Capítulo 2- Marcando Território

2611 Words
Christian Alexandria era uma cidade pacata do estado da Louisiana, nos Estados Unidos, onde eu residia e recomeçava minha carreira. Gostava do ar de interior, das casas coloridas, a arborização que me dava aquela sensação de ar puro. As pessoas foram solicitas em me informar onde ficavam os principais pontos da cidade, o que me permitiu conhecer um pouco mais do local onde passaria um longo tempo. Ainda me habituava ao ambiente diferente do de Paris, onde vivi parte da minha vida, mas as circunstâncias me trouxeram a essa cidade e sempre aprendi que desafios devem ser enfrentados. Dias antes de receber a notícia da qual teria que mudar para a Louisiana, estava fadado a permanecer na merda que fui colocado injustamente. Eu sabia que sair de um país e ir para outro, não fariam os problemas evaporarem, a verdade é que por mais que tente esquecê-los, sempre estarão ali para me fazer lembrar. Só precisava de um tempo até as coisas se ajeitarem e eu poder dizer que me sentia tranquilo. Por uma longa semana fiz o levantamento sobre tudo em Alexandria e quais seriam os problemas que eu teria que solucionar. Fiquei a par de tudo para saber a real situação do da qual estava me metendo. Com o crescimento da economia local, a cidade ficou conhecida como uma das maiores produtoras de petróleo do país, o que era de se esperar que inúmeras pessoas buscassem esse lugar para trabalhar e residir em busca de uma melhor condição de vida. Em meio a todo esse desenvolvimento surgiu um grande interesse em tirar proveito de disso, e por ser uma cidade pequena, Alexandria não chama a atenção, ela passa despercebida em comparação a outras grandes cidades. Meu superior viu que aqui seria o lugar perfeito para eu me domiciliar e assumir a responsabilidade de um xerife. Tudo nessa cidade gira em função do petróleo: Extraí-lo e vendê-lo ilegalmente. Existem refinarias fora do estado que são clandestinas e é daqui que sai boa parte do petróleo. Vendendo-o assim não é necessário pagar impostos e muito menos emitir notas fiscais. Há pessoas grandes por trás disso! Todas as informações reunidas e também as fornecidas pelo meu chefe, apontam que se trata de uma máfia francesa muito bem situada no local, que além de comandar a extração e a venda ilegal do petróleo também poderia estar envolvida no tráfico de drogas. Devido a colonização, existem inúmeros franceses residindo na cidade, o que dificulta mais na investigação. O posto de xerife era minha melhor opção, pois o antigo havia se aposentado e deveria estar curtindo a vida bem longe de qualquer preocupação. O fato de eu ser novo e não ter passado por uma eleição deixou muitos com o nariz torto, mas isso não era problema para mim, apenas estava cumprindo ordens superiores. O departamento de polícia parecia organizado e a equipe dividida e especializada em todos os tipos de crimes. ~◊~ Por duas semanas a ficha de todos os funcionários da refinaria Oil S.A. foram levantadas e isso me deu o pontapé inicial para começar a investigar. Lion e Logan Connors eram os dois irmãos assassinados naquela maldita madrugada onde tudo deu errado no beco 43. Ambos eram funcionários da refinaria e eram encarregados de fazer o carregamento da mercadoria ― diga-se, barris de petróleo ―, pois eles tinham acesso restrito ao local. Mantive contato com algumas pessoas em busca de informações que me levassem até eles e com um pouco de persuasão consegui. Fiquei no encalço deles e os segui naquela madrugada de terça. Prefiro agir sozinho em investigações assim, no máximo com mais alguém para evitar chamar atenção. Os irmãos seguiram em um carro velho até um armazém abandonado onde encontraram três homens altos e grandes que usavam toucas ninjas e dirigiam um carro preto do qual com a ajuda de um binóculo