O Reflexo do Desconhecido

567 Words
YONAR O silêncio do meu novo apartamento era o único som que eu conseguia suportar depois de sair daquela oficina. Meus dedos ainda formigavam onde Seth havia tocado, e minhas costas pareciam guardar o calor da presença de Caleb como uma marca invisível. Eu me mudei para esta cidade em busca de anonimato, fugindo de olhares que me conheciam bem demais. Minha vida sempre foi preenchida por outros: os projetos sociais na igreja, as horas intermináveis organizando doações de agasalhos e o trabalho voluntário em abrigos. Eu dizia a todos — e a mim mesma — que não tinha tempo para o amor. Que minha missão era cuidar do mundo. Mas a verdade era mais densa: eu tinha medo do que aconteceria se alguém chegasse perto o suficiente para ver o que eu escondia. Caminhei até o espelho do banheiro e encarei meu próprio reflexo. Aos dezoito anos, eu deveria saber lidar com um flerte, mas com eles... com eles era diferente. Caleb e Seth não estavam flertando; eles estavam reivindicando algo que eu nem sabia que possuía. Abri a gaveta e toquei em uma pequena caixa de madeira, onde guardo o segredo que me manteve isolada, em uma redoma de vidro, durante toda a minha juventude. Um segredo que me impediu de aceitar qualquer convite para sair, que me fez recuar de qualquer toque masculino até agora. É o motivo pelo qual meu corpo é um mapa ainda sem trilhas, uma terra virgem que eu morro de medo de entregar. "Amanhã à noite", eles disseram. A ideia de estar sozinha com os dois, sem o barulho das máquinas, sob a luz âmbar da oficina, me fazia tremer. Eu não conhecia ninguém nesta cidade, não tinha uma rede de segurança. Se eu me perdesse ali, não haveria ninguém para me puxar de volta. Eu me sentia dividida, como se vivesse entre dois espelhos. De um lado, a Yona que todos viam: a menina dedicada, a voluntária altruísta, a órfã de alma antiga que cuidava de todos. Do outro, essa nova Yona que despertou com o cheiro de gasolina e a voz rouca de Caleb. Uma versão de mim que ansiava pela provocação de Seth e pela segurança absoluta que o irmão mais velho parecia oferecer. Eles representam os dois lados do que eu temo e desejo. Caleb é a âncora, o homem que parece capaz de segurar o peso de qualquer segredo sem vacilar. Seth é o vento, o que sopraria as cinzas do meu passado e me faria sentir viva pela primeira vez. Deitei na cama, o projetor antigo repousando na mesa de cabeceira. Ele era minha única conexão real com minha família, com a história de quem eu era antes do "incidente". Eu precisava dele funcionando para ver as imagens que guardavam as respostas que eu buscava. Mas, para isso, eu teria que enfrentar os irmãos Guedes uma última vez. Ou talvez, a primeira de muitas. O medo de ser descoberta estava lá, batendo contra minhas costelas. Mas, pela primeira vez na vida, a curiosidade sobre o que aqueles quatro braços tatuados poderiam fazer comigo era mais forte do que a vontade de fugir. Eu nunca estive com ninguém. Eu nunca deixei ninguém ver o que havia por trás da minha timidez. Mas amanhã, sob o pretexto de consertar o passado, eu temia — e esperava — que eles acabassem por me desmontar por completo.
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