de você, quanto as notas foram méritos que conquistei por estudar horas e horas a fio sem descansar, para conseguir as melhores notas e já sobre os meninos se interessarem por mim, isso é algo que tenho menos culpa ainda, eu não controlo os sentimentos dos outros, não poderia fazê-los gostar de você também. . — Expliquei tentando fazer ela entender o óbvio.
— Porque vocês não deixam pra lavar roupa suja em casa? Estão assustando os clientes, mamãe não vai gostar nada disso. — Peter apontou para o salão do restaurante lotado.
— Você tem razão, eu vim resolver meu problema com você, quero meu dinheiro agora. — Voltei ao motivo que me levou ali.
— Porque você quer tanto esse dinheiro? Quando casarmos iremos morar em uma das casas do papai mesmo, você não vai precisar comprar apartamento nenhum. — Gargalhei em deboche a fala dele.
— Qual a parte do "eu não quero mais você", você não entendeu, Peter? — Ele pensava que eu ainda ficaria com ele depois de tudo que me fez.
— Não é assim que as coisas funcionam, Felicia. — Disse. — Nosso relacionamento só termina quando eu disser que acabou, nenhuma mulher termina comigo. E quanto ao dinheiro, eu não tenho e não vou devolver, somos um casal, dividimos tudo. — Definitivamente ele não me devolveria meu dinheiro.
— Nós não somos mais um casal, seu i*****l. Você vai devolver meu dinheiro sim. — Voltei a tentar.
— Não vou mesmo. — Sentou-se de braços cruzados como se estivéssemos conversando sobre o dia a dia ou sobre o clima.
— Está bem, você pediu. — sai da sala batendo a porta e os três me seguiram aos gritos.
Passei pela cozinha e peguei o extintor, caminhei até o estacionamento. Procurei o carro dele, e lá estava o seu amado Porsche, tinha encontrado o meu alvo. Primeiro comecei com os retrovisores, não sabia onde fui buscar tanta força para quebrá-los. Talvez a raiva que eu estava tenha ajudado.
— Felícia, você está louca? Olha o que está fazendo com meu carro. — berrou se aproximando de mim em desespero. Seu carro era tudo para ele.
— Isso é só o começo, e não se aproxima de mim ou você será o meu alvo. — Ameacei e aquela altura eu não sentia mais dor nenhuma no meu pé, o que significava que algo r**m poderia estar por vir.
Depois de arrancar todos os retrovisores, alguns detalhes do carro e a pintura estava toda riscada, joguei o extintor no para-brisa quebrando em vários pedacinhos. Nesse momento senti um golpe na minha face que me fez cair no chão.
— Peter, não. Você está louco? — Francis e Nick, garçons do restaurante, seguraram ele, que tentava se soltar deles. Enquanto Patrick, o chefe de cozinha me ajudou a levantar.
— Você me bateu? Como ousa tocar em mim? Seu escroto, maldito — Senti um gosto de sangue na boca.
— Você merece mais que isso, sua v***a. — Me xingou, tentando soltar-se dos rapazes que o seguravam.
— Veja o que você fez, eu me envergonho de ser sua mãe, Felícia. — Mamãe veio em minha direção me esbofeteando no mesmo local que Peter tinha batido, meu rosto ardia em brasas.
— Você me bateu por causa do Peter? — Perguntei sem acreditar que ela tinha feito aquilo, ela devia me odiar mesmo.
— Você procurou, ele não tem culpa nenhuma da sua histeria. Ele é o pai do meu neto e estou do lado certo. — A mamãe tinha ficado louca, só isso para explicar ela ter apoiado o Peter.
— Neto que ele negou, ele prefere que Alice tire o filho dele, e é esse tipo de homem que a senhora defende? Eu sou sua filha, seu sangue, eu quem fui prejudicada por ele, era ao meu lado que você deveria ficar, mamãe. — As lágrimas começaram a molhar minha face machucada.
— Você é apenas uma cria indesejada. — Sibilou alto para que todos ouvissem.
Uma punhalada no peito teria sido menos dolorida que aquelas palavras da minha mãe. Fiquei alguns minutos tentando digerir o que tinha ouvido quando Alice se aproximou com seu maldito sorriso no rosto.
— Eu já liguei para polícia, já estão a caminho, nem tente fugir, sua louca. — Apontou o dedo em minha direção como ameaça.
— Venha comigo, Felícia. — Patrick me guiou até a cozinha do restaurante. — Agnes, por favor, faça um pouco de água com açúcar para a menina.
