Capítulo 5

1838 Words
Ariana estava nervosa, mas não era um nervosismo discreto. Era daquele tipo impossível de ignorar — o tipo que faz a pessoa levantar, sentar, andar de um lado pro outro e, mesmo assim, sentir que esqueceu alguma coisa importante. — Eu devia ter trazido outra roupa. Olhei pra ela, encostada na porta do quarto, enquanto Ari analisava o próprio reflexo pela terceira vez em menos de cinco minutos. — Você já falou isso. — Porque é verdade — ela respondeu, ajeitando a barra da blusa de novo. — Isso aqui tá muito… sei lá. — Normal? — Exatamente. E se sua mãe achar simples demais? Cruzei os braços, segurando o riso. — Ari, você não tá indo conhecer a rainha da Inglaterra. É só a minha mãe. Ela virou o rosto devagar, me encarando com uma expressão dramática. — Justamente. É a sua mãe. — E? — E você fala dela como se fosse perfeita. — Ela é perfeita — dei de ombros. — Ótimo. Isso só piora. Soltei uma risada e fui até ela, empurrando de leve seu ombro. — Relaxa. Você já conhece eles. — Por vídeo, Elena! — ela rebateu. — Por vídeo eu posso desligar a câmera se eu falar besteira. — Então não fala besteira. — Eu SEMPRE falo besteira. — Isso é verdade. Ela me encarou por dois segundos… e depois começou a rir. — Você não ajuda em nada, sabia? — Ajudo sim. Tô sendo honesta. Ari respirou fundo, passando a mão no rosto como se estivesse tentando se recompor. — Eu só quero que eles gostem de mim. A forma como ela disse aquilo foi mais simples do que dramática. Sem exagero, sem teatro. Só… sincera. Inclinei a cabeça, olhando pra ela. — Eles já gostam. — Como você sabe? — Porque eles já te conhecem — respondi. — E porque você é você. Ela fez uma careta leve, como se não estivesse totalmente convencida. — Isso não é um argumento muito confiável. — Funciona até hoje — dei de ombros. — Questionável. — Invejosa. — Convencida. Nos encaramos por um segundo… e começamos a rir de novo. O nervosismo dela ainda estava ali, claro. Mas já não parecia tão pesado. Peguei a chave do quarto e fiz um gesto com a cabeça. — Bora? Ela respirou fundo mais uma vez, como se estivesse se preparando pra um grande evento. — Bora. Saímos do hotel juntas, com aquela sensação estranha de que o dia ainda tinha muita coisa guardada pra gente. No caminho, Ari ficou mais quieta do que o normal. Não em silêncio total, mas naquele tipo de silêncio em que a pessoa claramente tá pensando demais. — Você tá ensaiando o que vai falar? — perguntei, olhando de lado. — Talvez. — Quer que eu avalie? — Não — ela respondeu rápido demais. — Porque você vai rir. — Com certeza. — Tá vendo? Sorri, apoiando o braço na janela. — Relaxa, Ari. Você só precisa ser você mesma. — Isso nunca deu errado pra você? Pensei por um segundo. — Algumas vezes deu. — Ótimo — ela murmurou. — Muito reconfortante. — Mas hoje não vai dar — completei. Ela me olhou de canto. — Por quê? Dei um pequeno sorriso. — Porque você vai conhecer a melhor parte de onde eu vim. Ari não respondeu na hora, mas eu vi o cantinho da boca dela subir, de leve. E, pela primeira vez desde que saímos do hotel, ela pareceu um pouco menos nervosa. A porta se abriu antes mesmo que eu tivesse a chance de bater pela segunda vez. — EU SABIA QUE ERAM VOCÊS! Minha mãe apareceu praticamente saltando na porta, com um sorriso enorme no rosto. Antes que eu pudesse reagir, já estava sendo puxada para um abraço apertado. — Mãe! — ri, meio sem ar. — Meu Deus, hoje você está ainda mais bonita — ela disse, segurando meu rosto. — Eu também senti sua falta, tá? E nem parece que nos vimos a poucos dias. — Sentiu nada, você só liga quando precisa de receita — ela provocou. — E eu sempre sinto a sua falta. — Calúnia. — Confirmado — veio a voz do meu pai lá de dentro. Revirei os olhos, sorrindo, e então dei um passo pro lado. — Mãe… essa é a Ari. Minha mãe nem deixou eu terminar. — ARIANA! — ela praticamente gritou, abrindo os braços. — Finalmente! Ari, que até então estava numa postura toda certinha, arregalou os olhos e acabou rindo. — Oi! — ela disse, entrando no abraço. — Meu Deus, é muito estranho te ver fora da tela! — Eu ia falar a mesma coisa! — minha mãe respondeu, ainda segurando ela pelos braços. — Você é mais baixa do que eu imaginava. — E você exatamente como a Elena descreveu — Ari disse, sorrindo. — Linda, maravilhosa e sempre certa? — minha mãe perguntou. — Mãe… — Ou dramática e mandona? — meu pai apareceu na porta da sala, cruzando os braços. — Miguel! — minha mãe reclamou. Ari soltou uma risada que saiu mais fácil do que qualquer palavra. — Ok… agora sim eu tô me sentindo dentro das chamadas de vídeo — ela disse. Meu pai se aproximou, olhando pra ela com um meio sorriso. — Então você é a Ari que aguenta essa aqui todos os dias? — Infelizmente, sim — ela respondeu, completamente natural. — Ei! — Corajosa — ele assentiu, estendendo a mão. — Gostei. Ela apertou a mão dele, ainda rindo. — Eu tento. — Para de assustar a menina e deixa elas entrarem — minha mãe puxou Ari pela mão. — Vem, entra! Eu fiz