Capítulo 1 - O começo de tudo
O despertador tocou às seis da manhã, como fazia todos os dias.
Antes mesmo de abrir completamente os olhos, Luciana já sabia que teria um dia cheio. A rotina no consultório nunca era previsível e, talvez, fosse exatamente isso que a mantinha tão dedicada ao que fazia.
Levantou-se com calma, fez uma breve oração — hábito que carregava consigo havia anos — e seguiu para a cozinha. O cheiro do café recém-passado preenchia o ambiente, trazendo uma sensação de conforto antes que a correria começasse.
Luciana não era médica nem enfermeira. Ainda assim, de alguma forma, sentia que fazia parte do cuidado com cada paciente que passava por aquele consultório. Era secretária, mas, para muitos, era o primeiro rosto acolhedor em meio à ansiedade de uma consulta.
Ao chegar ao trabalho, organizou a agenda, confirmou horários e respondeu às mensagens. Tudo parecia seguir normalmente quando Beatriz, a outra secretária, aproximou-se.
— Tá sabendo da novidade, Luciana?
— Não. O que aconteceu?
— Hoje virá um novo médico para conhecer a clínica. Ele vai ocupar aquele consultório que era da Dra. Bianca.
Luciana ergueu os olhos do computador.
— Hum... mais trabalho para nós.
Beatriz riu.
— E, pelos comentários, é um médico bem arrogante e exigente. Disseram que ele não gosta de agenda superlotada e é bastante reservado.
— Então vamos aguardar a chegada do senhor arrogante — respondeu Luciana, com um sorriso irônico.
As duas riram.
Naquele momento, Luciana não fazia ideia de que o dia ainda lhe reservaria algo muito mais difícil do que conhecer um médico exigente.
A rotina da recepção continuou.
O som do teclado, o telefone tocando, pacientes chegando, mensagens sendo respondidas... tudo seguia o ritmo que Luciana conhecia tão bem.
E ela gostava daquela previsibilidade.
Gostava porque, quando estava ocupada, não precisava pensar.
E pensar...
Doía.
— Bom dia, Luciana — disse uma paciente, sorrindo.
— Bom dia! Pode aguardar um pouquinho, por favor.
Ela sabia exatamente como agir.
Ser educada.
Ser eficiente.
Ser forte.
Mesmo quando, por dentro, não estava.
Foi então que ouviu uma voz masculina atrás dela.
— Bom dia. Meu nome é Victor Arantes. Tenho horário agendado com o Dr. Fabrício Monteiro.
O nome atravessou o ar como um golpe.
Luciana parou.
Não olhou.
Não se moveu.
Seus dedos continuaram sobre o teclado, mas já não digitavam.
Por dentro, algo que ela havia enterrado há dois anos começou a despertar.
Devagar.
Dolorosamente.
— Luciana? — chamou Beatriz.
Ela piscou algumas vezes, como se estivesse voltando à realidade.
— Sim?
— Pode deixar que eu verifico o cadastro dele.
Beatriz começou a mexer no computador.
— Meu Deus, esse computador está travando de novo... — reclamou. — Consegui localizar o cadastro do Sr. Victor. Vou só finalizar aqui.
Luciana respirou fundo.
Tentou controlar as mãos.
Tentou controlar a respiração.
Tentou convencer o próprio coração de que aquele homem era apenas mais um paciente.
Mas não era.
Era Victor.
O homem que um dia havia feito seu coração acreditar que finalmente tinha encontrado o amor.
O homem que também havia sido responsável por quebrá-lo.
— Pronto — disse Beatriz. — Pode atendê-lo.
Luciana levantou os olhos.
Foi nesse momento que seus olhares se encontraram.
Victor ficou pálido.
Por alguns segundos, pareceu não saber o que fazer.
Luciana também sentiu o mundo parar.
Mas não permitiria que ele percebesse.
Ela havia aprendido a esconder a dor.
— Bom dia, Sr. Victor Arantes — disse, com uma educação impecável e uma ponta de ironia na voz. — Preciso confirmar alguns dados seus, por favor.
