O Perigo na Sombra e a chama que Arde

1810 Words
Damiana acordou com o som das ruas agitadas. A favela nunca descansava, mas algo estava diferente naquele dia. O ar estava mais tenso. O cheiro da comida, o grito das crianças, tudo parecia carregar uma energia sombria. Na cozinha, Capilé estava tomando café. D.F. ainda não tinha aparecido. Ela percebeu que ele parecia ainda mais fechado nas últimas 24 horas, como se estivesse se preparando para algo. Para uma batalha. — Onde está D.F.? — perguntou, ao sentar-se à mesa. Capilé levantou o olhar e a observou com um sorriso forçado. — Ele tá fora. Tem umas coisas pra resolver. Melhor não se meter. Damiana sentiu um calafrio. Algo estava errado. Mas ela sabia que não poderia questionar. Afinal, o morro era governado por leis que ela não entendia completamente. O dia passou sem grandes incidentes, mas o peso do silêncio de D.F. pairava sobre ela. À noite, a favela estava mais movimentada do que o habitual. O barulho das motos, o som das sirenes distantes e o murmúrio das conversas tornavam o ambiente denso. Damiana estava no terraço, tentando encontrar paz, quando viu uma movimentação estranha nas ruas abaixo. D.F. apareceu, mas ele não estava sozinho. Dois homens grandes o acompanhavam, suas silhuetas se destacando na penumbra. Damiana franziu a testa. Ele parou no centro da praça, onde um grupo de jovens estava reunido. Ela não pôde ouvir claramente, mas o tom de D.F. era baixo, ameaçador. — Você tem certeza disso? — perguntou um dos homens, uma voz grave e desconfiada. — Sim. Eu quero o controle total dessa área. E se precisar derramar sangue, que assim seja. Damiana não conseguia acreditar no que estava ouvindo. D.F. estava falando sobre vingança, controle... ela nunca imaginaria que ele fosse tão envolvido em algo tão sombrio. De repente, ele se virou e seus olhos se encontraram com os dela, no terraço. O tempo pareceu parar. O silêncio entre os dois era palpável. Damiana sentiu um aperto no peito. Aquilo a assustava, mas ao mesmo tempo, a atraía. Era um homem marcado pela vida, mas ele também parecia vulnerável, como se estivesse lutando contra algo dentro de si mesmo. Ela tentou desviar o olhar, mas não conseguiu. Na manhã seguinte, D.F. não falou nada sobre a reunião da noite anterior. Damiana percebeu que ele estava diferente. Mais fechado, mais duro. — O que aconteceu ontem à noite? — ela perguntou, sem olhar diretamente pra ele, enquanto ele tomava café. Ele a observou, mas não respondeu imediatamente. — Nada que você precise saber. Damiana sentiu o peso das palavras dele. Ele estava afastando-a, como se não quisesse envolvê-la em seu mundo. Mas ela sentia que estava no meio disso, agora. Ele a tinha trazido pra aquele lugar. Para sua vida. E não podia simplesmente afastá-la assim. — Eu tenho o direito de saber — disse, mais firme. — Eu sou sua responsabilidade. Ele a encarou por um instante, e, por um momento, Damiana viu uma rachadura na máscara de dureza que ele usava. Mas, como sempre, ele se recompôs rapidamente. — Não é responsabilidade sua, Damiana. Você não entende. Mas ela entendeu mais do que ele imaginava. O perigo que ele estava enfrentando, as escolhas que fazia, a vida que levava... ela começava a ver tudo isso, e o medo que sentia por ele começava a se transformar em algo mais. Algo que ela não queria aceitar. Naquela noite, quando o relógio marcava a madrugada, um som abafado fez Damiana acordar. Alguém estava na porta. Ela se levantou, com o coração acelerado, e abriu devagar. D.F. estava ali, com uma expressão tensa, e seus dois homens o seguiam. — Tem algo acontecendo — disse ele, com voz grave. — Fique dentro de casa, e não saia até eu voltar. Ela queria protestar, mas sabia que não havia escolha. Obedeceu. A porta foi fechada, e ela se sentou na cama, ouvindo os sons distantes da favela. A tensão era palpável. Algo estava prestes a acontecer. Horas depois, o som das motos e a troca de tiros começaram. O fogo cruzado ecoou pela favela. Damiana tremia. A qualquer momento, ele poderia estar ali, em perigo. Ela não sabia como reagir, o medo a paralisava. Quando finalmente D.F. voltou, estava coberto de suor e poeira. Seus olhos estavam escuros, como se a batalha que enfrentara tivesse deixado uma marca profunda. — Está tudo bem? — ela perguntou, levantando-se. Ele a olhou, e por um instante, seu olhar foi suave. Quase... arrependido. — Sim. Mas esse jogo é mais perigoso do que você imagina. Você não pertence a isso. — E você? — ela questionou, aproximando-se dele. — Você pertence a isso? Ele se calou, e os dois ficaram ali, olhando-se. O conflito era claro. Ele queria afastá-la, mas não conseguia. E ela queria entendê-lo, mas não sabia como. Damiana sentiu uma força, uma tensão, crescer entre os dois. Algo que nenhum dos dois poderia ignorar. E naquele momento, ela soubera que sua vida nunca mais seria a mesma A manhã seguinte foi abafada, como se o próprio ar estivesse impregnado com o cheiro da tensão que tomara conta da favela. Damiana sentiu um nó no estômago, um medo que ela não conseguia entender completamente. Ela sabia que algo grande estava prestes a acontecer, algo que poderia mudar