Parecia não haver gigantes vigiando a tenda, nem sentinelas na entrada. Embora minha esperança persistisse, gradualmente a solidão se instalava e, com isso, comecei a buscar maneiras de deixar para trás o meu pijama e retornar à realidade da ilha. Encontrei um baú, retirei a poeira que o cobria e percebi que muitos dos valiosos adornos de Malekith estavam guardados em baús extremamente pesados, o que me fez conceber um plano de fuga.
Ele havia sido forçado a abandonar sua própria moradia...
Entre as vestimentas, identifiquei roupas femininas, os trajes de Andrômeda, e meus olhos começaram a se encher de lágrimas. Ela se fora, e eu tinha certeza de que, durante aquela queda, dada a nossa distância, Malekith não teve forças para proteger sua matriz e seu patrono. Enquanto eu manuseava os tecidos brancos com ternura, guardei em minhas memórias as lembranças que compartilhei com ela. Sua influência foi fundamental para nossa união... Imagino se estaria desapontada comigo ao ver a situação atual.
— Retire suas patas daí! — uma voz feminina e autoritária soou em meus ouvidos, me fazendo virar para trás e deparar com uma mulher ruiva e imponente, de braços cruzados e um generoso b***o ressaltado por vestes verdes que delineavam suas curvas. — Estes pertences pertencem a um antepassado poderoso, não devem ser manchados pelas patas sujas de uma divindade falsa!
Eu estava ajoelhada, apoiando-me nos tornozelos e com os joelhos dobrados, mas consegui manter o equilíbrio ao virar para trás e encarar a ruiva desafiadora, acompanhada por duas amigas logo atrás dela. Ergui uma sobrancelha, dirigi meu olhar para as três presentes ali e depois para as roupas.
— Quem é você? — Piscando devagar, senti um pouco de dor no cü ao falar com a gostosa temperamental.
— A futura senhora desta ilha — proclamou ela com um sorriso triunfante —, a escolhida e prometida do Alpha. Agora, por favor, retire suas mãos imundas daí, desfaça sua maldição ou terá que lidar comigo.
Parecia que as amigas dela não estavam tão convencidas pelas palavras da ruiva. Algo me diz que elas estavam até assustadas. Uma delas tinha traços orientais, com os olhos bem puxados e era bem baixinha. A outra era mais corpulenta, com cabelos encaracolados e volumosos, e a pele tão escura quanto a de Andrômeda. Nenhuma delas parecia concordar com o que a ruiva xexelenta estava prestes a fazer.
Pera aí, ela disse prometida?
Meu bem, vamos deixar uma coisa clara nessa história. Isso aqui é um romance cagado, onde eu fiquei com um cachorro de pedigree alto e no segundo livro dei pra dois dele de uma vez. Esse negócio de brigar por macho é cafona e não condiz com meus instintos feministas, mas como eu não estou nas minhas eras feministas, eu vou arregaçar o cü da ruiva e bancar a barraqueira mexicana aqui mesmo. Tenho até uma frase feita, igual daquelas novelas da televisa: “quero ver tirar ele de mim!”
Me levantei, cocei meu nariz e deixei a roupa de lado, porque se eu não vestisse aquilo eu ia sair peladona por aí e esfregar o peitinho na cara de todo mundo. Ô se eu ia!
— Cai dentro, ruiva. Mas já vou falando que só acredito que tua p****a é rosa se você mijar nesquik. — Ela franziu o cenho e eu cruzei os braços. — Vou amaldiçoar geral se não cair fora daqui, agora! Não estou nem aí pra tua lábia de prometida.
As amigas trocaram olhares, concordaram imediatamente e saíram correndo. Isso fez a ruiva atraente olhar para trás, sentindo-se traída e indignada. Mantive meu olhar firme e a vi bufar, aparentemente insegura.
— Isso não vai ficar assim! — ela apontou o dedo na minha direção — O medo que transforma as pessoas em servos não habita em mim! Saiba bem o seu lugar, pois assim que o Grande Líder for liberado, não haverá espaço para essa falsa divindade nesta ilha!
Fiz uma careta enquanto ela saía, expressando minha "birra" ao agitar as mãos e imitar os gestos da ruiva atraente.
— Blá blá blá... Isso não vai ficar assim! — Dei um suspiro, mantendo a roupa no corpo e continuei a imitar a mulher. — Blá blá blá... O Grande Líder... A prometida...
