Capítulo 06 - Você vai ficar comigo
Felícia
Me sentia tão m*l. Minha mãe me disse coisas tão horríveis, meu coração doía mais do que todos os machucados que tinham espalhados pelo meu corpo. Saí daquela delegacia me sentindo a pessoa mais solitária e infeliz do mundo. Carter foi um anjo comigo, me defendeu e cuidou de mim, mesmo me conhecendo tão pouco e há tão pouco tempo. Além dos cuidados dele, ainda tinha o Noah, mais um anjo em minha vida, que o acompanhou e não desgrudou do meu lado um segundo sequer, enquanto Carter estava com o delegado e a doutora Lydia, advogada que o Carter trouxe para me defender.
Seguimos o caminho para o hospital, todo em silêncio. Além de uma desempregada, sem lar, machucada e sem ninguém, eu também tinha uma dívida imensa com o homem ao meu lado que parecia inquieto e bastante preocupado.
O que ele estava fazendo por mim minha família jamais faria. Talvez o meu pai fizesse, mas esse me deixou pra trás há muitos anos e já perdi as esperanças de tê-lo em minha vida novamente, e nem queria me sentir pior pensando nele.
Chegamos no hospital e Noah foi logo pegando uma cadeira de rodas para mim, eu tinha ferrado o meu pé completamente, a dor estava muito forte e não conseguia mais apoiá-lo no chão de jeito nenhum, mas o estrago no carro do Peter me deixou satisfeita.
— Não força o pé, deixa que eu te ajudo. — Falou o homem que só tem me salvado em menos de vinte e quatro horas. Fiquei envergonhada, eu m*l o conhecia e já tínhamos uma i********e de anos.
— Obrigada. — Agradeci me ajeitando na cadeira. — De verdade, obrigada por tudo. — Continuei.
— Não precisa agradecer, fique bem logo e assim eu ficarei satisfeito por ter lhe ajudado. — Sorriu gentilmente. Ele tinha um sorriso tão lindo.
Noah pegou meus dados e fez minha ficha, logo vindo ao nosso encontro, nos encaminhando para o segundo andar do hospital.
— Você vai fazer um raio x para sabermos se fraturou alguma coisa. Seu rosto não inchou mais, mas vou te medicar e terá que passar essa noite aqui em observação. — Noah explicou depois de entrarmos na sala dele. Diferente do Carter, o Noah sempre sorria e eu tinha certeza que o sorriso bonito era de família.
— Não gosto de hospitais, mas se você recomenda, por mim tudo bem. Mas tem um problema. — Falei um pouco envergonhada.
— Qual problema? — Noah e Carter perguntaram juntos, parecia até que tinham ensaiado. Se olharam, um olhar cúmplice de irmãos.
— Eu não tenho dinheiro para pagar a consulta, nem o quarto. E ainda tem minha dívida com você. — Encarei Carter.
— Não vamos falar disso agora, o que importa nesse momento é a sua saúde. — Disse simpático.
— Quanto à consulta, e ao quarto não se preocupe, é por minha conta. — Noah revelou, me dando uma piscadinha.
— Eu não posso aceitar, isso é demais, vocês não tem obrigações nenhuma comigo. — Neguei balançando a cabeça.
— Minha profissão é ajudar as pessoas, Felícia, e você está precisando dos meus serviços. — Respondeu cruzando os braços sobre o peito.
— Exatamente! — Exclamou Carter, se colocando na mesma posição do irmão. Ok, eles não eram gêmeos, mas agiam como tais. — E ninguém aqui está falando em pagamentos. Você tem que se preocupar apenas em ficar saudável e esfriar a cabeça. Foram tantos acontecimentos que imagino que sua cabeça está um caos. — Afirmou o que realmente estava acontecendo comigo.
Os irmãos Williams eram dois teimosos. Eu não queria ser um incômodo, atrapalhei a folga de um e o trabalho de outro, e agora estão sendo tão amáveis comigo. Que bom que ainda existem pessoas assim, esse tipo de atitude deles ainda me faz ter fé na humanidade. Seria bem melhor se todos fossem assim.
Fui levada para sala de raio x e fizeram todos os procedimentos que foram pedidos. Noah conferiu os exames e tinha uma expressão indecifrável.
