Capítulo 17

818 Words
“Nem todo confronto vem em forma de grito. Alguns vêm em forma de dúvida.” Maya A noite parecia mais silenciosa do que deveria. Talvez fosse o cansaço, ou talvez fosse tudo o que tinha acontecido, ou o que ainda estava acontecendo. Eu não consegui dormir e pelo jeito, não fui a única. Me encostei na bancada da cozinha, mexendo distraidamente em um copo de água que já não era tocado há minutos. Phillip apareceu no corredor logo depois. Passos calmos, mas não despreocupados. — Você sumiu mais cedo — ele comentou, apoiando o corpo na parede. Não foi uma acusação, mas também não foi só um comentário. Levantei os olhos devagar. — Eu precisava de um ar. Phillip assentiu, mas não saiu dali. — Você anda… distante. Respirei fundo antes de responder. — É o casamento. — O casamento? Dei de ombros. — É muita coisa pra resolver, Phillip. Detalhes, decisões… pressão. Ele observou cada palavra como se estivesse testando o peso delas. — Você nunca ficou assim antes. —Talvez porque nunca foi algo desse tamanho. Mentira bem construída, as ainda assim, mentira. Phillip se aproximou um pouco mais diminuindo a distância. — Ou talvez seja outra coisa. Segurei o olhar dele sem desviar. — Tipo o quê? Phillip hesitou por um segundo e isso disse mais do que qualquer pergunta. — Eu não sei ainda — ele respondeu. Ainda. A palavra ficou no ar e então eu forcei um pequeno sorriso. — Então talvez você esteja procurando problema onde não tem. Ele soltou um leve riso pelo nariz. — Pode ser. Mas não parecia convencido. — Mas eu te conheço — ele continuou. — E você não fica assim sem motivo. Meu coração apertou, mas por fora nada mudou. — Eu tô cansada, Phillip. Dessa vez, a resposta veio mais baixa. — Se for só isso… — ele disse. Mas não terminou a frase. Porque nem ele acreditava totalmente nisso. Dei um passo à frente e encostei a mão no braço dele. — É só isso. Ele assentiu. — Tudo bem. Mas o olhar ainda guardava dúvida. ____________________________________________ Elena Eu ainda estava acordada, sentada no chão do quarto. As costas apoiadas na lateral da cama, a cabeça cheia demais pra conseguir desligar. A porta se abriu devagar. — Eu sabia que você não tava dormindo. A voz de Ari veio baixa. Levantei o olhar. — Entra. Ela entrou. Fechou a porta com cuidado e sentou no chão na minha frente. Do jeito que sempre fazia. Como se aquele fosse o lugar natural dela. — Você não tá bem. Não foi pergunta. Soltei um suspiro, cansada. — Eu achei que conseguiria lidar melhor com isso. Ari me observou por alguns segundos. — Você encontrou com ela de novo, Elena. Não tinha como ser fácil. Assenti, desviando o olhar. — Mas não era pra ser assim… — minha voz saiu mais baixa. — Não depois de tanto tempo. O silêncio entre nós não era desconfortável. — Você ainda sente. Não era dúvida. Fechei os olhos por um instante. — Eu nunca deixei de sentir. As palavras saíram antes que eu pudesse suavizá-las. Ari assentiu devagar como se já soubesse. — E ver ela com outra pessoa? Respirei fundo antes de responder. — É estranho… — murmurei. — Dói, mas não do jeito que eu achei que doeria. — Como assim? Passei a mão no cabelo, tentando explicar algo que nem eu entendia direito. — Não é só ciúme. Não é só saudade… é como se tudo voltasse ao mesmo tempo. Como se eu estivesse vivendo duas versões da minha vida ao mesmo tempo. Ela ficou em silêncio, absorvendo. — E a Laura? Meu corpo enrijeceu na hora. Ari não estava me julgando, só tentando entender. — Eu gosto dela. — Mas? Fechei os olhos. — Mas não é a mesma coisa. Ari abaixou o olhar por um segundo, pensativa. — Então você tá no meio de um furacão. Soltei uma risada fraca. — Basicamente. — E a Maya? Demorei mais do que deveria. — Ela tá no meio disso também. Ari levantou o olhar na mesma hora. — Não, Elena… ela sempre esteve. — Eu achei que ir embora ia resolver — falei, com a voz mais baixa. — Que distância ia ser suficiente pra apagar tudo. — E foi? Balancei a cabeça devagar. — Não. — Então você precisa parar de fingir que isso é só passado — Ari disse. — Porque não é. Minha garganta apertou. — Eu sei. Ela se levantou devagar e estendeu a mão pra mim. — E você também vai ter que decidir o que fazer com isso. Segurei a mão dela e me levantei. — Eu tenho medo de estragar tudo. Ari deu um meio sorriso. — Amiga, já tá tudo bagunçado. Isso arrancou um riso pequeno de mim. — Obrigada. Ela apertou minha mão de leve. — Sempre.
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