“Tem gente que se afasta não porque deixou de sentir… mas porque sentiu demais.”
Maya não apareceu, e isso, por algum motivo, incomodou mais do que deveria.
— Ela avisou que não vinha hoje?
Perguntei, tentando soar casual enquanto organizava algumas fichas sobre a bancada.
Ari nem levantou o olhar.
— Não.
Simples e direto, mas com aquele tom que dizia: eu sei por que você está perguntando.
Ignorei.
— Estranho.
— Não é.
Aquilo me fez parar.
— Como assim?
Ela finalmente me olhou.
— Elena…
— Eu só tô perguntando.
Ela suspirou.
— E eu só tô respondendo. Ela veio ontem — Ari continuou, voltando a mexer nos papéis. — Ficou o tempo todo evitando ficar perto de você.
Meu estômago revirou.
— Evitando?
— Você não percebeu?
Não. Ou talvez tivesse percebido e fingido que não.
— Ela tá fazendo isso de propósito.
Aquilo me incomodou.
— E por que faria isso?
Ari arqueou levemente a sobrancelha.
— Sério?
Revirei os olhos.
— Você não acha que tudo gira em torno disso, né?
— Não — ela respondeu tranquila. — Mas nesse caso… gira.
Silêncio. E pela primeira vez eu não tive resposta.
O restante da manhã foi arrastado. Nada fluía direito, nada encaixava, nada parecia completo. E eu odiava quando as coisas não estavam sob controle.
Principalmente quando eu nem sabia o que exatamente estava fora do lugar.
— Elena.
Levantei o olhar. Laura, do outro lado do salão. Com uma prancheta nas mãos. Profissional, focada, distante.
— Você pode conferir isso aqui?
Assenti.
— Claro.
Caminhei até ela devagar, como se cada passo precisasse ser pensado. Laura me entregou os papéis sem encostar em mim, sem olhar diretamente.
— Os fornecedores de bebida. Tem alguns horários que não estão batendo.
Olhei por cima, mas minha atenção não estava ali.
— Você não vai almoçar?
Ela deu de ombros.
— Depois.
Sempre depois. Sempre… longe.
— Laura...
— Elena, por favor. — Ela levantou o olhar, e tinha um cansaço ali que eu não tinha visto antes. — Agora não.
Aquilo me fez recuar.
— Tá.
Ela assentiu e voltou a trabalhar como se eu não estivesse mais ali.
No meio da tarde eu saí sem avisar. Sem pensar, só saí. O ar dentro do Azure estava pesado demais, eu precisava de algum lugar onde eu conseguisse respirar.
A praia estava quase vazia, o som do mar era constante. Ritmo, calmo. O oposto de mim. Sentei na areia sem tirar o tênis, sem me importar com nada. E fiquei ali olhando pro nada e pensando em tudo.
— Eu sabia que você ia estar aqui.
Fechei os olhos por um segundo antes de virar.
Maya.
— Coincidência demais pra ser acaso, né?
Tentei brincar, mas não saiu natural.
Ela não sorriu. Caminhou até mim devagar e parou ao meu lado. Mas não sentou.
— Você sumiu.
— Eu precisava de um tempo.
— Ou tava fugindo?
Suspirei.
— Você também sumiu.
Aquilo fez ela travar por um segundo.
Mas foi rápido.
— Eu tava ocupada.
Mentira, e nós duas sabíamos.
— Você está me evitando. — Eu disse sem pensar.
Silêncio.
O mar parecia mais alto, mais presente, mais incômodo.
— Não estou.
Ela respondeu mas não olhou pra mim.
— Maya…
— Eu só tô focando no que importa.
— E eu não importo?
A pergunta escapou, e no mesmo segundo eu quis voltar atrás. Mas já era tarde.
Maya virou o rosto na hora. Surpresa. Talvez mais do que deveria.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Então o que foi?
Ela passou a mão no cabelo.
— Eu não posso fazer isso. — Ela disse quase em um sussurro.
— Fazer o quê?
Ela riu sem humor.
— Você sabe.
Eu sabia, mas queria ouvir.
— Fala.
Ela finalmente me olhou, e ali não tinha mais como fingir.
— Eu não posso voltar pra isso.
A frase veio firme, mas a voz entregava tudo.
— Pra quê?
Ela deu um passo pra trás como se precisasse de espaço.
— Pra você.
Aquilo me desmontou.
— Eu não tô pedindo isso.
Maya riu de novo.
— Não precisa pedir. Eu conheço esse caminho. — Ela cruzou os braços. — E eu sei onde ele termina.
Meu peito apertou.
— Você não sabe.
— Sei. — Ela disse firme — Porque eu já vivi isso. E não terminou bem.
Silêncio.
— Então você prefere fugir?
Perguntei mais baixo.
Ela fechou os olhos e respirou fundo.
— Eu prefiro não me perder de novo.
Aquilo foi um golpe sem defesa.
— Você não se perdeu.
— Você não estava lá depois.
A frase saiu rápida, pesada e cheia de coisa não resolvida.
Eu travei.
— Maya...
— Eu não vou fazer isso de novo, Elena. — Ela disse firme, decidida. — Não vou fingir que não sinto nada e depois desmoronar sozinha.
Silêncio.
— Então é isso?
Perguntei com a voz mais fraca do que eu gostaria.
Ela hesitou por um segundo.
— É.
Mentiu. E eu soube. Porque os olhos dela diziam exatamente o contrário.
Ela virou e foi embora sem olhar pra trás. De novo.
Fiquei ali sentada, sem reação, sem resposta, sem nada.
Porque, naquele momento eu não estava sendo rejeitada, eu estava sendo evitada.
E isso doía muito mais.