— Bom, o que era para durar três dias de repouso se converteu em três semanas, Felícia. Infelizmente você sofreu uma pequena luxação no tornozelo, vamos mobilizar seu pé e daqui a três semanas tiramos a bota e talvez seja preciso fazer fisioterapia, na verdade, a fisioterapia é quase certa que será preciso ser feita. — Fiquei preocupada, eu não poderia ficar tanto tempo sem poder me movimentar, eu precisava encontrar um lugar para morar e arrumar um trabalho.
— Eu não posso ficar de repouso, tenho que procurar um lugar para morar e principalmente um trabalho. — Eu fiquei sem nada, depois que o Peter levou todo meu dinheiro não sabia o que fazer, Maldita hora que aquele homem cruzou o meu caminho e eu o deixei entrar na minha vida.
— Ei, não precisa se preocupar com isso, você fica comigo, na minha casa, o tempo que for preciso. — Carter disse animado.
— Obrigada, mas eu não posso, você já fez muito por mim, eu não quero te atrapalhar. — Fiquei envergonhada e fui sincera.
— Você não vai atrapalhar. Não acho que esteja em condições de trabalhar, nem de ficar sozinha. Minha casa é grande e você fica até arrumar um emprego. — Continuou, ele era insistente.
Ele tinha razão, eu não teria condições nem para sair na rua, quanto mais sair a procura de um emprego, se eu recusasse a ajuda dele eu não teria para onde ir.
— Tudo bem, mas eu quero pagar por tudo que você fez por mim. Nem que eu demore um pouco, um pouco não, anos talvez, mas eu vou pagar. — Falei convicta, eles sorriram.
— Tudo certo então, como você desejar. Mas agora fica apenas na sua recuperação. — Pediu.
Fui levada para o quarto e minha perna já estava mobilizada, também fui medicada para não sentir dor. Noah tinha a noite de folga, então foi para casa assim que eu estava devidamente medicada e confortável.
— Pietro, quero que compre roupa feminina e itens de higiene pessoal para o hospital Dr. Francis Escobar, caso não saiba comprar, peça ajuda da senhorita Sanchez. — ouvi Carter no telefone com alguém. — Vou perguntar a ela. — disse vindo até a cama.
— Felícia, quais são suas medidas? — Me encarou segurando o aparelho celular no ouvido.
— Porque você quer saber das minhas medidas? — Perguntei surpresa.
— Você vai precisar de roupas limpas, meu assistente vai providenciar tudo. — Respondeu.
— Não precisa se preocupar comigo, eu estou bem com essas roupas aqui. — disse sorrindo envergonhada.
— Você está com essas roupas desde ontem, e elas estão sujas de sangue, sem falar que sua calça foi cortada. — retrucou. — Devido a sua perna está com essa bota, acho melhor pedir para o Pietro comprar vestidos, vai facilitar na hora de vestir. — A preocupação de Carter me deixava bastante envergonhada e ele não me dava espaço nem para recusar.
— Está bem, eu gosto de roupas mais soltinhas, então visto tamanho médio. Apesar do frio, vestidos são uma ótima opção, mas como não vou sair de casa eles servirão. — Carter sorriu ao concordar com ele.
Ele passou as informações para Pietro e sentou-se na poltrona em frente ao leito que eu estava. Ficou calado me encarando alguns minutos. Ele estava relaxado, tirou o sobretudo e o blazer, dobrou as mangas da camisa e abriu dois botões. Seu cabelo estava bagunçado, o que o deixava naturalmente lindo.
Sorri e ele retribuiu.
— É melhor você ir para casa, descansar. — Falei quebrando o silêncio.
— Não vou te deixar sozinha, só saio daqui com você. — repeliu se encostando no encosto da poltrona, engoli seco observando suas coxas e músculos bem aparente.
— Porque está fazendo isso, nem nos conhecemos direito? E desde ontem você tem sido tão prestativo comigo. — Especulei.
— Não sei. — Deu de ombros. — Só sinto necessidade em te ajudar. — Confessou me dando um sorriso.
— Qual tipo de anjo você é? — Cerrei os olhos o encarando.
— Do tipo que salva mocinhas dos maus tratos de ex abusivo e família tóxica. — juntou as mãos sobre o colo.
