“Nem todo confronto vem em forma de grito. Alguns vêm em forma de dúvida.”
Maya
A noite parecia mais silenciosa do que deveria. Talvez fosse o cansaço, ou talvez fosse tudo o que tinha acontecido, ou o que ainda estava acontecendo.
Eu não consegui dormir e pelo jeito, não fui a única.
Me encostei na bancada da cozinha, mexendo distraidamente em um copo de água que já não era tocado há minutos.
Phillip apareceu no corredor logo depois. Passos calmos, mas não despreocupados.
— Você sumiu mais cedo — ele comentou, apoiando o corpo na parede.
Não foi uma acusação, mas também não foi só um comentário.
Levantei os olhos devagar.
— Eu precisava de um ar.
Phillip assentiu, mas não saiu dali.
— Você anda… distante.
Respirei fundo antes de responder.
— É o casamento.
— O casamento?
Dei de ombros.
— É muita coisa pra resolver, Phillip. Detalhes, decisões… pressão.
Ele observou cada palavra como se estivesse testando o peso delas.
— Você nunca ficou assim antes.
—Talvez porque nunca foi algo desse tamanho.
Mentira bem construída, as ainda assim, mentira.
Phillip se aproximou um pouco mais diminuindo a distância.
— Ou talvez seja outra coisa.
Segurei o olhar dele sem desviar.
— Tipo o quê?
Phillip hesitou por um segundo e isso disse mais do que qualquer pergunta.
— Eu não sei ainda — ele respondeu.
Ainda.
A palavra ficou no ar e então eu forcei um pequeno sorriso.
— Então talvez você esteja procurando problema onde não tem.
Ele soltou um leve riso pelo nariz.
— Pode ser.
Mas não parecia convencido.
— Mas eu te conheço — ele continuou. — E você não fica assim sem motivo.
Meu coração apertou, mas por fora nada mudou.
— Eu tô cansada, Phillip.
Dessa vez, a resposta veio mais baixa.
— Se for só isso… — ele disse.
Mas não terminou a frase.
Porque nem ele acreditava totalmente nisso.
Dei um passo à frente e encostei a mão no braço dele.
— É só isso.
Ele assentiu.
— Tudo bem.
Mas o olhar ainda guardava dúvida.
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Elena
Eu ainda estava acordada, sentada no chão do quarto. As costas apoiadas na lateral da cama, a cabeça cheia demais pra conseguir desligar.
A porta se abriu devagar.
— Eu sabia que você não tava dormindo.
A voz de Ari veio baixa.
Levantei o olhar.
— Entra.
Ela entrou. Fechou a porta com cuidado e sentou no chão na minha frente.
Do jeito que sempre fazia.
Como se aquele fosse o lugar natural dela.
— Você não tá bem.
Não foi pergunta.
Soltei um suspiro, cansada.
— Eu achei que conseguiria lidar melhor com isso.
Ari me observou por alguns segundos.
— Você encontrou com ela de novo, Elena. Não tinha como ser fácil.
Assenti, desviando o olhar.
— Mas não era pra ser assim… — minha voz saiu mais baixa. — Não depois de tanto tempo.
O silêncio entre nós não era desconfortável.
— Você ainda sente.
Não era dúvida.
Fechei os olhos por um instante.
— Eu nunca deixei de sentir.
As palavras saíram antes que eu pudesse suavizá-las.
Ari assentiu devagar como se já soubesse.
— E ver ela com outra pessoa?
Respirei fundo antes de responder.
— É estranho… — murmurei. — Dói, mas não do jeito que eu achei que doeria.
— Como assim?
Passei a mão no cabelo, tentando explicar algo que nem eu entendia direito.
— Não é só ciúme. Não é só saudade… é como se tudo voltasse ao mesmo tempo. Como se eu estivesse vivendo duas versões da minha vida ao mesmo tempo.
Ela ficou em silêncio, absorvendo.
— E a Laura?
Meu corpo enrijeceu na hora.
Ari não estava me julgando, só tentando entender.
— Eu gosto dela.
— Mas?
Fechei os olhos.
— Mas não é a mesma coisa.
Ari abaixou o olhar por um segundo, pensativa.
— Então você tá no meio de um furacão.
Soltei uma risada fraca.
— Basicamente.
— E a Maya?
Demorei mais do que deveria.
— Ela tá no meio disso também.
Ari levantou o olhar na mesma hora.
— Não, Elena… ela sempre esteve.
— Eu achei que ir embora ia resolver — falei, com a voz mais baixa. — Que distância ia ser suficiente pra apagar tudo.
— E foi?
Balancei a cabeça devagar.
— Não.
— Então você precisa parar de fingir que isso é só passado — Ari disse. — Porque não é.
Minha garganta apertou.
— Eu sei.
Ela se levantou devagar e estendeu a mão pra mim.
— E você também vai ter que decidir o que fazer com isso.
Segurei a mão dela e me levantei.
— Eu tenho medo de estragar tudo.
Ari deu um meio sorriso.
— Amiga, já tá tudo bagunçado.
Isso arrancou um riso pequeno de mim.
— Obrigada.
Ela apertou minha mão de leve.
— Sempre.