Capítulo 23

891 Words
“Tem gente que se afasta não porque deixou de sentir… mas porque sentiu demais.” Maya não apareceu, e isso, por algum motivo, incomodou mais do que deveria. — Ela avisou que não vinha hoje? Perguntei, tentando soar casual enquanto organizava algumas fichas sobre a bancada. Ari nem levantou o olhar. — Não. Simples e direto, mas com aquele tom que dizia: eu sei por que você está perguntando. Ignorei. — Estranho. — Não é. Aquilo me fez parar. — Como assim? Ela finalmente me olhou. — Elena… — Eu só tô perguntando. Ela suspirou. — E eu só tô respondendo. Ela veio ontem — Ari continuou, voltando a mexer nos papéis. — Ficou o tempo todo evitando ficar perto de você. Meu estômago revirou. — Evitando? — Você não percebeu? Não. Ou talvez tivesse percebido e fingido que não. — Ela tá fazendo isso de propósito. Aquilo me incomodou. — E por que faria isso? Ari arqueou levemente a sobrancelha. — Sério? Revirei os olhos. — Você não acha que tudo gira em torno disso, né? — Não — ela respondeu tranquila. — Mas nesse caso… gira. Silêncio. E pela primeira vez eu não tive resposta. O restante da manhã foi arrastado. Nada fluía direito, nada encaixava, nada parecia completo. E eu odiava quando as coisas não estavam sob controle. Principalmente quando eu nem sabia o que exatamente estava fora do lugar. — Elena. Levantei o olhar. Laura, do outro lado do salão. Com uma prancheta nas mãos. Profissional, focada, distante. — Você pode conferir isso aqui? Assenti. — Claro. Caminhei até ela devagar, como se cada passo precisasse ser pensado. Laura me entregou os papéis sem encostar em mim, sem olhar diretamente. — Os fornecedores de bebida. Tem alguns horários que não estão batendo. Olhei por cima, mas minha atenção não estava ali. — Você não vai almoçar? Ela deu de ombros. — Depois. Sempre depois. Sempre… longe. — Laura... — Elena, por favor. — Ela levantou o olhar, e tinha um cansaço ali que eu não tinha visto antes. — Agora não. Aquilo me fez recuar. — Tá. Ela assentiu e voltou a trabalhar como se eu não estivesse mais ali. No meio da tarde eu saí sem avisar. Sem pensar, só saí. O ar dentro do Azure estava pesado demais, eu precisava de algum lugar onde eu conseguisse respirar. A praia estava quase vazia, o som do mar era constante. Ritmo, calmo. O oposto de mim. Sentei na areia sem tirar o tênis, sem me importar com nada. E fiquei ali olhando pro nada e pensando em tudo. — Eu sabia que você ia estar aqui. Fechei os olhos por um segundo antes de virar. Maya. — Coincidência demais pra ser acaso, né? Tentei brincar, mas não saiu natural. Ela não sorriu. Caminhou até mim devagar e parou ao meu lado. Mas não sentou. — Você sumiu. — Eu precisava de um tempo. — Ou tava fugindo? Suspirei. — Você também sumiu. Aquilo fez ela travar por um segundo. Mas foi rápido. — Eu tava ocupada. Mentira, e nós duas sabíamos. — Você está me evitando. — Eu disse sem pensar. Silêncio. O mar parecia mais alto, mais presente, mais incômodo. — Não estou. Ela respondeu mas não olhou pra mim. — Maya… — Eu só tô focando no que importa. — E eu não importo? A pergunta escapou, e no mesmo segundo eu quis voltar atrás. Mas já era tarde. Maya virou o rosto na hora. Surpresa. Talvez mais do que deveria. — Não foi isso que eu quis dizer. — Então o que foi? Ela passou a mão no cabelo. — Eu não posso fazer isso. — Ela disse quase em um sussurro. — Fazer o quê? Ela riu sem humor. — Você sabe. Eu sabia, mas queria ouvir. — Fala. Ela finalmente me olhou, e ali não tinha mais como fingir. — Eu não posso voltar pra isso. A frase veio firme, mas a voz entregava tudo. — Pra quê? Ela deu um passo pra trás como se precisasse de espaço. — Pra você. Aquilo me desmontou. — Eu não tô pedindo isso. Maya riu de novo. — Não precisa pedir. Eu conheço esse caminho. — Ela cruzou os braços. — E eu sei onde ele termina. Meu peito apertou. — Você não sabe. — Sei. — Ela disse firme — Porque eu já vivi isso. E não terminou bem. Silêncio. — Então você prefere fugir? Perguntei mais baixo. Ela fechou os olhos e respirou fundo. — Eu prefiro não me perder de novo. Aquilo foi um golpe sem defesa. — Você não se perdeu. — Você não estava lá depois. A frase saiu rápida, pesada e cheia de coisa não resolvida. Eu travei. — Maya... — Eu não vou fazer isso de novo, Elena. — Ela disse firme, decidida. — Não vou fingir que não sinto nada e depois desmoronar sozinha. Silêncio. — Então é isso? Perguntei com a voz mais fraca do que eu gostaria. Ela hesitou por um segundo. — É. Mentiu. E eu soube. Porque os olhos dela diziam exatamente o contrário. Ela virou e foi embora sem olhar pra trás. De novo. Fiquei ali sentada, sem reação, sem resposta, sem nada. Porque, naquele momento eu não estava sendo rejeitada, eu estava sendo evitada. E isso doía muito mais.
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