" O problema nunca foi o que sentimos… foi o que nunca soubemos fazer com isso.”
O silêncio no carro era insuportável, e não porque ninguém estava falando, mas porque havia palavras demais presas ali dentro.
Eu olhava pela janela, sem realmente ver nada. As luzes da cidade passavam borradas, rápidas, distantes. Tudo parecia distante, menos o que eu estava sentindo.
— Elena…
A voz de Ari veio baixa, como se qualquer palavra pudesse piorar tudo.
Eu não respondi de imediato.
— Você está bem?
Soltei uma pequena risada pelo nariz, sem humor.
— Parece que eu tô bem?
Ela suspirou.
— Não.
Silêncio de novo.
— Eu ia te contar — ela disse, depois de alguns segundos.
Virei o rosto devagar.
— Contar o quê?
— A Laura.
Meu estômago revirou na hora.
— O que tem ela?
Ari passou a mão no rosto, claramente desconfortável.
— A Keana me ligou hoje mais cedo…
Meu corpo enrijeceu.
— Ligou?
— Ela disse que a Laura tinha conseguido vir pra Miami. Que ia fazer uma surpresa pra você.
O ar pareceu sumir por um segundo.
— E você não achou importante me avisar?
A pergunta saiu mais dura do que eu pretendia, mas eu não estava em condições de controlar nada.
— Eu ia avisar! — Ari respondeu rápido. — Eu tentei te ligar, mas você tava no Azure o tempo todo, e depois…
Ela parou. Porque não precisava terminar. Eu estava lá, com a Maya.
Meu peito apertou.
— Eu só… — Ari suspirou. — Não deu tempo, Elena.
Fechei os olhos por um instante tentando organizar o caos. Inútil.
— Ótimo — murmurei. — Perfeito.
Ela virou o corpo na minha direção.
— Ei… não joga isso em mim.
Aquilo me fez abrir os olhos na hora.
— Eu não estou jogando nada em você.
— Está sim.
O silêncio ficou tenso.
— Você tá confusa — ela continuou, mais calma. — E eu entendo. Mas isso aqui não é culpa minha.
Respirei fundo.
Ela estava certa, mas isso não facilitava nada.
— Eu sei — falei mais baixo.
E sabia mesmo. Mas sentir era outra história.
Quando chegamos ao hotel, eu não estava pronta. Não pra isso, não pra nada. A porta do apartamento 727 estava aberta, luz acesa e vozes aparentemente da tv ligada.
Minha respiração travou por um segundo.
— Ela deve estar aí — Ari disse, mais baixa agora.
Assenti.
Sem coragem de responder, empurrei a porta devagar e lá estava ela. Laura estava sentada no sofá, sozinha, como se já estivesse completamente à vontade ali.
Ela levantou o olhar no exato segundo em que entrei.
E sorriu.
Meu coração falhou.
— Oi…
— Oi — respondi, mais baixo do que pretendia.
Laura se levantou devagar, caminhando na minha direção.
— Eu sei que devia ter avisado… — ela começou, com um pequeno sorriso. — Mas eu queria te surpreender.
Fez uma pequena pausa antes de completar:
— Eu encontrei com o Troy no aeroporto. Ele me trouxe direto pra cá a pedido de Keana. Eu pedi que ela me ajudasse a te fazer uma surpresa.
Assenti levemente.
— Conseguiu — murmurei.
Ela parou na minha frente.
— Você não gostou?
A pergunta veio suave, mas direta.
Olhei pra ela. Laura era linda, mas não era só isso. Era o jeito, o cuidado, a presença. E ainda assim meu peito estava apertado por outro motivo.
— Não é isso — respondi.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Então o que é?
Abri a boca.
Mas nenhuma resposta parecia certa, ou suficiente, ou honesta o bastante.
— Eu só… não esperava.
Laura sustentou meu olhar por alguns segundos como se estivesse tentando entender o que eu não dizia. E talvez ela estivesse conseguindo.
— Eu senti sua falta — ela disse, mais baixo.
— Eu também — respondi automaticamente.
Laura deu um pequeno passo atrás.
Quase imperceptível, mas eu vi.
— A viagem foi longa — ela comentou, mudando levemente o tom. — Eu fiquei sabendo que vocês já começaram os testes no Azure, né?
O nome veio leve, mas me atingiu como um soco.
— Foi — respondi.
Curto.
— Você gosta de lá?
Pergunta simples, mas perigosa demais.
— É um lugar bonito.
— Eu vou deixar vocês conversarem — Ari disse de repente, se levantando.
Não me deu tempo de reagir.
— Qualquer coisa eu tô ali embaixo — completou, já caminhando em direção à porta.
E saiu. Me deixando sozinha com ela.
O silêncio voltou, mas agora insuportável.
Laura cruzou os braços, me observando com mais atenção.
— Tem alguma coisa acontecendo.
Não foi pergunta.
Fechei os olhos por um segundo.
— Laura…
— Não — ela interrompeu, com calma. — Eu não preciso que você me explique tudo agora.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Mas não me trata como se eu fosse i****a — continuou.
Direta. Sem elevar a voz, mas firme.
— Eu não tô te tratando assim.
— Tá.
Ela deu um passo à frente.
— Você não tá aqui de verdade desde que entrou por aquela porta.
Silêncio.
— E não é por causa do trabalho.
Meu coração acelerou.
— Laura…
— É por causa de alguém.
Aquilo me atingiu sem defesa.
— Eu não sei do que você tá falando.
Mentira. E das fracas.
Ela soltou uma pequena risada sem humor.
— Você sempre foi péssima mentindo.
Desviei o olhar.
— Quem é ela?
— Laura…
— Eu vi.
Aquilo me fez levantar o olhar na hora.
— Vi você hoje.
Meu estômago afundou.
— No Azure.
O silêncio se quebrou completamente.
— O jeito que você olhava pra ela… — Laura continuou — não era profissional.
Minha garganta travou.
— E o jeito que ela olhava pra você…
Aquilo foi o suficiente, não precisava de mais nada.
— Então eu vou perguntar de novo — ela disse, mais baixo agora. — Quem é ela?
O silêncio virou resposta, e eu não tinha mais como fugir.
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Do outro lado da cidade…
Maya estava sentada na beira da cama.
No escuro. O quarto silencioso demais, grande demais, vazio demais.
O celular estava em suas mãos. A tela acesa, mas ela não fazia nada.
Não tinha nome, não tinha confirmação.
Mas tinha certeza. Ela viu no olhar, no silêncio, na forma como aquela mulher entrou e ocupou um espaço que nunca foi dela.
Maya respirou fundo, mas o ar não parecia suficiente. Porque pela primeira vez ela não estava lutando contra o passado. Ela estava perdendo para o presente. E o pior de tudo era que ela não podia fazer nada.
E naquela noite três corações estavam quebrando de formas diferentes. Por motivos diferentes, mas pela mesma raiz. E talvez o maior erro nunca tenha sido amar.
Mas sim, nunca ter aprendido a ficar.