SETH
Caleb sempre foi o tipo que analisa o motor inteiro antes de dar a partida. Eu não. Eu prefiro sentir a vibração da máquina, ouvir o estalo do metal aquecendo. E, no momento em que Yona saiu da oficina naquele final de tarde, o ar ainda estava estalando.
Passei a manhã seguinte polindo as lentes do projetor dela como se fossem joias. Caleb me observava de canto de olho enquanto fingia organizar o estoque. Ele não disse uma palavra, mas a tensão nos ombros dele entregava: ele também estava contando os minutos.
Quando o sol começou a baixar, tingindo o horizonte de um laranja profundo, a silhueta dela apareceu novamente. Dessa vez, ela não parecia apenas intimidada; ela parecia ter ensaiado o próprio fôlego.
— Está pronto? — ela perguntou, parando a uma distância segura da bancada.
— Mais do que pronto, Yona. — Deixei o nome dela deslizar pela minha língua com uma lentidão deliberada.
Caleb se aproximou, limpando o suor da testa com o braço. Ele se posicionou atrás dela, uma barreira de músculos e proteção, enquanto eu estava à frente, sendo a tentação. Ela estava no centro do nosso furacão.
— Venha ver — eu chamei, gesticulando para que ela se aproximasse da mesa de luz.
Ela hesitou, mas veio. O calor que emanava dela era quase ultrajante para alguém tão jovem. Eu me inclinei sobre o aparelho, propositalmente deixando meu ombro roçar o dela. Senti o solavanco da sua respiração. Um ponto para mim.
— Veja aqui, Yona — murmurei, apontando para a engrenagem delicada. — O segredo não é forçar. É entender o ritmo. Se você forçar, ele trava. Se você for gentil demais, a imagem não foca.
Minha mão cobriu a dela sobre a mesa. A pele dela era como cetim sob a minha palma calejada. Ela não puxou a mão de volta. Seus olhos castanhos se arregalaram, as pupilas dilatando na penumbra da oficina.
— Eu... eu achei que estivesse quebrado para sempre — ela sussurrou, a voz falhando.
— Nada que passe pelas nossas mãos permanece quebrado — Caleb interveio, sua voz vindo de trás dela, baixa e vibrante como um trovão distante. Ele colocou uma mão no encosto da cadeira onde ela se apoiava, cercando-a completamente.
Eu podia ver o pulso de Yona saltando no pescoço. Ela estava presa entre o aço frio de Caleb e a minha chama. Eu levei minha outra mão até o rosto dela, apenas um toque sutil, afastando uma mecha de cabelo ruivo que teimava em esconder seus olhos.
— Você está tremendo, Yona — provoquei, um sorriso vitorioso surgindo nos meus lábios. — É o medo de estragar a peça ou é o jeito que a gente olha para você?
O rubor que tomou conta dela foi a resposta mais honesta que eu já recebi na vida. Ela era um livro aberto, escrito em uma língua que eu e meu irmão estávamos ansiosos para traduzir. Ela olhou para Caleb, depois voltou para mim, e naquele triângulo de olhares, o contrato silencioso foi assinado.
Ela não sabia o que era ser desejada por homens que não aceitavam um "não" da vida. E nós não sabíamos o que era querer proteger algo tão desesperadamente enquanto desejávamos destruí-lo com prazer.
— Eu preciso ir — ela disse, embora seus pés não se movessem.
— O projetor está pronto — Caleb disse, a mão dele descendo levemente pelas costas dela, um toque quase imperceptível, mas que a fez arquear a coluna. — Mas você ainda não aprendeu a usá-lo sob pressão. Volte amanhã. À noite. Quando a oficina estiver fechada e não houver barulho para nos distrair.
Yona engoliu em seco, olhando para as nossas mãos que ainda a cercavam. A curiosidade no olhar dela estava começando a vencer o medo.
— À noite? — ela repetiu.
— À noite — confirmei, inclinando-me até que meus lábios estivessem a centímetros do seu ouvido. — Vamos te mostrar exatamente como a luz e a sombra funcionam juntas.
Quando ela finalmente saiu, quase tropeçando nos próprios passos, Seth olhou para Caleb. O irmão mais velho tinha os olhos fixos na porta, a expressão sombria e faminta.
— Ela vai voltar — eu disse, acendendo o cigarro que estava esperando o dia todo.
— Eu sei — Caleb respondeu, a voz carregada de uma promessa perigosa. — E quando ela voltar, não haverá mais espaço para dúvidas.