Capítulo 1- A Curiosidade Matou O Gato

2303 Words
Anne Como de costume, guardei meu avental no armário e tranquei-o. O dia havia sido cansativo para uma terça-feira e há tempos a lanchonete não lotava tanto no começo da semana. ― Estou com muito sono hoje. ― Yasmim bocejou.  Seus braços estavam apoiados na porta de seu armário e juraria que ela poderia dormir ali a qualquer momento. ― E eu estou morta! Já passa das três ― esbocei uma careta olhando a hora em meu relógio. Yasmim beijou minha bochecha e saiu do vestiário. Desfiz o r**o de cavalo em meu cabelo e pus meu casaco. Meu pai ainda estava fechando o caixa. ― Precisa de ajuda, pai? ― Perguntei, seguido de um bocejo. ― Não, filha, estou encerrando aqui. Quer que eu te leve para casa hoje? Está tarde ― observou ele. ― Não precisa, já me acostumei e o senhor sabe disso ― disse eu. Minha mãe cruzou o corredor que liga a cozinha ao salão e me analisou. ― Está tão abatida, Anne ― ela alisou minha bochecha. ― Foi bem agitado hoje ― disse, desejando me debruçar sobre o balcão e apenas dormir. Me despedi com um abraço em cada um. Meus pais sempre insistiram em me levar para casa, mas se todos os dias eu aceitasse ficaria acostumada. Opto por aceitar quando sinto que não aguento mais minhas pernas e apesar de ter sido cansativo, estou bem para seguir andando. A noite era fria, percorria com passos largos pelas ruas escuras da pacata cidade, apenas com a companhia dos meus fones de ouvido. Os únicos seres vivos que encontrei eram cachorros e gatos que reviravam as latas de lixo fazendo barulhos no silêncio da madrugada. Acostumei-me com a rotina, meu trajeto costumava ser por um bairro mais pobre que tornava o caminho mais curto até minha casa. Acabei colocando o capuz e escondendo as mãos nos bolsos. O vento gelado que soprava me fazia sentir saudade do verão de Alexandria. Ao fazer a curva da rua ouvi um cantar de pneus ao longe e fiquei assustada. Os sons de carros se aproximavam, mas ainda assim pareciam distantes. Minhas pernas estremeceram ao ouvir tiros serem disparados. A reação mais insensata que tive foi a de correr e me esconder em um beco escuro cheio de entulho. Merda! Isso não podia estar acontecendo comigo. A neblina que não encontrei no percurso do restaurante se fazia presente no beco e parecia aquelas cenas de filmes de terror em que um assassino louco estaria prestes a aparecer. Não conseguia ver muita coisa, apesar da lua estar enorme no céu. O lugar era inóspito, chegava até a feder pelo monte de lixo espalhado. Rapidamente entrei atrás de um container e rezei para que os tiros cessassem. Gritos, vozes masculinas. Um carro foi freado fazendo um barulho ensurdecedor. Em poucos segundos ouvi passos se aproximando, meu corpo tremeu por inteiro. Durante anos andando sozinha pela madrugada nunca passei por uma situação nem que fosse semelhante a essa. As pisadas começaram a se afastar e esperava que isso fosse um bom sinal. ― Vamos logo, seus imbecis! ― Uma voz grossa ordenava. O homem tinha um sotaque, parecia francês. Com receio espiei pela pequena fresta entre a parede e o container do qual eu estava encostada. Apesar da pouca luz conseguia ver cinco pessoas ao todo, três deles estavam com o rosto coberto por uma touca ninja preta. Na verdade, eles pareciam mais com três armários, grandes e fortes. Os três vestiam sobretudos pretos e os outros dois vestiam moletons. Apertei os olhos tentando ver melhor, apesar da tensão minha curiosidade me empurrava para descobrir o que iria acontecer ali. ― Chefe, a fronteira nos barrou, foi impossível a mercadoria chegar ao Golfo. Nós fugimos de lá para não sermos presos ― um dos rapazes de moletom, disse. Eles pareciam estar assustados e claramente aquele tiroteio era uma perseguição dos armários com eles. ― Idiotas e incompetentes!!! ― O armário 1 esbravejou. ― Não são capazes de cumprir uma ordem direito! Ele desferiu dois socos no rosto do que havia tentado se explicar fazendo-o cair no chão. Minha respiração se tornou mais acelerada, meu desejo era pedir socorro e correr dali. O outro rapaz abaixou-se tentando ajudá-lo a levantar, mas foi impedido levando um chute na barriga que o levou ao chão também. Os