Capítulo Cinco - Família

2647 Words
Carter Deixei a contragosto a Felícia no banco e fui para a empresa. Estava difícil trabalhar, ela não saia dos meus pensamentos, ela tinha mexido comigo e deixá-la naquele estado sozinha foi o meu erro, fiquei bastante preocupado, deveria ter insistido mais e ter ficado com ela. Cancelei minhas reuniões e fiquei apenas assinando alguns documentos que já tinham sido revisados pelo Pietro. A manhã se arrastou lentamente e por mais que eu tentasse focar no trabalho minha cabeça estava em outro lugar ou melhor, em outra pessoa. Ouvi batidas na porta, e permiti a entrada, era meu irmão, o Noah. — Noah? Aconteceu alguma coisa? —Indaguei surpreso, ele nunca me visitava no trabalho. — Não, vim te convidar para almoçarmos juntos, faz tanto tempo que não saímos para conversar como fazíamos antes, então, resolvi vim te tirar um pouquinho do trabalho. — Revelou o motivo da visita. — Verdade, faz bastante tempo que não saímos juntos, somos tão ocupados. Chegou na hora certa, não estou conseguindo me concentrar em nada mesmo, então sair agora será uma boa solução para colocar meus pensamentos em ordem. — Comecei a organizar os papéis que estavam sob a minha mesa para poder acompanhá-lo. — Não se sente bem? Aconteceu alguma coisa? — perguntou preocupado. — Vamos almoçar, e te falo o que anda me perturbando. — disse pegando meu casaco. Próximo da empresa tinha um restaurante e confesso que era um dos meus preferidos em Londres. — Percebi que você estava diferente, te conheço Carter, você jamais levaria uma mulher ou qualquer outro estranho para dentro da sua casa e cuidaria dele durante a madrugada como fez com aquela moça. Tem certeza que você e a Felícia já não se conhecem de algum outro lugar? Não precisa esconder nada de mim. — Perguntou preocupado e curioso. — Claro que não, a primeira vez que a vi foi ontem. E não vou mentir pra você, mesmo que eu quisesse não consigo mentir. — Ele riu. — De alguma forma ela mexeu comigo, não consegui me concentrar no trabalho hoje. As imagens dela chorando naquela chuva, com medo, machucada, quando cuidei dela de madrugada, o quão frágil e desesperada estava quando me abraçou e adormeceu nos meus braços… — Espera! Ela fez o que? — perguntou tomando um pouco de suco. — O que você ouviu, Noah. Ela me abraçou chorando, ela estava tendo pesadelos. — Respondi. — E em quais circunstâncias ela adormeceu em seus braços? — sorriu de lado. Eu sabia o que ele estava pensando. — Não é nada disso que você está pensando. Ela falou algumas coisas enquanto estava tendo pesadelos, depois ela acordou e me abraçou chorando, e continuou abraçada a mim, até que ela pegou no sono abraçada a mim. Eu jamais me aproveitaria dela na situação que ela estava. E para que você não pense bobagem eu a deixei na cama e passei o resto da madrugada em uma poltrona. — Expliquei. — Eu não pensei nada, você deveria ver sua cara tentando se explicar. — o garçom entregou o cardápio. Meu telefone tocou. — Alô — atendi sem reconhecer o número. — Carter! Sou eu, Felicia. Preciso da sua ajuda. — Uma voz chorosa ecoou do outro lado da linha. Quando ouvi a voz dela pedindo ajuda senti meu corpo todo enrijecer. — Felicia, o que aconteceu? — perguntei. — Me envolvi numa pequena confusão com o Peter e com a minha mãe, fui detida por destruir o carro dele. Não tinha a quem recorrer, nem conheço nenhum advogado. Você foi a única pessoa que pensei em ligar, mas tudo bem se não puder, eu não quero te incomodar, desculpa. — falou com a voz embargada. — Me passa o endereço da delegacia, estou indo pra ai agora mesmo. — pedi um pouco nervoso. — Delegacia? Aconteceu alguma