Peguei minhas roupas e comecei a vesti-las, enfrentando alguma dificuldade já que o tamanho de Andrômeda era maior que o meu. No entanto, antes que eu pudesse concluir qualquer passo, Malekith entrou na tenda novamente, desta vez acompanhado da ruiva, que estava histérica e apontando o dedo na minha direção.
Eu estava pagando peitinho, dobrada e segurando o tecido nas coxas e com a visão de um Alpha dentro da tenda, uma ruiva xexelenta, Taurum e Césiu. Todos vieram para apaziguar a irritação da jaburaca e me pegaram ali, peladona. E você acha que eu liguei? É claro que não. Quem quer ver um show, basta me dar um palco, porque platéia eu já tenho.
— Ela está profanando as vestes sagradas de Andrômeda! — exclamou a mulher, apontando um dedo na minha direção. Eu estreitei os olhos, deixei a roupa cair ao chão, coloquei a mão na cintura e revelei ao mundo o que todos desejavam ver. No entanto, eu não estava preparada para a reação de Césiu.
— Abençoada seja. Bela em voz, poderosa em ações, capaz de cegar um macho com tamanha beleza. Uma Deusa... — Césiu falou, interrompido pelo som da voz de Taurum.
— Os Deuses não mantêm pelos íntimos? A f***a tem o caminho limpo... — Taurum também estava fixamente olhando, enquanto a ruiva ficava vermelha como um pimentão.
É claro que ela esperava uma reação de Malekith, e ele não a decepcionou. Assim que Césiu fechou a boca, Taurum notou as veias salientes na estrutura muscular de Malekith. Ele fechou os punhos, cerrou os dentes e rugiu alto:
— Vista-se, mulher! — gritou, a raiva e a ordem marcando seus músculos peitorais, enquanto eu cruzava os braços em sinal de desafio.
— Sua namorada acaba de dizer que não posso. Vou ficar despida. — Eu repliquei, mantendo a compostura. A mulher arregalou os olhos, Malekith fechou os olhos e respirou fundo. Alguma coisa estava errada; embora eu não sentisse medo, a ruiva claramente estava aterrorizada. Taurum e Césiu também demonstravam preocupação.
— Saia da tenda! Não olhem para a Deusa! Vocês estão fixando seus olhos em uma fêmea que não nos pertence! — Taurum gritou com ansiedade, agarrando a ruiva pelos braços e forçando-a a correr consigo.
Eu não entendi bem a tensão e os gritos. Mas ouvi Malekith berrar, esticar os braços e a ossada da estrutura do peito esticar. Não era uma transformação bonita, mas aconteceu rápido demais. O lobo n***o e gigante surgiu rosnando e despontando a dentição branca, ele babava em fúria e apontava os olhos vermelhos de raiva. E nem sequer deu tempo de Césiu sair.
Atingindo por uma pata, Cédiu foi lançado para fora da Tenda, com força ódio e cegueira. Malekith estava fora de si, não era o cachorro contido e forte de sempre, era apenas um monstro descontrolado. Cego, ciumento e cheio de fúria.
— Malekith, não… — Ele passou pela porta da tenda, movendo a estrutura de uma parte dela. As pessoas começaram a gritar e eu olhei para roupa no chão. Eu precisava fazer algo, antes que ele matasse alguém sem sentido algum.
Eu queria pensar que poderia ser uma crise de ciúmes, mas eu sabia que estava além. Ele não aceitava o vínculo, acreditava em maldição, então duvido muito que ele queira apenas afastar o colega. Seja o que for, não era saudável. Então, puxei a roupa e me vesti numa velocidade que não acreditei. Já entendi que não era bom aparecer pelada na frente de ninguém, e foi quando saí de lá que vi a correria se fazendo e Malekith suprindo a pata na garganta do jovem Césiu. Disposto a matá-lo.
— Se for até lá, vai morrer. — Eu travei o caminhar, olhei para trás e Vi Taurum com uma posição de lanceiros contidos, disposto a atacar seu próprio líder.
Era surreal. Nunca, em motivo algum, se colocavam contra os seus. Malekith vivia por eles, e agora eles tinham medo da sua transformação.
— Que morra um, não uma ilha inteira. — soltei, preocupada, mas com coragem para tentar fazer alguma coisa e ao invés de sair correndo.
