Capítulo 2

2062 Words
A manhã havia chegado e, graças a cada toque agudo do meu despertador — que soava como vários martelos batendo diretamente na minha cabeça —, o meu mau-humor também decidiu aparecer. O som insistente parecia ecoar pelo quarto inteiro, como se estivesse determinado a me lembrar que dormir já não era mais uma opção. Provavelmente aquilo era consequência direta do fato de eu não ter pregado os olhos durante quase toda a madrugada. Eu havia perdido as contas de quantas vezes me levantei para ir ao banheiro, ou simplesmente caminhar pela casa em silêncio, tentando organizar pensamentos que pareciam se embaralhar cada vez mais na minha mente. Estendi o braço para desligar o despertador e resmunguei algo incompreensível antes de me virar para olhar Laura ao meu lado, mas ela não estava na cama. Por um segundo, meu coração acelerou. Levantei rapidamente, ainda meio tonta de sono, e caminhei até a cozinha. Assim que me aproximei, um cheiro familiar invadiu minhas narinas e fez o meu estômago reagir imediatamente. Panquecas. Lá estava Laura, em frente ao fogão, usando uma das minhas camisetas largas e com os cabelos presos em um coque improvisado. O vapor que subia da frigideira carregava aquele cheiro doce que sempre me lembrava de casa. Ela se virou assim que percebeu minha presença. — Tudo bem? — perguntou com um sorriso tranquilo. Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo. — Pensei que você tivesse ido embora sem se despedir. Laura franziu a testa de leve, como se aquilo fosse um absurdo. — Claro que não, Elena. - Ela se aproximou e depositou um beijo estalado na minha bochecha. — Resolvi levantar um pouco mais cedo para fazer suas panquecas favoritas. Olhei para o prato já cheio sobre a bancada e depois para ela. — Eu já disse hoje que você é maravilhosa? Ela ergueu uma sobrancelha. — Hoje ainda não. - Laura pegou uma espátula e virou outra panqueca com habilidade. — Agora vai logo tomar seu banho e se arrumar. Vou te esperar para que possamos tomar café juntas. Assenti, ainda meio sonolenta, e caminhei de volta para o quarto. O banho quente ajudou a despertar um pouco meu corpo, mas não foi suficiente para afastar completamente aquela sensação estranha que parecia ter se instalado no meu peito desde a noite anterior. Era um misto de ansiedade, nostalgia e algo que eu ainda não sabia exatamente nomear. Quando terminei de me arrumar e voltei para a cozinha, Laura já havia colocado tudo na mesa: panquecas, mel, frutas cortadas e duas xícaras de café fumegante. Sentamos uma de frente para a outra. Por alguns minutos, apenas comemos em silêncio, aproveitando aquele pequeno momento de tranquilidade antes de tudo começar. — Você ainda pode desistir — Laura disse de repente, como se estivesse lendo meus pensamentos. Levantei os olhos para ela. — Eu sei. Mas nós duas sabíamos que aquilo não era verdade. No fundo, eu sabia que precisava fazer aquela viagem. Laura também sabia. Depois do café, ela precisou sair correndo para o trabalho e, infelizmente, não pôde me acompanhar até o aeroporto. Nos despedimos na porta do apartamento com um abraço demorado. — Promete que vamos nos falar todos os dias? — ela perguntou. — Chamada de vídeo — respondi. — Todos os dias. - Laura sorriu. — Todos. - Afirmei. Observei enquanto ela desaparecia pelo corredor e, alguns minutos depois, chamei um Uber. Durante o trajeto até o aeroporto, fiquei em silêncio no banco de trás, com meus inseparáveis fones de ouvido no volume máximo. A música preenchia o espaço que meus pensamentos insistiam em ocupar. Encostei a cabeça no vidro da janela e observei o céu. Aquilo me fez lembrar imediatamente do dia em que cheguei a Paris. Eu estava extremamente assustada. Lembro perfeitamente da sensação de frio na barriga ao perceber que estava tão longe de casa, atravessando um caminho gigantesco em busca de um sonho que eu carregava desde criança. Mesmo com todo o medo, havia também uma empolgação difícil de explicar. Era a sensação de que algo importante estava começando. Não demorou mais que vinte minutos para que o