coisa com a Felicia? — Noah perguntou curioso. — Sim, ela foi presa e pelo que ela me falou , o ex-noivo e a mãe dela estão envolvidos. Desculpe, mas nosso almoço vai ter que ficar para outro dia. — Expliquei ao meu irmão. — Eu vou com você. — revelou Noah, levantando-se. Peguei o endereço com ela e liguei para a advogada da empresa. Ela nos encontraria na delegacia. fomos até a empresa para pegarmos o carro e Noah resolveu dirigir, parecia mais uma tartaruga, e sua lentidão estava me deixando nervoso. — Noah, não sei se você sabe, mas o carro tem algo chamado acelerador. — retruquei exasperado. — Eu estou respeitando a velocidade permitida, quer que soframos um acidente? — respondeu com toda calma que ele sempre teve. — A Felícia está em uma delegacia sozinha, assustada, com aquele escroto do ex e com a cobra da mãe dela. Sem falar que ela destruiu um carro, com certeza deve está machucada, você falou pra ela ter repouso, mas ela não teve, pelo contrário se envolveu em uma confusão, então provavelmente… — Provavelmente ela forçou o pé e se machucou ainda mais, disso eu não tenho dúvidas. — concluiu, parando no semáforo. — Definitivamente essa moça mexeu com você. — sorriu. — mas sabe eu fico feliz por você, eu gostei dela, até acho que vocês combinam. — Confessou. — Você está vendo coisas onde não tem, eu apenas quero ajudá-la, ela não tem ninguém, as únicas pessoas que poderia está ao lado dela, são as que estão querendo ferrar com a vida da garota. — Noah estava parecendo uma jovem de quinze anos criando uma história de romance onde não tinha. — Você só não quer admitir, mas eu estou certo. — sorriu convicto. Resolvi ignorar o Noah o restante do caminho. Recebi uma mensagem da doutora Lydia avisando que já havia chegado e estava me esperando. Agradeci pela delegacia ser próxima da construtora, o que facilitou para chegarmos mais rápido, porque se dependesse do Noah e sua lentidão no trânsito levaríamos o dia para chegar caso fosse distante. Chegamos na delegacia e nem esperei o Noah estacionar, desci e fui ao encontro da advogada que estava em frente ao departamento. A cumprimentei rapidamente e adentrei a delegacia, sendo seguido pela doutora Lydia e logo atrás o Noah. A advogada informou ao policial que era a advogada da Felicia e ele liberou nossa entrada. Eles estavam num corredor próximo a sala do delegado, havia três policiais, duas mulheres e um homem, que provavelmente são a mãe, a irmã da Felicia e o tal do Peter. Meus olhos a encontraram mais a frente deles, ela estava de cabeça baixa e com a mesma roupa que saiu de casa. Me apressei passando por aquelas pessoas sem nem cumprimenta-las, eu não sou assim, mas só de pensar no que fizeram com aquela mulher eu sentia nojo deles. Senti que me seguiram com o olhar até parar em frente da única que me interessava naquele lugar, ela ainda não tinha notado a minha presença. Me aproximei mais um pouco e senti meu coração apertar ao ouvir um soluço vindo dela, Felícia estava chorando. — Felicia? — Chamei, me abaixando em sua frente. Ela me encarou por alguns segundos, logo se jogando em minha direção, passando seus braços pelo meu pescoço em um abraço. A abracei. — Carter! Você veio. — senti seu corpo relaxar um pouco. — Estou com tanto medo, não quero ficar presa, eu tenho consciência do que eu fiz, mas não quero ser presa. Eu aceito fazer serviços comunitários, qualquer coisa, só não quero perder minha liberdade. — Confessou. — Ei, você não vai precisar fazer nada, nem vai perder sua liberdade, eu prometo, minha advogada vai resolver tudo isso. — Separei o abraço e quando vi seu rosto, um misto de preocupação e raiva me