anotei a placa. Eles tiveram uma discussão rápida, pareciam muito bravos com os dois, mas pela distância que estava não conseguia ouvir. Os Connors após a "conversa" saíram em alta velocidade como se estivessem fugindo e de fato estavam, pois o carro preto logo foi atrás. Houve perseguição e tiroteio, os Connors pararam o carro certamente por medo e entraram no beco, sendo seguidos pelos três homens onde tiveram outra discussão e foram assassinados pelo homem, citado como Ramires. Nessa madrugada eu tinha planos de continuar seguindo-os, porém para me atrapalhar eu não estava sozinho no beco, porque uma garota insolente acabou jogando meus planos por água abaixo e por muito pouco não acabamos todos mortos ali mesmo. Ramires não foi encontrado no banco de dados, imagino que seja apenas um pseudônimo assim como a placa do carro falsa. Os irmãos faziam o serviço sujo de atravessarem ilegalmente os barris pela fronteira, no dia do carregamento deu tudo errado e a Interpol confiscou tudo. ... Estava em um plantão de doze horas e não houve nenhuma ocorrência, o que me deu um bom tempo para analisar melhor algumas fichas e ligar alguns fatos que poderiam nos ajudar a descobrir mais alguma coisa. Ouvi baterem na porta da minha sala e em seguida ser aberta. ― Senhor Santana, com licença ― era Jimmy. ― Por favor, só Santana, temos quase a mesma idade ― balancei os ombros. ― OK, Santanta! ― Riu, entrando na sala. ― Consegui o endereço da mãe dos irmãos Connors ― pôs sobre a mesa uma pasta branca. ― Também o endereço das suas esposas e a ficha completa, ambas não têm passagem pela polícia ― completou. Fiz sinal para sentar-se na cadeira. ― Bom trabalho! Podemos ir amanhã ― bati meus dedos na mesa dando uma rápida olhada nos papéis que tirei da pasta. ― Será uma boa, já que voltamos ao início ― riu, mas eu permaneci sério. Essa situação não foi nada engraçada. ― Desejo que essa garota não cruze meu caminho de novo, será melhor para ela! ― disse eu. ― Precisa relaxar um pouco ― observou. ― Tem um lugar aqui na cidade onde todo mundo se encontra, podemos ir no fim de semana. ― Pode ser, uma boa cerveja e música... É o que preciso! ― falei e bebi um gole no meu café. ― Vou fazer uma ronda, estou no celular se precisar ― ele se levantou, saindo em seguida. Assenti. Jimmy é o policial que faz plantão comigo, aos poucos criamos uma proximidade, ele é eficiente e gosto de pessoas assim. Quando cheguei da França ele foi o primeiro a me deixar por dentro de tudo e me indicar uma boa casa para alugar, e mesmo não estando há tanto tempo na cidade ele me ajudou muito a me situar. Encerrei meu plantão sentindo-me exausto. Conferi minha arma na cintura e peguei minha jaqueta vestindo-a e por último meu capacete. Ao tirar a moto da garagem notei a rua vazia, tudo deserto. Uma chuva fina caia, deixando o clima mais frio. Sempre gostei dessa sensação de liberdade que só encontro em cima de uma moto, tudo o que preciso quando estou nervoso ou muito irritado é dar uma volta na minha Santaninha. As ruas me acalmam mais do que qualquer remédio. Em todo o trajeto encontrei apenas uma pessoa na rua e sem querer joguei água nela ao passar por uma poça, foi tudo tão rápido que só vi o guarda-chuva vermelho pelo espelho retrovisor. Não estava a fim de parar para pedir desculpas, precisava me livrar da roupa molhada que me renderia uma boa gripe se não as tirasse logo. Cheguei em casa e de imediato entrei no chuveiro deixando que a ducha quente aliviasse o frio que estava sentindo. O inverno aqui é menos intenso que na França, mas na madrugada é impossível não sentir muito frio. Esperava dormir pelas próximas dez horas sem ser interrompido. ~◊~ Jimmy e eu estávamos seguindo para a casa da mãe dos irmãos Connors, ficava em um bairro bem pobre e mais afastado. ― Acho que é aqui