dois devem ter feito algo de muito grave para estarem apanhando desse jeito. Será que fazem parte de uma gangue? E de que mercadoria eles estavam falando? Poderia apostar que eram drogas. Inesperadamente uma lâmpada que eu nem sabia que existia ali começou a piscar e isso iluminou por alguns segundos aquela área. Pude ver que um deles carregava uma maleta de cor preta com um símbolo que não identifiquei o que era devido à pouca luz. ― Que comovente tentando ajudar o irmãozinho ― era em tom irônico. ― Por causa da merda de vocês nós perdemos dois milhões de dólares! Digo o que para o meu chefe agora? ― O armário 2 gritou, golpeando chutes nas costelas de ambos os  homens que ainda estavam no chão, que pelo que entendi eram irmãos. ― Como acham que a família de vocês vai sobreviver agora? Ele continuava gritando. Os dois tinham o mesmo sotaque, o outro não havia falado nada que poderia imaginar até que fosse mudo. Me perguntava se ninguém ouvia os gritos, afinal as casas não ficavam tão distantes. Os rapazes foram violentados e me dava agonia ouvi-los implorar por perdão. ― Sem perdão, inúteis! ― O armário 1 cuspiu neles. ― Ramires, você sabe o que fazer... ― O armário 2 disse sem elevar a voz, porém me possibilitando ouvir. Talvez ele fosse o chefe, pois dava ordens. O que pensei ser mudo se chamava Ramires, ele nada disse, apenas acenou com a cabeça. Me assustei com o engatilhar da arma e andei bruscamente para trás fazendo cair uma lata de lixo. Meu corpo inteiro congelou, alguém me segurou por trás e cobriu minha boca com a mão usando muita força. O desespero me consumiu, a pessoa que me prendia tinha braços muito fortes, podia até sentir um perfume extremamente forte. Minha reação foi me debater, certamente seria meu último dia de vida e provavelmente meu corpo seria jogado no primeiro esgoto que encontrassem. Eu ainda podia lutar pela minha vida, mas parecia impossível me livrar de alguém tão forte. ― Fique quieta ou irão nos ver aqui! ― O estranho sussurrou com a voz extremamente baixa e irritada. Um frio percorreu minha espinha. ― São apenas gatos, chefe! ― Ramires, que até o momento não havia falado, apontou para alguns felinos que reviravam o lixo. Grunhi, desejando me soltar do estranho que me segurava. ― Garota, não quero te machucar, mas você precisa parar quieta e não fazer barulho ― O desconhecido disse firmemente. E se ele fosse um daqueles bandidos? É claro que era, ou não estaria aqui. Nesse meio tempo dois disparos foram acionados e minhas pernas amoleceram ao perceber que os dois haviam sido mortos. Ouvi os passos se afastando, o motor do carro ser ligado e eles saírem cantando pneus. Restou o silêncio e a respiração forte do estranho em minha orelha. Ele emitiu sons, creio que me xingava em outra língua que tinha certeza ser francês, assim como aqueles homens. Senti meu corpo livre, ele me soltou, mas continuei na mesma posição, sentindo medo. ― Droga! ― Ele grunhiu atrás de mim. ― Você atrapalhou toda a operação. Que diabos você faz nesse beco escuro? Estava nervosa, não conseguia formular respostas e nem entender de que operação ele falava. ― Estava fazendo algum trabalho s****l, não é?! Não que seja da minha conta, mas você atrapalhou tudo ― pude ouvir sua respiração irritada. Eu não deixaria ele me ofender assim. ― Escuta aqui, seu i****a, eu estava trabalhando e faço esse caminho todos os dias ― falei irritada, batendo em seu peito e me sentindo ofendida com sua dedução a meu respeito. Não conseguia ver seu rosto muito bem devido a escuridão e por ele também estar de capuz. ― Não me diga? ― Ironizou e segurou meus pulsos com força. ― Dê o fora daqui antes que me arrependa e te leve comigo para passar a noite num lugar aconchegante ― disse ele, próximo do meu rosto me causando calafrios. Ele me soltou, tirou um telefone celular do bolso e afastou-se um pouco, consegui ver parte do seu rosto. Tinha barba e a expressão brava era pior que seu tom de voz. ― O que ainda faz aqui? ― Encarou-me com o celular na orelha. ― Some daqui!! ― Gesticulou com a mão para que eu me afastasse. Juraria que a sua cara fosse sempre assim, com o semblante raivoso. Saí dali o mais rápido que pude, mas