Victor apenas assentiu.
Aproximou-se da recepção e respondeu às perguntas.
Nome.
Data de nascimento.
Endereço.
Telefone.
Informações que, para qualquer outra pessoa, seriam apenas dados cadastrais.
Para Luciana, cada pergunta era uma tentativa de manter o controle.
Ela evitava olhar diretamente para ele.
Até que a porta da clínica se abriu novamente.
Uma mulher entrou.
Era linda, elegante e parecia extremamente segura de si.
Caminhou até Victor e sorriu.
— Oi, amor. Foi difícil, mas finalmente consegui estacionar o carro.
Victor ficou visivelmente sem graça.
— Achei que você fosse demorar mais — respondeu, tentando disfarçar o desconforto.
Luciana sentiu o peito apertar.
Então era isso.
Ele havia seguido a vida.
Casado.
A palavra atravessou seus pensamentos como uma lâmina.
Por alguns segundos, ela observou Victor.
O mesmo porte atlético.
Os mesmos braços fortes que um dia a envolveram.
O mesmo olhar.
Os mesmos olhos azuis intensos que tantas vezes haviam encontrado os dela durante os momentos em que acreditou estar vivendo uma história de amor.
Lembrou-se dos beijos.
Das promessas.
Das palavras sussurradas depois de uma noite de amor.
Lembrou-se de quando acreditou que, finalmente, teria uma família.
Uma vida ao lado de alguém que a amava.
Mas não.
Ele havia ido embora.
E levara consigo uma parte dela que nunca mais conseguiu recuperar completamente.
Luciana sentiu a garganta apertar.
Precisou respirar fundo para não deixar as lágrimas aparecerem.
Foi então que a esposa de Victor olhou para ela.
— Querida, falta alguma informação do meu marido?
O tom era educado.
Mas havia algo naquele olhar.
Uma curiosidade.
Uma desconfiança.
Como se tivesse percebido que havia alguma coisa entre os dois.
Luciana sustentou o olhar.
Por dentro, sua vontade era responder.
Você não sabe nada sobre nós.
Não sabe o que ele me prometeu.
Não sabe o quanto ele me machucou.
Mas não diria nada.
Não daria a Victor o prazer de vê-la perder o controle.
— Não, está tudo certo — respondeu, profissionalmente. — O cadastro está finalizado. Por favor, aguardem na sala ao lado. O Dr. Fabrício logo irá chamá-lo.
Victor a observou por alguns segundos antes de acompanhar a esposa.
Luciana só conseguiu respirar novamente quando os dois se afastaram.
Meu Deus...
Como aquilo ainda podia doer tanto?
Ela havia passado dois anos tentando esquecer.
Tentando seguir em frente.
Tentando convencer a si mesma de que o passado estava enterrado.
Mas bastou ouvir o nome dele para descobrir que algumas feridas não desaparecem.
Apenas aprendem a ficar escondidas.
— Luciana, você está bem? — perguntou Beatriz, observando seu rosto. — Você está pálida.
Luciana levou uma das mãos discretamente ao peito.
— Estou bem. Acho que tive uma queda de pressão. Vou até a copa tomar um pouco de água e já volto.
Ela saiu antes que Beatriz pudesse fazer outra pergunta.
Ao passar pela sala de espera, sentiu os olhos de Victor acompanhando seus passos.
Não olhou para trás.
Não podia.
Se olhasse, talvez perdesse toda a força que estava tentando manter.
Na copa, apoiou as mãos sobre a bancada e respirou profundamente.
Uma lágrima escapou.
Ela a enxugou rapidamente.
— Não — sussurrou para si mesma. — Você não vai chorar por ele.
Mas seu coração não parecia disposto a obedecer.
O passado havia voltado como uma enorme onda, devastando toda a estabilidade que ela havia construído.
E o pior era saber que, durante aqueles dois anos, ela não havia esquecido Victor.
Apenas fingira que havia esquecido.
Quando voltou para a recepção, encontrou Beatriz às voltas com o computador, que continuava desligando sozinho.