dominaram. — Quem fez isso com você? Seu rosto está machucado, deixa eu ver isso. — Perguntei com o ódio crescendo dentro de mim. Segurei o queixo dela e afastei seus cabelos para poder me certificar a situação do rosto dela. Estava inchado e vermelho, havia sangue no canto esquerdo da boca dela e próximo ao olho estava roxo. — Foi o Peter e a mamãe, eles me bateram. — Disse me encarando com os olhos lacrimejados. Quando ia segurar suas mãos senti um puxão no meu ombro. — Quem você pensa que é para tocar desse jeito a minha mulher? — O homem que estava junto das mulheres berrou em minha direção. — Peter, eu não sou mais nada sua. — Felicia falou tentando levantar-se, mas logo caiu sentada na cadeira que estava a pouco tempo. — Você está bem? — Me direcionei a ela, mas fui impedido pelo homem novamente. Noah também se aproximou e ficou de joelhos na frente dela examinando seu tornozelo. — Você não seguiu minhas prescrições, mocinha. — Noah brincou tirando o sapato que ela usava. — Mas outro babaca tocando minha a mulher. — Peter tentou tirar meu irmão de perto dela, mas segurei seu braço impedindo que ele o machucasse. — Me larga seu babaca, quem você pensa que é para tocar em mim ou na minha Felícia? — Gritou o i*****l, parecendo pequeno perto de mim. — Eu sou Carter Williams, não que eu precise te dar nenhuma satisfação, mas eu quero que você lembre do nome de quem te ensinou que nenhuma mulher merece apanhar. — Avisei e ele me olhou arqueando as sobrancelhas. Desferi um soco na cara dele com toda a força que consegui, fazendo-o cair com a mão no rosto, nesse momento os policiais já me seguraram e levantaram o desgraçado também, minha vontade era fazer ele pagar cada lágrima que ele fez a Felícia derramar e por tê-la machucado. — Carter, não vale a pena. Deixa ele. — Felicia falou tentando se levantar novamente, mas Noah não permitiu. — Peter, meu amor! Ele te machucou? — A mulher mais jovem se aproximou segurando o rosto do i*****l. Ele não aceitou seu toque e se afastou de perto dela. Ela lembrava a Felícia, mas era mais alta e mais magra que ela. — Senhor Williams, eu preciso que se acalme, será mais difícil ter que defender o senhor e a moça. Eu preciso falar com o delegado e saber tudo que aconteceu. — Explicou a advogada e eu apenas assenti. — Isso não vai ficar assim. — O Peter falou, apontando em minha direção e de Felícia que fazia caretas de dor pelo Noah está mexendo no seu tornozelo. O policial que tinha o dobro da altura dele o tirou de perto nós. — Você não perdeu tempo, arrumou logo um ricaço. — Provocou a jovem que acredito que seja a irmã de Felícia, voltando para o lugar que estava antes. A senhora que estava com ela não tinha reação nenhuma, era como se nada estivesse acontecendo. — Tudo bem, eu vou me acalmar. Podem me soltar. — Pedi e assim fizeram. — Acho bom resolverem logo o problema da Felícia, o tornozelo dela voltou a inchar e ela vai precisar ir até o hospital. Ela precisa de cuidados médicos e aqui eu não vou conseguir fazer isso. — Noah alertou preocupado. — Vamos logo resolver isso, Lydia? — chamei a advogada que conversava com a Felícia. — Foi tudo isso que aconteceu, doutora. — Felícia mesmo machucada tinha a voz mais calma que eu já ouvi na minha vida. Conversamos com o advogado e diante de toda situação não foi difícil tirá-la dali. Fiquei responsável pelo pagamento do conserto do carro e paguei a fiança para que ela não ficasse mais nem um minuto naquele lugar. Felícia foi agredida por Peter e por isso a advogada pediu uma medida protetiva contra o seu ex. Saímos daquele inferno uma hora depois. Noah não saiu de perto de Felícia e segurava uma bolsa de