onde ela mora ― Jimmy disse, estacionando o carro. Era uma casa bem velha, penso que ela poderia desmoronar a qualquer momento e logo me vem à cabeça com o que aqueles dois gastavam todo o dinheiro que ganhavam se nem ao menos a própria mãe tinha um teto decente para viver. Saímos do carro e caminhamos, abrindo um pequeno portão. Bati na porta e uma senhora de aproximadamente cinquenta anos nos atendeu. ― Boa tarde! ― Falamos juntos. ― Boa tarde ― respondeu nos olhando dos pés à cabeça. ― Senhora Connors? ― Indaguei-a. ― Sim, e quem são vocês? ― Xerife Santana! ― Mostrei meu distintivo. Ela arregalou os olhos. ― E meu companheiro, policial Jimmy Young ― apontei para ele. ― Podemos entrar? Precisamos de algumas informações relacionadas a Lian e Logam Connors. ― Ela assentiu com uma expressão triste. ― Podem sentar ― apontou para duas cadeiras em um canto. ― Primeiramente sentimos muito por sua perda ― tentei ser solidário. ― Obrigada! ― Agradeceu cabisbaixa. ― A senhora tem algum conhecimento de que seus filhos estavam envolvidos com algo ilegal? ― Perguntei. ― Não, senhor, meus filhos eram trabalhadores honestos ― ela ficou nervosa e algumas lágrimas escorreram por seu rosto, que carregava uma aparência tão cansada. ― Tudo bem, se acalme, senhora ― Jimmy pediu. ― Como estava o comportamento deles? ― Eu quis saber. ― Eles andavam um pouco inquietos com o trabalho e viviam falando com alguém no telefone, falavam em mercadorias, entrega no Golfo, alguma coisa assim. Mas é só o que eu sei, eles eram bons meninos, casados, trabalhadores... ― Disse limpando as lágrimas. ― Faz alguma ideia de quem seria esse alguém que eles falavam ao telefone? ― Jimmy perguntou. Ela pareceu pensar um pouco. ― Sim... Eles falavam em senhor Rô... Rôa. ― Falou confusa. ― Roi? ― Perguntei, corrigindo-a. ― Isso, desse jeito aí seu xerife. ― Concordou. Fizemos mais algumas perguntas e logo fomos embora. ― Ela não sabe de muita coisa ― comentei, estava um pouco frustrado. ― Mas pelo menos sabemos que o armazém é ponto de encontro deles e esse Rôa pode ser o chefão ou não ― Jimmy argumentou enquanto dirigia. ― É Roi, significa rei em francês ― corrigi-o. ― O mais importante agora é aguardar a perícia e ver se aparece algum DNA diferente nos corpos dos dois irmãos. ― Me deixa em casa, eu vou tomar um banho e depois volto para o departamento ― pedi. Dei atenção para a rua, precisava achar uma maneira de dar mais um passo nesse caso. ― Está entregue! ― A voz de Jimmy me despertou. ― Obrigado! ― Agradeci ao sair do carro. ― Quando eu voltar quero café e rosquinhas ― brinquei. ― Sim, Xerife! ― Bateu continência. Antes de voltar para o departamento dei uma conferida no armazém para ver se encontrava alguma coisa, mas por infelicidade só tinha tranqueiras e muito lixo. O fato de eu não andar com a tradicional roupa me ajuda a não chamar atenção e passar despercebido em alguns lugares. Ao chegar na minha sala depositei a arma sobre a mesa e liguei o computador, me acomodando na confortável cadeira. As horas passaram rápido, nesse tempo me dediquei a passeios no corredor em busca de café. ― Santana, tem uma moça que acabou de ser assaltada, como não te encontrei na sala, pedi para ela entrar e esperar ― Jimmy disse ao me ver tirar café na máquina. ― Tudo bem ― peguei meu café. A garota usava capuz e estava de cabeça baixa. ― Sim? ― Perguntei dando a volta na mesa. A garota levantou o olhar e encarei aquele rosto que apesar da escuridão naquela madrugada desastrosa reconheceria em qualquer lugar. ― Você? ― Ela imediatamente mudou de expressão tirando o capuz da cabeça. ― Eu! ― Respondi com uma pitada de ironia. Olhando-a com calma poderia dizer que ela é bonita, linda eu diria, porém atrevida. Seus cabelos eram pretos e levemente ondulados caindo por seus ombros. Os olhos