uma coisa. Eu já sabia exatamente o que era, e pelo brilho no olhar da Ari, ela também. Assim que entramos, o cheiro confirmou. Ari parou no meio da sala, inspirando fundo. — Não acredito… Olhei pra ela, já sorrindo. — A famosa. Minha mãe apareceu na porta da cozinha, com um pano de prato no ombro. — Torta de batata — ela anunciou, orgulhosa. Ari levou a mão ao peitode um modo teatral. — Eu esperei por esse momento. — Eu te disse que era a melhor do mundo — falei. — Você falou — ela concordou, ainda encarando a cozinha como se fosse um templo. — E ela não exagera — minha mãe disse. — Vem provar. Nos sentamos à mesa como se aquilo já fosse um ritual antigo. Nada de formalidade, nada de tensão — só conversa, risada e comida boa. — Então — meu pai começou, apontando o garfo pra Ari — você confirma que a Elena ainda esquece panela no fogo? — PAI! Ari quase engasgou de tanto rir. — Confirmo — ela disse. — E acrescento: ela também esquece onde deixa o celular… estando com o celular na mão. Minha mãe bateu na mesa. — EU SABIA! — Vocês estão exagerando. — A gente? — Ari me olhou. — Você já me pediu para te ligar para achar o seu celular com ele no bolso e no silencioso. — Isso foi UMA vez. — Foi ontem — ela respondeu, sem hesitar. Meus pais caíram na gargalhada. Traição. Pura traição. Mas no meio daquilo, eu só conseguia observar. Ari completamente à vontade, rindo, conversando, se defendendo, me entregando sem dó nenhuma. E meus pais… recebendo aquilo como se ela sempre tivesse feito parte dali. — Tá, chega de expor minha filha — minha mãe disse, rindo. — Ari, me conta: ela é mandona no trabalho também? — Muito. — Eu não sou! — Ela organiza até o pensamento das pessoas — Ari continuou. — Mas funciona, então ninguém reclama. — Tá vendo? Liderança. — Controle — ela corrigiu. Meu pai apontou pra ela. — Gosto dela. — Eu também — minha mãe completou, naturalmente. Por um segundo, o tempo desacelerou. Não foi um momento pesado, foi simples, leve e significativo. Ari sorriu, mais tranquila do que em qualquer momento desde que saímos do hotel. — Eu tava nervosa pra vir — ela admitiu. — Sério? — minha mãe perguntou, surpresa. — Mas a gente já conversa tanto! — É diferente ao vivo — Ari respondeu. — Mas… vocês são exatamente como eu imaginei. — Isso é bom ou r**m? — meu pai perguntou. — Muito bom. Minha mãe estendeu a mão por cima da mesa e tocou o braço dela com carinho. — A gente gosta muito de você, sabia? Ari piscou, meio pega de surpresa. — Eu também gosto muito de vocês. Olhei pra cena em silêncio, e naquele momento, não tinha tensão, nem dúvida, nem espaço pra insegurança. Só a certeza de que aquilo fazia sentido. Quando saímos da casa dos meus pais, o céu já estava começando a escurecer. Assim que entramos no carro, Ari se jogou no banco e soltou um suspiro longo. — Eu sobrevivi. Ri. — Sobreviveu com louvor. Ela virou o rosto pra mim, com um sorriso enorme. — Eu amei eles. — Eles te amaram também. — Sua mãe… — ela balançou a cabeça — eu quero adotar ela pra mim. — Eu não divido. — Egoísta. Ficamos em silêncio por um instante. — Obrigada por me trazer — ela disse, mais calma. Olhei pra ela. — Obrigada por vir. Ela assentiu, olhando pela janela, mas ainda sorrindo. E pela primeira vez no dia eu senti que tudo estava exatamente no lugar. __________________________________________ À noite, o clima era completamente diferente. A degustação estava montada com perfeição. A mesa cuidadosamente organizada, cada detalhe pensado para impressionar. Phillip já estava lá, acompanhado de algumas pessoas — provavelmente as madrinhas. — Vocês arrasaram — ele disse, assim que nos viu. — Está incrível. — Ainda nem provou — Ari respondeu, animada. — Se está assim visualmente, eu confio no resto. Sorri, agradecendo. Enquanto todos se acomodavam, expliquei cada prato, cada combinação. O ambiente estava leve, cheio de expectativas. Foi então que senti, antes mesmo de ver. Algo mudou, um desconforto sutil, quase imperceptível, começou a crescer dentro de mim. Como um alerta silencioso. Ouvi o som de passos se aproximando. — Desculpem o atraso — uma voz feminina disse. Meu corpo inteiro reagiu antes mesmo que minha mente conseguisse processar. Não, não podia ser. Levantei o olhar lentamente. Primeiro, os detalhes. O jeito de andar, a postura, o cabelo caindo exatamente como eu lembrava. Meu coração começou a bater mais rápido, ela se aproximou mais. E então… Os nossos olhos se encontraram. O mundo parou literalmente. Todo o som ao redor desapareceu. As vozes, os risos, o tilintar dos talheres — tudo foi engolido por um silêncio ensurdecedor. Porque, de todas as pessoas que poderiam estar ali… Era ela. E pelo jeito que sua expressão mudou ao me reconhecer, ela também sabia exatamente quem eu era. — Elena? — Ari chamou, ao meu lado, em um sussurro confuso. Mas eu não consegui responder, porque naquele instante, o passado tinha acabado de voltar. E ele estava bem na minha frente.
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