carro parasse em frente ao aeroporto. Durante o caminho, Ariana havia me enviado uma mensagem dizendo que já estava no portão de embarque me esperando. Assim que entrei no saguão, olhei ao redor tentando encontrá-la no meio da multidão. Pessoas passando apressadas, malas sendo arrastadas pelo chão, vozes ecoando pelos alto-falantes. Nada de Ari. Peguei o celular para avisar que já havia chegado, mas antes que eu pudesse digitar qualquer coisa ouvi alguns assovios exagerados. No meio da multidão havia um pequeno pontinho pulando e balançando os braços descontroladamente. Sorri automaticamente. — Bela postura para uma supervisora de eventos — falei quando finalmente cheguei até ela. Ari cruzou os braços e analisou meu rosto. — Quem é você para falar alguma coisa? Sua cara está mais amassada que bolo velho de padaria, Elena. - Ela inclinou a cabeça com um sorriso provocador. — Laura sentou mais do que deveria? Revirei os olhos. — Pelo menos eu tenho alguém que senta, bolachinha. Ela abriu a boca para responder, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa a chamada do nosso voo ecoou pelos alto-falantes. — Salva pelo gongo — ela murmurou. Em dias normais, aquilo viraria uma pequena guerra para decidir quem ficaria com o assento da janela. Mas, para minha surpresa, Ari apenas deu de ombros. — Pode ficar com a janela hoje. Olhei para ela desconfiada. — Quem é você e o que fez com a minha amiga? — Aproveita enquanto estou sendo legal. A viagem não foi exatamente cansativa, mas foi longa o suficiente para que eu finalmente conseguisse dormir um pouco. Meus pais não faziam a mínima ideia de que eu estava a caminho. Eu havia decidido contar apenas quando chegasse em Miami. Minha relação com eles sempre foi muito boa, e nem mesmo a distância foi capaz de mudar isso. Para minha mãe eu sempre fui mais do que apenas uma filha, eu era a companhia dela. a pessoa com quem ela dividia histórias, segredos e risadas. Nossa relação nunca foi apenas de mãe e filha — éramos amigas. Ela foi a primeira pessoa para quem contei sobre Laura, e também foi a primeira pessoa para quem eu me assumi ainda na adolescência. Nunca vou esquecer o silêncio que veio depois da minha confissão. Não foi um silêncio de julgamento, foi apenas surpresa. Me lembro da reação dela como se fosse ontem. Depois de alguns segundos, ela segurou minhas mãos e disse que aquilo não mudava absolutamente nada e que me amava independentemente de quem eu amasse. Ainda assim, ela sempre deixou claro que seria minha decisão contar ou não para o restante da família. Mesmo assim, sempre me deu todo o apoio que eu precisava. Ouvia atentamente as minhas histórias dos shows do Fifth Harmony em que eu ia com minhas amigas e claro, das minhas paixões. E desde que soube da existência de Laura, mamãe vive perguntando quando vai finalmente conhecê-la. Meu pai era diferente, mais reservado, mais silencioso. Ele sempre dizia que eu era a menininha dele. Devido ao trabalho, não convivíamos tanto quanto eu gostaria, mas ele sempre dava um jeito de estar presente nos momentos importantes. Papai era um homem sério, sistemático… mas tinha um coração enorme. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido contar a ele sobre meus relacionamentos. Sempre que pensava em tocar no assunto, algo travava dentro de mim. Eu simplesmente mudava de assunto. Filha única dos dois lados da família, eles fizeram de tudo para que eu pudesse realizar grande parte dos meus sonhos. Mas também sempre fizeram questão de me manter com os pés no chão. Minha ida para Paris trouxe um pouco de sofrimento para eles. Principalmente para minha mãe. Mas papai foi quem a ajudou a entender que aquilo era necessário. Que eu precisava ir em busca das minhas próprias conquistas. Mesmo que isso significasse ir sozinha. Fui acordada por Ariana assim que o avião aterrissou. Meus olhos ainda estavam pesados, e tudo indicava que eu precisava de mais algumas horas de sono. — Vamos — ela disse, segurando minha mão e me puxando para levantar. — Keana disse que Troy está nos esperando perto da saída. Ari e