expressivos contrastavam com sua pele morena e expressão de ira ao me olhar. ― Então a senhorita foi assaltada enquanto trabalhava na rua? ― Perguntei sério, arqueando uma sobrancelha. ― Escuta aqui, seu i*****l, não tenho que te dar informação nenhuma, eu quero falar com o Xerife ― disse. Ela só faltava me bater. Eu poderia prendê-la nesse momento. ― Sou eu, não está me vendo? ― Sorrio, mostrando os dentes forçadamente. ― E vamos maneirar a boca suja! ― Repreendi-a ao mostrar meu distintivo. Ela ficou estática. ― Só pode ser brincadeira! Cadê as câmeras? ― Olhou ao redor. ― É real! ― Adverti-a. ― Não bastou me atrapalhar naquele dia, agora de novo no final do meu expediente? ― Ah, claro, agora a culpa é minha se você foi um incompetente que estava lá e não prendeu aqueles bandidos ― levantou-se rapidamente. Seu rosto estava vermelho. ― Xerife de merda, isso que você é!!! ― Berrou, apontando o dedo na minha cara. Meu impulso foi segurá-la com força pelo braço. Nunca alguém havia me insultado dessa maneira, ainda mais uma desconhecida. ― Garota atrevida, você está presa!!! ― Gritei tão alto quanto ela. A garota tremeu em meus braços. ― Você não tem o direito de fazer isso ― resmungou com os olhos fixos nos meus. ― Tenho sim! Vai passar o resto da madrugada aqui para aprender a ter respeito ― bufei irritado contra seu rosto. ― Me solta, eu não vou ficar aqui ― rosnou debatendo-se em meu peito. ― Ah, vai sim, vem comigo! ― Segurei-a firme e arrastei-a para a única cela que temos. ― Dá próxima vez não ande tarde nas ruas ― debochei ao chavear a cela. Seu rosto estava mais vermelho e a qualquer momento poderia jurar que ela explodiria de raiva. Anne Nada disso podia estar acontecendo, não devia ser verdade. Não era meu dia, definitivamente estou precisando de um pouco de sorte na vida. Tudo fazia sentido, era ele o tal xerife de Alexandria. O cara que apareceu para f***r com a minha vida. ― Babaca, machista e filho da p**a!! ― Xinguei quando ele fez menção de me deixar sozinha naquela cela imunda. Ele se virou e me encarou. ― Não vou levar em consideração que você ofendeu minha mãe, por que se eu levar você fica um ano aqui ― avisou. ― Pois vá se f***r! ― disse em tom baixo. Só poderia amaldiçoar ele o quanto eu pudesse. ― Eu ouvi, OK?! Faça uma boa estadia, tem cama e água aí ― afastou-se assoviando sem preocupação alguma. Não bastasse um maluco de moto ter me molhado na noite passada, hoje sou assaltada por um menino que rouba meu celular e agora presa. Droga! Era para eu estar em casa dormindo na minha cama quentinha e com a Jessie esquentando meus pés. ― Ei, eu exigo um advogado! ― Gritei. ― Isso é cárcere privado! ― Bati na grade. Ato falho, pois ninguém apareceu. Deitei-me naquele colchão duro e tentei ao menos dormir. Chorei. De raiva. Se tivesse aceitado a carona do meu pai nada disso teria acontecido, mas não, eu tenho que ser a garota i****a e orgulhosa. Adormeci em meio ao choro e fui acordada com batidas na grade. Foi quando lembrei que não era pesadelo e não estava na minha casa. ― Moça, acorda! ― Alguém me chamava. Abri os olhos com dificuldade e era um senhor, deveria ser policial. Ali ninguém se vestia com roupas de homens da lei, nem o "fodão" do xerife vestia uma farda. Esse departamento é uma piada mesmo, nem seus subordinados usam roupa apropriada. Ele começou a abrir a cela e de imediato me levantei. ― Você pode ir embora, o Xerife deixou essa ordem ― olhei-o carrancuda e sem dizer nada sai como um flash, buscando a saída do lugar infernal. Nem as horas eu sabia, mas o sol estava alto, minhas costas doíam por ter dormido m*l naquele maldito concreto duro que chamam de cama. Ainda teria que comprar um telefone e orar para nenhuma desgraça me acompanhar pelas próximas horas.   
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