Capítulo 21

942 Words
Acordei com o silêncio, e isso por si só, já estava errado. Laura sempre fazia algum barulho pela manhã. Seja mexendo na cozinha, arrumando alguma coisa, ou até cantarolando baixinho alguma música aleatória que ficava na cabeça o dia inteiro. Mas naquele dia, nada. Abri os olhos devagar.O quarto parecia estranho, frio, vazio. Sentei na cama, passando a mão pelo rosto, ainda tentando acordar de verdade. E foi quando eu lembrei de tudo. A conversa, as palavras, o jeito que ela me olhou, o jeito que foi embora. Meu peito apertou na hora. Levantei rápido, caminhando até a porta. Abri. A sala estava organizada demais, silenciosa demais. Laura estava lá, sentada à mesa. Com uma xícara de café na mão. — Bom dia — eu disse, hesitante. Ela levantou os olhos. — Bom dia. Simples educado, mas vazio. Aquilo me incomodou mais do que qualquer briga. Caminhei até a cozinha, sem saber exatamente o que fazer com o meu próprio corpo. — Você acordou cedo. — Sempre acordo. A resposta veio automática, sem espaço pra conversa. Peguei uma xícara, coloquei café. Minhas mãos estavam levemente trêmulas. — A gente precisa conversar. Ela soltou um pequeno suspiro. — A gente já conversou. — Não… não daquele jeito. Laura apoiou a xícara na mesa com cuidado, como se estivesse evitando qualquer som mais alto. — Elena — ela começou, calma — eu não quero discutir. — Não é discutir... — É sim. — Ela me interrompeu. Mas não foi agressiva, foi cansada. — E eu não tenho energia pra isso hoje. Silêncio. — Então você só vai fingir que tá tudo bem? A pergunta saiu antes que eu pudesse filtrar. Ela levantou o olhar, e dessa vez havia algo ali. — Não — respondeu. — Eu só não vou fingir que não entendi o que você disse ontem. Meu coração apertou. — Eu não quis... — Mas quis. Você só não queria lidar com isso. Aquilo me calou. Laura respirou fundo. — Eu não tô com raiva de você, Elena. Eu só… — ela pausou — tô me colocando no meu lugar. O silêncio veio pesado. — Que lugar? Perguntei mais baixo. Ela me olhou e demorou um pouco antes de responder. — O que não é prioridade. — Você é. — Não sou. — Ela não elevou a voz, mas foi firme. — E tudo bem. Eu só não vou forçar algo que claramente tá quebrando. Minhas mãos se fecharam levemente. — A gente pode consertar... Laura sorriu. Mas não foi um sorriso feliz, foi triste. — Não se conserta uma coisa que ainda nem sabe o que é. Ela se levantou. — Eu tenho algumas coisas pra resolver hoje. — Resolver o quê? — Eu pedi pra Keana me encaixar em algumas tarefas do evento. Aquilo me pegou desprevenida. — Você vai trabalhar? — Vou. — Laura... — Eu não vim pra cá só pra te ver, Elena. — Aquilo foi um corte limpo. — E sinceramente, acho melhor assim. Ela passou por mim, parou por um segundo. — A gente se vê mais tarde. E saiu sem olhar pra trás. Fiquei parada no meio da sala, com a sensação de que alguma coisa tinha mudado e não ia voltar pro lugar. O dia no Azure começou diferente, pesado. Como se o ar estivesse mais difícil de respirar. Ari percebeu na hora. — O que aconteceu? Ela perguntou baixo, enquanto organizávamos alguns materiais. — Nada. Resposta automática. — Elena. — Ela cruzou os braços. — Não faz isso comigo. Suspirei. — A Laura… Nem precisei terminar. Ari fechou os olhos por um segundo. — m***a. — É… Silêncio. — Ela sabe? — Sabe. — Tudo? Balancei a cabeça. — O suficiente. Ari passou a mão no rosto. — E agora? — Eu não sei. E pela primeira vez era verdade. — Bom dia. A voz. Aquela voz. Meu corpo inteiro travou antes mesmo de eu virar. Maya. — Bom dia — respondi, tentando manter o tom neutro. Ela se aproximou devagar. Observando, sempre observando. Ari pediu licença e foi fazer alguma coisa aleatória. — Você tá estranha. — Só tô cansada. — Não parece só cansaço. — Maya cruzou os braços. — Aconteceu alguma coisa? Foi ela? Meu coração acelerou. — Quem? Ela inclinou a cabeça. — A garota de Paris. Você seguiu em frente, né? A frase veio calma, mas carregada. E diferente da última vez não foi curiosidade. Foi… outra coisa. Difícil de nomear. — Maya... — Eu só quero saber se isso tá te afetando. — Ela desviou o olhar por um segundo. — Porque tá atrapalhando o trabalho. Mentira. Ou meia verdade, mas eu deixei passar. — Tá tudo sob controle. — Não parece. — Silêncio. — Ela tá aqui, não tá? Aquilo me travou de novo. Maya riu baixo, sem humor. — Claro que tá. Ela assentiu como se confirmasse algo que já sabia. E aquilo me incomodou mais do que deveria. — Isso muda alguma coisa pra você? — Perguntei sem pensar. Maya congelou por um segundo, mas se recuperou rápido. — Não. — Rápida demais. — Não tem por que mudar. Mas o olhar dela entregava, e eu vi. Aquilo não era indiferença, era incômodo. Talvez ciúmes. O restante do dia passou arrastado, cheio de olhares que diziam mais do que palavras. Laura apareceu. Profissional, distante. E aquilo me desestabilizou mais do que qualquer confronto. Maya percebeu, Laura percebeu, Ari percebeu. E eu não sabia mais como esconder. Porque no meio de tudo aquilo, uma verdade começava a ficar impossível de ignorar: Eu não estava perdendo o controle da situação. Eu nunca tive controle nenhum.
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