— Você é uma boa pessoa, consigo ver em seus olhos. Aliás, essa bondade é coisa de família, não é? Seu irmão também é muito gentil. — Lembrei.
— Nossa mãe nos ensinou a sermos gentis e ajudar qualquer pessoa que precise da gente. Buscamos sempre ajudar quem necessita, independente de quem seja. — Respondeu.
— Sua mãe deve ser uma mulher incrível. — deduzi.
— Sim, um pouco fora da caixinha, mas sim, ela é incrível. — Riu.
— Queria que minha mãe fosse assim, ou que pelo menos me tratasse com um pouco de carinho. — Abaixei o olhar.
— Infelizmente nem toda mulher nasceu com o dom de ser mãe. Qualquer uma pode dar a luz, agora ser mãe nem todas conseguem. Mas, tenho certeza que quem está perdendo de conviver e amar uma pessoa incrível é a sua mãe. — Ruborizei com sua última fala. — Está com fome? — perguntou mudando de assunto, vendo minha última expressão.
— Um pouco. — Respondi.
— Quando o Pietro chegar eu vou comprar algo para nós comermos porque ninguém merece essas comidas de hospital.
— Não vi como ficou meu rosto, devo está horrível. — falei tocando minha bochecha.
— Você ficar horrível? Isso é impossível, você é linda. Veja, está um pouco inchado e roxo, mas nada que possa camuflar sua beleza. — Ele falou com tanta naturalidade que me deixou ainda mais tímida. Porque ele me deixava assim?
Me entregou seu celular com a câmera aberta e pude ver meu rosto, realmente não estava tão r**m. Eu sentia mais ódio do Peter por ter feito isso comigo. E minha mágoa com minha mãe também só aumentava.
Escutamos umas batidas na porta e um homem esguio e barbudo apareceu com algumas sacolas na porta. Carter autorizou a entrada dele que sorriu me olhando. Ele aparentava ser tão gentil.
— Uau, que linda. — Falou ainda com as sacolas nas mãos. Uma loira também surgiu atrás dele.
Carter franziu o cenho na direção do homem. Eu achei divertido e sorri.
— Comporte-se Pietro. — reclamou. — Trouxe tudo que pedi?
— Sim, chefe. A Safira veio comigo, caso a moça precise de ajuda no banho. — Aliás, eu sou o Pietro. — Apresentou-se.
— Eu sou a Felícia, e muito obrigada por ir fazer compras para mim.
— Não precisa agradecer, o chefe manda e eu obedeço. — Carter fez uma expressão engraçada para Pietro.
— Senhorita Sanchez, por favor entre. E obrigado por vir mesmo depois de seu horário de trabalho já ter acabado. — Carter agradeceu e a mulher entrou.
— Não tem problemas, senhor Carter, foi até bom, me distrai um pouco. — Falou a loira, que por sinal era muito linda. — Oi, eu sou a Safira, espero que goste das roupas, todas já foram higienizadas, pode usar sem medo. Sei que as enfermeiras podem te ajudar no banho, mas nem todas são legais e delicadas, mas eu sou. — Sorriu.
— Olá, é um prazer te conhecer, Safira, muito obrigada. — agradeci. — Vendo como se veste, tenho certeza que vou amar as roupas. — Ela sorriu com o elogio.
— Já que a Safira vai te ajudar no banho, claro se você quiser. Eu vou com o Pietro comprar algo para comermos. — Carter anunciou.
— Eu quero a ajuda dela sim, se ela puder me ajudar. — Sorri para a mulher.
— Claro, será um prazer. — Sorriu.
— Então vamos logo, Pietro. Assim elas terão mais privacidade. Daqui uns trinta minutos estamos de volta, é o tempo que elas terminam. — Informou puxando o homem.
Pietro assentiu e seguiu junto com Carter. Safira me ajudou com o banho e ela se mostrou ser uma pessoa muito simpática. Descobri que ela tem um filho de três anos e que mora com a mãe. Trocamos números de telefone e ela disse que eu poderia ligar ou mandar mensagem para conversarmos quando eu quisesse. Talvez eu tenha ganhado uma amiga, e com certeza uma ótima amiga.