eu caminhamos na frente enquanto o restante da equipe — cerca de quinze pessoas — aguardava pelas bagagens. Avistamos Troy de longe. Nunca havíamos nos encontrado pessoalmente, mas era impossível não reconhecê-lo. Alto, cabelos claros, olhos caramelos. Basicamente a descrição que Ari repetia em praticamente todas as conversas. — Ari! — ele disse abrindo um sorriso e abraçando a baixinha. — Oi, Troy. — Oi, Elena — ele disse se virando para mim. — Como foi a viagem? — Tudo certo. Só estou um pouco cansada. Ariana soltou uma risada. — Cansada? Essa daí já é branca que dói. Agora com essas olheiras parece um episódio de The Walking Dead. Troy riu. — Muito engraçada — respondi com desdém. — Podemos ir? — Claro. Ele apontou para o estacionamento. — Hoje estou encarregado de levar vocês até os apartamentos. Tem uma van esperando o restante da equipe. Entramos no carro. Durante todo o trajeto Ari falou sem parar e Troy respondia animado. Eu apenas observava a cidade pela janela. A vida em Paris era tão diferente que eu quase havia esquecido a sensação de estar em casa. Tudo parecia exatamente igual a quando fui embora. As mesmas ruas, os mesmos prédios, o mesmo ritmo. Fui despertada dos meus pensamentos quando o carro parou. Estávamos em frente a um prédio enorme, revestido por vidros claros que refletiam o céu. Uma piscina gigantesca ocupava boa parte da área externa. — Uau — Ari disse boquiaberta. Troy sorriu. — É aqui que vocês vão ficar. Ele começou a caminhar enquanto explicava. — Os apartamentos já estão divididos para toda a equipe. Vocês duas ficaram no décimo quinto andar, também conhecido como cobertura. Ari arregalou os olhos. — Cobertura? — Aqui embaixo temos piscina, hidromassagem, ofurô, academia e dois restaurantes — continuou Troy. — Um deles é exclusivamente de comida vegana. Ele apontou para o corredor. — O elevador fica à direita. À esquerda temos uma sala de cinema privada. Ele então me entregou um cartão. — Apartamento 727. Qualquer dúvida, podem me ligar. Troy saiu antes que pudéssemos dizer qualquer coisa. Ari e eu nos entreolhamos em silêncio. Seguimos até o elevador tentando processar o quão luxuoso era aquele lugar. Quando a porta do apartamento 727 se abriu, fiquei completamente sem palavras. A sala era gigantesca. Praticamente do tamanho do meu apartamento inteiro em Paris. Uma televisão ocupava quase toda a parede principal. O sofá marrom enorme era acompanhado por duas poltronas elegantes. As janelas revelavam uma vista impressionante da cidade. Nos fundos, a cozinha parecia saída de uma revista de arquitetura. Uma bancada grande e sofisticada ocupava o centro do espaço. Ao lado das janelas havia uma mesa clara para pelo menos dez pessoas. Deixei minhas malas perto da porta. Antes mesmo de perceber, já estava subindo as escadas para explorar o restante do apartamento. No andar superior havia um corredor com três portas. Abri a primeira. Um quarto espaçoso se revelou diante de mim. A cama de casal estava coberta por edredons em tons de cinza claro. Duas poltronas elegantes ficavam ao lado. Do outro lado havia um frigobar e uma televisão. Caminhei até as cortinas e as abri. A visão me fez prender a respiração. Uma piscina privada. Algumas cadeiras de praia luxuosas. Um espaço com churrasqueira e um pequeno bar. Em frente à cama havia a porta do banheiro. Quando a abri, encontrei uma banheira de hidromassagem grande o suficiente para umas cinco pessoas. Fiquei alguns segundos observando tudo aquilo. Antes de ir para Paris, eu jamais imaginaria que um dia ficaria hospedada em um lugar como aquele. Saí do quarto e encontrei Ari parada na porta do último quarto do corredor, completamente abismada. — Elena eu… — ela murmurou. — A gente realmente vai ficar aqui? Sorri. — Parece que sim. Desci as escadas para buscar minhas malas. Tudo o que eu precisava naquele momento era um banho quente. E talvez alguns minutos de silêncio. Depois disso, finalmente ligaria para meus pais. Para contar que, depois de tanto tempo longe… Eu estava de volta.
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