Fuga Sem Destino

1143 Words
A noite foi um borrão. Os sons dos tiros, os gritos distantes e a tensão no ar não davam espaço para descanso. Damiana e D.F. estavam escondidos em um dos pontos mais isolados da favela, mas a sensação de perigo era palpável. O ar estava denso, carregado de algo que ela não conseguia definir. D.F. ainda estava em alerta máximo, mas sua expressão estava mais sombria do que nunca. Ele havia se afastado um pouco de Damiana, como se tentasse se proteger, ou talvez proteger a si mesmo das emoções que estavam se tornando cada vez mais difíceis de ignorar. Ela observava ele com um misto de curiosidade e apreensão. Aquela não era mais a mesma pessoa que ela tinha conhecido quando chegou à favela. Ele estava mais vulnerável agora, mais... humano. Mas também mais distante. — O que vai acontecer agora? — perguntou Damiana, quebrando o silêncio que os envolvia. Sua voz estava cheia de incerteza, e ela se sentia estranha, como se estivesse perdida em um lugar onde as regras já não faziam sentido. D.F. se virou lentamente para ela, seus olhos fixos nos dela com uma intensidade que quase a fez desviar o olhar. — Eu não sei — respondeu ele, com a voz baixa, mas carregada de peso. — Mas o que quer que aconteça, você precisa estar preparada. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Preparada? Para o quê? Para a vida que ele estava oferecendo? Para a violência que era parte do mundo dele? — O que você está dizendo? — perguntou ela, agora mais próxima. Não conseguia entender por que ele parecia tão distante, tão fechado, quando ela o via em perigo. Ela queria ajudá-lo, queria que ele soubesse que, apesar de tudo, ela estava ali, ao lado dele. Mas D.F. não parecia interessado em receber ajuda. Ele estava focado em algo maior, algo que ela não conseguia compreender totalmente. E talvez fosse isso que a mantinha tão distante dele, mesmo quando os dois estavam fisicamente próximos. — Não podemos ficar aqui por muito tempo — ele disse, mudando de assunto, como se tivesse se perdido nos próprios pensamentos. — Os outros vão querer saber o que aconteceu com os homens que atacaram. E se ficarmos por aqui, seremos alvos fáceis. Damiana assentiu, embora seu coração estivesse apertado. Ela sabia que, enquanto ele falava sobre segurança e estratégias, ele também estava tentando afastar-se dela emocionalmente. Ele não queria que ela fosse um fardo. Ele queria mantê-la segura, mas também queria manter sua distância. Era a única maneira que ele conhecia de proteger quem ele amava. — Eu não vou te abandonar — disse ela, com firmeza, como se sua própria declaração fosse um ponto de não retorno. Ela olhou para ele, esperando que ele a encarasse, que ao menos visse a determinação em seus olhos. Mas ele apenas a observou por um momento, antes de suspirar e se afastar, voltando a focar em sua tarefa de manter a vigilância. Ele não respondeu. Mas ela sentiu que, em algum lugar profundo dentro dele, ele queria acreditar nas palavras dela. Queria que ela ficasse, que fizesse parte de sua vida, mesmo que isso significasse se entregar ao caos. A madrugada chegou silenciosa, mas não menos ameaçadora. Eles haviam se movido para um esconderijo ainda mais remoto, e Damiana sentia a tensão no ar crescer a cada minuto. O medo de serem encontrados era um peso constante, e ela se perguntava quanto tempo eles poderiam continuar fugindo. D.F. havia se tornado ainda mais reservado. Ela sabia que ele estava escondendo algo de importante, algo que não queria que ela soubesse. Mas ela também sabia que, em algum momento, ela teria que confrontá-lo. Ela não poderia viver nessa incerteza, não podia continuar a se perder no silêncio dele. — D.F., o que você não me contou? — perguntou ela, tomando coragem para finalmente questioná-lo. Ele parou por um momento, como se a pergunta tivesse o atingido de forma inesperada. Olhou para ela, mas o olhar não era mais o de antes. Não era o olhar de um líder implacável. Era algo mais... distante. — Há coisas que você não entenderia, Damiana. Coisas que... que não são para você. — Sua voz falhou por um instante, mas logo se recuperou. — Eu te protejo porque é o que posso fazer. Não posso te envolver mais do que já estou. Este mundo... ele não tem lugar para você. Ela sentiu uma dor aguda no peito ao ouvir aquelas palavras. Ele estava tentando afastá-la. Estava tentando mantê-la longe de seu mundo, do caos e da violência que ele comandava. Mas a verdade era que ela já estava nele. Ela já estava envolvida, e não podia mais sair. — Eu já estou envolvida, D.F. — Ela disse, com a voz firme. — Eu já fiz minha escolha. E não vou me afastar de você. Ele a encarou, como se tentasse ler suas palavras. Mas, em vez de se afastar ou rejeitar, ele deu um passo em direção a ela. Os olhos dele estavam intensos, e por um breve momento, Damiana pensou que ele iria beijá-la. Mas, em vez disso, ele falou em um tom suave, mas grave: — Então, se você realmente está pronta para isso... você precisa entender o que está em jogo. Não podemos mais voltar atrás. Damiana sentiu o peso das palavras dele cair sobre ela, mas também sentiu algo mais. Algo mais profundo. Ela sabia que ele estava dizendo isso para protegê-la, mas a verdade era que ele próprio estava tão perdido quanto ela. Ele estava se afundando em seu próprio mundo de mentiras, violência e segredo. E ela, por sua vez, não sabia mais onde começava o amor e onde terminava o perigo. Ela sabia apenas que, ao lado dele, estava disposta a enfrentar tudo. A manhã chegou com uma calmaria estranha. O som da favela, antes tão intenso, agora parecia distante. Mas a tranquilidade era falsa. Damiana sabia que, em algum momento, eles teriam que deixar o esconderijo. Eles teriam que fazer escolhas. E aquelas escolhas determinariam não apenas o destino deles, mas a própria natureza do amor que existia entre os dois. Damiana se aproximou de D.F., que estava sentado, perdido em seus próprios pensamentos. — O que vamos fazer? — ela perguntou, sem rodeios. Ele a olhou por um longo momento. E, pela primeira vez, algo diferente brilhou em seus olhos. Não era o líder implacável. Não era o homem frio e calculista. Era o homem que, finalmente, começava a se entregar. A se permitir sentir. — Vamos lutar. — Ele disse, a voz baixa, mas carregada de um poder silencioso. — Porque, agora, não temos mais nada a perder. O destino estava selado. Eles estavam juntos nesse caminho, e a cada passo, mais fundo no perigo e na paixão, Damiana sabia que não havia retorno.
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