Damiana nunca imaginou que o som das sirenes e os tiros ecoando nas ruas da favela poderiam se tornar parte da sua realidade. Mas agora, enquanto D.F. a puxava com firmeza, ela sentia que estava completamente envolvida nesse mundo, um mundo do qual ela não conseguia mais escapar.
A mão dele estava quente, mas a pressão em seus dedos parecia um lembrete constante de que o tempo estava se esgotando. Eles estavam sendo seguidos, ela sabia. Não havia dúvidas. A favela, com suas vielas estreitas e ruas caóticas, parecia ter se tornado uma prisão, e os inimigos estavam por toda parte.
Eles corriam pelos corredores escuros, pelas escadas estreitas que levavam aos terraços. Damiana tentava manter o ritmo, mas o medo a fazia vacilar. Ela estava com D.F., mas ainda assim sentia que tudo podia acabar em qualquer momento.
Quando chegaram a um ponto mais alto, onde o vento cortava com mais intensidade, ele a puxou para um canto escondido.
— Fique aqui e não saia até eu voltar. — Sua voz era grave, quase desesperada. Ele a olhou com uma intensidade que fazia seu coração acelerar. — Eu não quero te perder, Damiana.
As palavras dele a tocaram de uma forma que ela não conseguia explicar. D.F. nunca havia mostrado esse tipo de vulnerabilidade, e a ideia de que ele estava tão preocupado com ela a fez sentir um misto de emoções. Medo, desejo, uma sensação de conexão. Mas também a lembrança de que ele era um homem perigoso, que vivia no limite, e que ela não poderia se permitir esquecer isso.
Ele a beijou rapidamente na testa antes de se afastar. Seus olhos estavam cheios de algo que Damiana não conseguia definir, mas que a fez sentir uma onda de calor percorrer seu corpo.
— Não vai demorar — ele disse, antes de desaparecer na escuridão da noite.
Damiana ficou ali, sozinha, cercada pelo caos da favela. O som dos tiros ainda ecoava pelas ruas, mas agora ela sentia que estava no centro de tudo. Era como se o mundo ao seu redor tivesse se distorcido, e a única coisa real fosse o homem que ela havia começado a amar, mesmo sabendo que isso significava se perder.
O tempo parecia se arrastar. Cada segundo era uma eternidade, e ela sentia os nervos à flor da pele. Olhava para a rua, tentando vislumbrar qualquer sinal de D.F., mas não via nada além das sombras que se arrastavam entre as construções.
De repente, o som dos passos. Rápidos, apressados. Damiana se levantou, pronta para correr, mas a figura que apareceu era outra. Era um homem alto, com uma tatuagem visível no pescoço. Ele estava armado, a arma apontada para ela.
— Você! — ele gritou, com um sorriso c***l. — Vamos dar um passeio.
Damiana congelou. Sabia que ele não estava brincando. Mas o que poderia fazer? A única coisa que restava era tentar manter a calma e esperar que D.F. voltasse a tempo.
Ela engoliu em seco e tentou se manter firme. O homem começou a se aproximar, seus olhos fixos nela, como se a estivesse avaliando. Mas, antes que pudesse dar mais um passo, uma explosão de luz e som fez o homem hesitar. O barulho dos tiros cortou a noite, e o homem se virou, tentando entender de onde vinha o ataque.
Damiana não sabia o que estava acontecendo, mas a oportunidade era agora. Sem pensar, ela correu para o outro lado, fugindo pela escada, se afastando da linha de fogo.
Ela não sabia por quanto tempo correu, mas o som dos tiros parecia aumentar. Seu coração batia forte no peito, e a adrenalina a fazia correr sem parar, até que ela avistou uma figura familiar.
D.F. estava ali, com os braços abertos, como se tivesse esperado por ela. Sem pensar duas vezes, Damiana correu até ele, e ele a puxou para perto, abraçando-a com força. Mas, ao contrário das vezes anteriores, ele não a empurrou para longe. Ele a segurou, quase como se estivesse se agarrando à última coisa que restava.
— Não me deixe. — Ele sussurrou, com uma intensidade que fez Damiana fechar os olhos. Ele estava ferido, mas não era o sangue que ela temia. Era a dor nos olhos dele.
— Eu não vou. — Sua voz saiu mais suave do que ela queria, mas não havia mais tempo para hesitar. Ela estava ali, com ele, e sabia que não havia como voltar atrás.
Mas o silêncio entre eles não durou muito. Logo, os gritos e o som dos tiros se aproximaram novamente, e D.F. empurrou Damiana para o chão, se colocando em posição para enfrentá-los.
— Fique abaixada — ele ordenou, a voz firme.
Damiana fez o que ele disse, seu corpo tenso, seus sentidos alertas. Ela sabia que a vida deles estava por um fio. O mundo ao redor parecia desaparecer, e tudo o que ela conseguia pensar era em sobreviver.
O som dos disparos se aproximou, e, de repente, a favela parecia um campo de guerra. Mas no meio da confusão, ela sentiu a mão de D.F. tocar a dela, como se quisesse garantir que ela ainda estava ali, com ele, no meio do caos.
O confronto durou mais algumas horas. A favela estava em alerta máximo, e Damiana sentiu como se estivesse vivendo um pesadelo do qual não poderia acordar. Quando finalmente o silêncio se instalou, e o som das sirenes tomou conta das ruas, D.F. a puxou novamente para perto.
— Agora, não temos mais escolha — disse ele, com a voz baixa. — Você vai ter que confiar em mim. Eu vou te tirar daqui. E, se for preciso, vou levar você para bem longe, onde nada disso possa te alcançar.
Damiana olhou para ele, seus olhos arregalados. Ela sabia que ele estava falando sério, mas, mais uma vez, ela se viu dividida. O homem que a atraía com sua intensidade, sua violência, agora a estava levando para um caminho sem volta.
E ela sabia, com uma certeza assustadora, que nunca mais poderia voltar atrás.