— Senta aqui, sua boca está sangrando, provavelmente cortou. — Eu ainda estava sem acreditar nas palavras da minha mãe.
Tomei a água e Agnes me ajudou a limpar o sangue que saia da minha boca. Meu pé também começou a doer e não conseguia apoiá-lo bem no chão. Eu tive total certeza de que estava sozinha quando vi minha mãe defender um homem sem caráter e minha irmã fazer uma denuncia contra mim.
Tive sorte de os meninos chegarem a tempo de Peter não me agredir mais ou poderia ter sido pior. Como fui cega a passar todos esses anos com um cafajeste como ele. Ainda bem que não me envolvi num casamento com aquele homem.
Peter nunca foi violento, muito menos me deu motivos para desconfiar dele. Tínhamos um relacionamento perfeito, ou era o que eu achava que era perfeito. Talvez tenha fechado meus olhos para qualquer sinal de traição que ele tenha deixado escapar. Como fui burra.
Vinte minutos depois alguns policiais entraram na cozinha, acompanhados pela minha irmã que tinha um sorriso vitorioso no rosto.
— Senhorita Felícia Cooper? — um homem com quase dois metros de altura se aproximou, chamando pelo meu nome.
— Sou eu, senhor. Pode falar. — Pedi e ele assentiu.
— A senhorita está sendo acusada por crime de dano, por isso peço que nos acompanhe. — Informou, com sua postura autoritária.
— Tudo bem. — Eu não me negaria a nada e nem iria fugir, assumiria qualquer consequência dos meus atos. Contudo, ao me levantar senti uma forte dor no tornozelo, e quase cai, o policial que estava próximo foi rápido e segurou em meu braço impedindo a queda.
— Está machucada? Foi agredida? — Perguntou passando a mão pelas minhas costas me apoiando.
— Sim, fui agredida pelo meu ex noivo, o Peter, e por minha mãe. Mas o machucado do meu pé eu consegui ontem, foi uma torção. — Nesse momento o homem afastou meu cabelo de lado e seu semblante mudou.
— Todos os envolvidos estão aqui? — Perguntou, ficando ainda mais sério.
— Não, o senhor Peter está na sala de descanso juntamente com a mãe da Felícia, a senhora Meredith. — Disse Patrick.
— Vocês três, busquem eles. Eu irei levar a senhorita Felícia até a viatura. — Ele foi gentil. — Consegue andar? — Perguntou.
Assenti.
Sentia que meu rosto estava inchado e tinha um corte na minha bochecha. O policial me auxiliou até fora do restaurante, colocando meu braço sobre o pescoço dele e segurando na minha cintura. Pelo menos ele era um homem calmo. Me colocou no banco traseiro do carro e na viatura tinha mais um policial.
Saímos em direção a delegacia assim que os outros policiais saíram com a mamãe e o Peter. Eles tinham um semblante tranquilo e Alice não tirava o sorriso do rosto. Algo eles estavam aprontando e a vítima seria eu.
Quando chegamos na delegacia, um advogado já esperava pelo Peter. Fomos encaminhados para a sala do delegado e eu sendo sempre auxiliada por um policial. Contamos tudo o que aconteceu. Como eu já sabia o Peter e a mamãe saíram ilesos mesmo eu tendo registrado a queixa de agressão, mamãe e Alice como esperado ficaram contra mim.
— Senhorita Cooper, seria bom você ligar para um advogado, precisa pagar uma multa ou caso contrário ficará detida. — Informou o delegado.
Eu não sabia o que fazer, não conhecia nenhum advogado e nem tinha dinheiro para isso. O pânico começou a tomar conta de mim. Eu não podia ser presa, eu era tão jovem para ficar anos trancafiada dentro de uma cela de uma prisão. Comecei a chorar sem parar, minha face estava dolorida. Sequei minhas lágrimas com a manga do casaco, aquele cheiro familiar me fez lembrar do dono do casaco.
É isso, o Carter! Ele poderia me ajudar, ele seria a minha única salvação.
Disquei o número dele e depois de chamar duas vezes ele atendeu. Um sorriso desabrochou em meus lábios quando ouvi a voz dele, que era tão sexy e calma.
— Carter! Sou eu, Felicia. Preciso da sua ajuda. — Falei sem esperar mais um segundo sequer. Não queria ficar mais tempo naquela delegacia, sem falar que aquela altura a dor do meu tornozelo tinha triplicado.