Descalça, meus pés batiam na areia olhando a vegetação verde, entre meio as cabanas entrepostas e o vilarejo improvisado. Me aproximei da vegetação em que Malekith estava predisposto e vi Césiu abrindo a boca, tentando segurar a pata do líder gigante. Ele estava engasgando, enchendo os olhos d’água e começando a ter a boca arroxeada.
As costas do menino marcaram a terra seca, sujavam seu corpo e o mostrava muito pequeno diante o monstro que estava para matá-lo. Malekiht podia apenas pressionar a pata e separar a cabeça do homem, mas parecia estar feliz em vê-lo sofrer. E se foi por causa do ocorrido na tenda, eu sabia que Taurum seria o próximo. Não era ciúme, era só o instinto territorial do vínculo. Vínculo este que ele só precisava aceitar.
— Não faça isso, Malekith. — Ele rosnou, levantou a cabeça de pelos escuros, mirou os olhos vermelhos em mim e cerrou os dentes. — Você não quer fazer isso. Você não tem o porquê fazer isso. — Ele continuou apertando Césiu, mas olhando para mim. — Eu sou sua. Estou aqui por você e nenhum deles vai tirar o que é seu… ninguém… — Estiquei os braços, me aproximei mais e respirei com um pouco mais de segurança quando Césiu começou a tossir, livre das patas. — Isso, bom garoto… Tá tudo bem… Você não é assim, Malekith. Não com o seu povo. Não com a sua gente.
Césiu, conseguiu se arrastar, me viu com as mãos levantadas e foi puxado por um guerreiro que tentava não perder a cena. Quando menos esperei, Malekith abriu a boca, rugiu de raiva como se quisesse desabafar algo horrível direcionado a mim e o ar balançou meus cabelos. Ele tinha um bafo de cachorro mesmo, mas não me colocou medo. Foi então que eu consegui tocá-o, sentir seu corpo trêmulo e espalmar a mão na pelagem escura, tentando manter a calma.
Eu não sabia explicar o quanto de mim doía em saber que aquilo tudo era culpa do nosso afastamento. Eu juro que quando decidi me sacrificar, eu achei mesmo que este era o melhor a se fazer. E ainda tinha o fato dele ser o Malekith mais jovem, que ele mesmo tratou de vinculá-lo a mim para que não perdessemos o fio do destino. Será que ele sabia das consequências?
— Não há mundo que irá tirar você de mim… lembra? — engoli devagar e marejei os olhos. — Estamos aqui, Malekith. Estamos juntos agora.
Ele caiu. Ele caiu enquanto os ossos se partiam em si, moldava a estrutura canina em forma humana e diminuía o seu tamanho. Não era algo bonito de se ver a olho nu, mas quando ele finalmente se tornou humano, quase caiu. Fui rápida, coloquei meu corpo abaixo do dele e apoiei sua estrutura em minhas costas, notando o quanto ele estava pesado.
— Alguém me ajude, por favor! — pedi em voz alta, enquanto a aldeia toda se formava em vistas pasmas pelo que acabou de acontecer.
Parecia que ninguém estava disposto a ajudar. Estavam com medo ou estavam sem reação. Mas fui surpreendida pela faceta de Taurum se colocando do outro lado, e tirando o peso do seu Grande Líder de cima de mim.
— Bradou ao sete ventos que não é uma Deusa, e domou o monstro mais poderoso da ilha em algumas palavras. — Eu o olhei, engolindo devagar, sabendo que seria difícil explicar essa. — Salvou nossas vidas. Seja conosco e terá meu respeito. — Eu apenas concordei, enquanto o seguia para dentro da tenda novamente.
Ao menos uma coisa boa aconteceu, Taurum estava menos hostil.
Desacordado, Malekith foi posto na esteira da sua tenda, enquanto eu me colocava ao seu lado e tentava cobrir sua nudez. Olhei para a entrada e ouvi um burburinho, e tenho certeza de ter ouvido um grito histérico da ruiva lá fora. Uma parte da estrutura estava comprometida, mas nada que afetasse a entrada ou nos impedisse de utilizá-la.
— Não deixe ninguém entrar, por favor. Cuide de Césiu. — Taurum me olhou, como se avaliasse meu pedido. — Ele vai acordar confuso, e é mais viável que deposite sua ira em mim.
Ele concordou e se retirou em seguida. Eu fiquei ali. Olhando Malekith apagado, já murmurando coisas inaudíveis, anunciando que acordaria a qualquer momento. Será que agora ele iria me ouvir?