A recepção estava cheia.
O telefone tocava.
Pacientes aguardavam atendimento.
A rotina havia voltado ao normal.
Ou, pelo menos, parecia.
Beatriz olhou para Luciana e esperou alguns segundos.
— O que foi aquilo?
Luciana fingiu não entender.
— Aquilo o quê?
— Não vai me dizer que esse é o famoso homem do seu passado que resolveu aparecer sem avisar.
Luciana ficou em silêncio por alguns segundos.
— Como você sabia?
Beatriz cruzou os braços.
— Luciana, eu conheço você. Sei o quanto você sofreu por causa desse homem.
Luciana soltou uma risada nervosa.
— Sim. É ele. O próprio.
Respirou fundo.
— Voltou do mundo dos mortos para me assombrar. E, pelo visto, trouxe companhia.
— A esposa?
Luciana assentiu.
— A minha rival.
As duas trocaram um olhar.
Beatriz segurou a mão da amiga por alguns segundos.
— Você está bem?
Luciana respirou fundo.
— Vou ficar.
Mas nem ela sabia se aquilo era verdade.
A manhã seguiu movimentada.
Depois da consulta com o Dr. Fabrício, Victor retornou à recepção para liberar alguns exames e agendar seu retorno.
Assim que entrou, seus olhos procuraram Luciana.
Ela percebeu.
E seu coração disparou novamente.
Victor caminhou em sua direção.
Luciana tentou manter a expressão neutra.
Antes que ele chegasse até ela, Beatriz se adiantou.
— Pois não, Sr. Victor. Pode vir até aqui. Vou liberar seus exames e agendar seu retorno.
Luciana sentiu um enorme alívio.
Não estava pronta para outra conversa.
Muito menos para olhar novamente naqueles olhos azuis e correr o risco de se perder em lembranças que lutava para manter enterradas.
Beatriz realizou o atendimento.
— Aqui estão, Sr. Victor. Seus exames estão liberados e seu retorno ficou agendado para daqui a três semanas, quando deverá trazer os resultados. Caso não esteja com os exames em mãos até lá, entre em contato conosco para que possamos reagendar.
— Eu que agradeço pela atenção de vocês. Obrigado — respondeu Victor.
Ele ainda olhou para Luciana.
Dessa vez, demorou alguns segundos a mais.
Ela permaneceu séria.
Não desviou o olhar.
Não permitiria que ele enxergasse o quanto aquele encontro havia mexido com ela.
Victor então se virou e saiu acompanhado da esposa.
Antes de deixar a clínica, porém, a mulher olhou para Luciana.
Foi um olhar rápido.
Desconfiado.
Como se dissesse, sem precisar pronunciar uma única palavra:
Ainda vamos conversar.
Luciana sentiu um arrepio.
Mas não demonstrou.
Assim que a porta se fechou, soltou o ar que nem havia percebido estar prendendo.
Aquela manhã parecia ter durado uma eternidade.
Mais tarde, Beatriz e Luciana saíram para almoçar.
Precisavam respirar.
Precisavam falar sobre qualquer coisa que não fosse Victor.
E, entre uma conversa e outra, combinaram de sair no final de semana.
— Vamos beber alguma coisa e esquecer essa sexta-feira — brincou Beatriz.
Luciana riu.
Pela primeira vez naquele dia, um sorriso verdadeiro apareceu em seu rosto.
— Acho que nós duas merecemos.
O novo médico, o famoso senhor arrogante, não conseguiu aparecer.
Um compromisso de última hora havia impedido sua visita à clínica, mas ele foi educado o suficiente para avisar e remarcar sua apresentação.
Luciana agradeceu mentalmente por isso.
Naquele dia, já havia recebido emoção suficiente para uma vida inteira.
Ela só queria chegar em casa, tomar um banho, deitar e esquecer tudo.
Ou, pelo menos, tentar.
Porque, sem que Luciana soubesse, aquele reencontro havia mudado o rumo da sua história.
O passado havia acabado de bater à sua porta.
E, dessa vez, ele não pretendia ir embora tão facilmente.