tudo. D.F. estava em pé, observando a rua pela janela, com os braços cruzados. O rosto fechado, os olhos fixos em algo distante. A sua presença naquele espaço fazia o ar parecer ainda mais pesado. Damiana não se atreveu a se aproximar, mas ela o observava, tentando entender o que passava por sua mente. Ele parecia cada vez mais distante, como se estivesse mergulhado em um mundo que ela não poderia alcançar. — Eu preciso que você fique dentro de casa hoje — disse D.F., sem virar a cabeça para ela. Ela o encarou, surpreendida pela ordem. Ela já havia se acostumado a seguir suas instruções, mas havia algo de urgente em seu tom, algo que a fazia questionar se ela estava realmente segura naquele lugar. — O que está acontecendo? — perguntou ela, se aproximando cautelosamente. Ele finalmente se virou para ela. O olhar dele estava mais duro do que nunca, mas havia algo de... perdido, por trás da fachada de dureza. — Não é seguro. Alguns dos nossos rivais estão se aproximando. Tenho que fazer o que for necessário para proteger o morro — respondeu ele, com a voz tensa. Damiana engoliu em seco. Ela sabia que o morro era uma selva, e que, por mais que ele tentasse protegê-la, nada ali era seguro. — E eu? — ela perguntou, sem saber se deveria ter falado aquilo. — Você não pode me proteger de tudo. Ele hesitou, e por um momento, o muro de indiferença que ele erguera ao redor de si mesmo parecia ruir. Mas logo ele o reconstruiu, mais rápido do que ela poderia perceber. — Você está segura aqui, por enquanto. Apenas... fique dentro de casa. Mas Damiana não queria ficar. Ela não queria ser só uma espectadora do mundo dele. Ela queria entender. Queria estar ao lado dele, mesmo que aquilo significasse se perder. Ela sabia que seus sentimentos por ele estavam crescendo, algo que ela não conseguia controlar, algo que estava se tornando mais forte do que ela imaginava. O dia passou com a mesma tensão no ar. Os sons da favela, antes familiares, agora pareciam mais ameaçadores. E a cada movimento que ela ouvia lá fora, seu coração disparava. Estava se sentindo prisioneira, não apenas dentro daquela casa, mas dentro de seu próprio coração. Quando D.F. finalmente voltou, no final da tarde, estava com o rosto coberto de sujeira, os olhos cansados, mas o olhar ainda tão impiedoso quanto sempre. Ele não falou nada. Apenas passou por ela, sem olhar. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas não ousou falar. Mas ele se deteve, como se algo a tivesse chamado. Olhou para ela, e dessa vez, a intensidade do olhar não era de comando ou de indiferença, mas de algo mais sombrio, mais... íntimo. — Você não tem ideia do que é viver assim, Damiana — disse ele, com a voz rouca. — Não tem ideia do que significa não ter ninguém em quem confiar. Não tem ideia do que significa ser o alvo de todos. Ela sentiu um peso no peito. O que ele dizia não era só sobre o morro. Era sobre ele. Era sobre o homem que ele era, o homem que ele fora. — Eu quero entender. — As palavras saíram quase como um sussurro. Ele não respondeu de imediato. Apenas a olhou, como se estivesse medindo suas palavras. — Você não entende, porque não precisa entender. Você não pertence a este mundo, Damiana. Você é... diferente. Ela franziu o cenho, confusa. — Então... o que você quer de mim? — perguntou, finalmente, encarando-o. Ele deu um passo em direção a ela, e o ar entre os dois parecia mais pesado, carregado de algo que eles dois sabiam que não poderiam controlar. O instinto de proteção dele contra ela. E o desejo, que começava a se enraizar em ambos, mas que nenhum deles estava disposto a admitir. — Eu não quero que você se machuque — ele respondeu, com a voz baixa. — Mas eu não sei se posso proteger você de tudo. Não nesse mundo. Damiana sentiu uma onda de emoções conflitantes invadir seu peito. Ela queria estar com ele. Mas sabia que, ao fazer isso, estava entrando em um caminho sem volta. O caminho do perigo. O caminho do desejo proibido. Ela olhou para ele, sem saber o que dizer. Ele parecia tão vulnerável naquele momento, mais do que ela jamais imaginara. Era como se, por um segundo, ele tivesse deixado cair a máscara do líder implacável do tráfico e mostrado a verdade dele. Mas logo ele se afastou, e o homem implacável voltou. — Fique dentro de casa. Não saia, Damiana. Por favor. Ela assentiu, sem palavras. Mas o medo não estava mais só lá fora. Ele estava dentro dela também. À noite, a favela estava em alvoroço. O som de tiros e gritos ecoava pelas ruas, cada vez mais perto. Damiana sentiu o pânico se alastrar pelo seu corpo. Ela tentou ficar calma, mas a angústia tomava conta de seu peito. A qualquer momento, algo poderia acontecer. E ela sabia que, dessa vez, D.F. não poderia protegê-la. Mas, de repente, a porta se abriu. D.F. estava ali, ofegante, com o olhar feroz. Ele foi direto até ela, sem dizer uma palavra. Apenas a puxou para si, com uma força que fez seu coração acelerar. — Não se preocupe — ele sussurrou, com a voz tensa. — Eu vou te tirar daqui. Agora. O perigo se aproximava, e o que quer que estivesse por vir, Damiana sabia que seria impossível voltar atrás.
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