gelo no rosto dela, que eu não sei como ele conseguiu aquilo. — Obrigada, doutora Lydia. — Felícia agradeceu quando estávamos na porta da delegacia, esperando meu irmão que tinha ido buscar o carro. A família dela e o seu ex estavam próximos a um carro em frente, nos olhando. Ela se segurava em mim apoiando o peso do seu corpo apenas em uma perna. Estava frio e já era tarde, parecia que ia chover. — Não precisa agradecer, só fiz meu trabalho. Agora se cuida, é melhor vocês irem, o frio pode te fazer m*l. — Lydia era uma mulher muito simpática e uma ótima profissional. — Vou me assegurar que ela fique segura, estamos indo para o hospital agora. — Falei ajudando ela a descer o último degrau. Noah já nos esperava ansioso. A doutora Lydia também entrou em seu carro indo embora primeiro que a gente. — Espera, Felicia. — As duas mulheres se aproximaram. — Suponho que você não vai voltar mais para casa, não é? — A mais velha perguntou. — Não, ela não vai. — respondi antes dela, que me olhou sem entender. — É isso mesmo, eu não vou voltar a morar com você nunca mais. — Felícia afirmou decidida. — Ótimo, deixarei suas coisas na portaria com o porteiro, amanhã logo cedo. Não quero aquelas tralhas ocupando minha casa. — Felícia apertou meu braço e seu corpo tremeu com a fala da sua mãe. — Porque me odeia tanto, mamãe? — A voz de Felícia saiu trêmula. — Não venha com seus dramas, eu não suporto esse seu teatro. — Disse a mulher ríspida. Vi as lágrimas molharem a face dela novamente, passei meus braços por cima dos ombros dela a envolvendo em um meio abraço. — Você não vê que ela está sofrendo? Porque é tão c***l? — questionei exasperado. — E você não se meta, o assunto é entre eu e minha filha. — Que mulher arrogante era a mãe dela. — Ela é minha amiga e eu não vou tolerar você maltratá-la na minha frente. — Enfrentei ela. — Não sabia que você saia com homens mais velhos, maninha. Que gosto peculiar! — Alice provocou Felícia. — Vamos sair daqui. — Abri a porta do carro para ela entrar. — Ele tem quase a idade do seu pai, não tem vergonha na cara de se envolver com um velho? — A mãe de Felícia era c***l e a cada palavra que saia da sua boca, ficava mais machucada. Ela estava sofrendo muito. E eu começando a me zangar com aquilo. — Por isso ela gostava tanto de ficar enfiada naquela ong, dizia que era pelos remelentos, mas o alvo dela era o benfeitor da ong. E além do arquiteto está pegando o irmão médico também. — Alice olhou para o Noah, através da janela do carro. Ouvi dois estralos. Felícia deu dois tapas na sua irmã que a olhou furiosa. — Não me confunda com você, Alice. Eu não tenho nada com nenhum dos dois, os conheci a menos de vinte e quatro horas. Mas de uma coisa tenho certeza que se fosse o Carter no lugar do Peter, ele jamais teria feito isso. — Senti uma satisfação imensa pelo que ela falou ao meu respeito e pelos tapas na irmã. — Você bateu na sua irmã? — a mãe de Felícia gritou exasperada. — Agradeça por ela estar grávida e eu toda ferrada, se não ela não levaria só esses tapas. E agora como não devo satisfação da minha vida para vocês, eu vou embora, adeus. — Ela secou as lágrimas e com minha ajuda entrou no carro. As duas mulheres também foram embora junto com Peter que estava com o advogado dele. Me sentei ao lado dela, no entanto ela ficou todo o percurso quieta. Eu sabia que ela estava dilacerada, por isso a deixei quieta, ela estava uma verdadeira confusão, muitos acontecimentos e muita informação para seu corpo e cérebro processarem. E dali pra frente, como amigo dela, faria o possível e o impossível para vê-la feliz.
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