ainda consegui ouvi-lo falar com alguém: ― Santana falando, preciso de ambulância e viaturas no beco 43, homicídio duplamente qualificado com... Ao me afastar não ouvi mais nada e não desejaria saber quem ele era. Tinha acabado de presenciar um crime, aquelas imagens ficariam na minha cabeça por um bom tempo. Ao chegar em casa, tranquei tudo e me certifiquei de que ninguém estivesse atrás de mim. Sentia uma mistura de medo e raiva. Um banho quente me ajudaria a relaxar. ~◊~ "― Garota curiosa, você irá morrer para aprender a não se meter onde não é chamada! ― Ramires sussurrou contra meu rosto. Sua voz era macabra e não conseguia ver seu rosto, era apenas um borrão escuro na minha frente. Ele engatilhou a arma e apontou para a minha cabeça. ― Hora de morrer, baby! ― Não, por favor... Não... NÃOOO, NÃOOO, NÃOOO!! ― Gritei em desespero e ouvi a arma disparar..." Tive um sobressalto e sentei na cama com o coração acelerado. Ofeguei, parecia que estava perdendo o ar, não era possível que esse pesadelo iria me impedir de dormir. Olhei no relógio e marcavam quatro horas da tarde, restavam duas horas antes de ir para o trabalho. Na cozinha havia um pote de bolo e sabia que minha mãe tinha estado mais cedo por aqui. ― Oi, meu amor! ― Me agachei pegando a Jessie no colo. Acariciei sua pelagem branca e ela começou a ronronar, esfregando a cabeça em meu queixo. ― Está com fome? ― Ela miou como resposta. Soltei-a no chão e esquentei um pouco do seu leite no micro-ondas. Era sempre assim, todo o tempo em que permanecia na cozinha ela se esfregava e colocava as patinhas em minhas pernas. Com minha comida pronta, sentei-me no sofá e liguei a TV, não prestando atenção no que passava, comia no automático, na minha cabeça cenas da noite passada se faziam presentes. Meus pensamentos foram perdidos com Jessie subindo no sofá, ela sabia quando estava na hora de eu sair e vinha logo pedir carinho. Enviei uma mensagem para Yasmim, avisando que iria para a lanchonete mais cedo e precisava lhe contar uma coisa importante. Tinha que dividir com alguém e seria com minha melhor amiga. Apanhei um guarda-chuva e casaco, o fim de tarde estava cinza demais. Esse era o momento em que as pessoas voltavam para suas casas depois do trabalho, no meu caso estaria apenas começando. Quando passei em frente ao beco senti um calafrio. ― Oi, papai ― deixei um beijo em sua bochecha assim que cheguei. ― Chegou cedo, meu amor ― observou-me, buscando um motivo por me ver tão cedo na lanchonete. ― Sim, depois preciso conversar com o senhor. Meu pai tomou uma expressão preocupada. ― Aconteceu alguma coisa? ― Depois eu conto, pai ― respondi eu. ― A Yasmim já chegou? ― Está no vestiário ― assenti e me dirigi para lá. ― b***h, fez eu vir mais cedo! Espero que seja algo muito importante! ― Disse assim que me viu. Revirei os olhos. ― Oi para você também ― abracei-a rapidamente. ― Qual a bomba? ― Queria logo saber, cruzando os braços. ― Ontem eu presenciei um crime em um beco ― falei atropelando as palavras. ― Como assim? ― Arregalou os olhos, sentando-se no banco próximo aos armários. Contei tudo a ela, com os detalhes de tudo o que vi. ― Meu Deus! Você vai à polícia? ― Não sei... ― Ainda estava confusa. ― O que você acha? ― Acho que é melhor você esquecer isso e fingir que nada aconteceu, até por que ninguém falou nada, em jornal, TV... Talvez ela tivesse razão, afinal aqui as notícias sempre correram rápido. ― Você tem que ser menos curiosa, podia ter acontecido uma tragédia ― repreendeu-me. ― Eu sei, mas eu só queria me esconder ― retruquei. Me senti ofendida com sua fala. ― Queria se esconder e acabou que um maluco quase te matou e ainda te chamou de prostituta!!! ― Ela levantou e ficou de frente para mim. ― Fala baixo! ― resmunguei. Não queria que ninguém soubesse sobre esse assunto. ― Não vou nem comentar mais com meu pai sobre isso. ― Esquece isso e vamos trabalhar ― bateu na minha b***a. Coloquei meu avental e prendi meu cabelo. Precisava ver se tinha pedidos para atender. ― E a mamãe? ― Perguntei para meu pai. ― Na cozinha ― disse, enquanto contava moedas. ― O que você queria me falar? Lembrei que teria que inventar alguma coisa. Já estava decidida a não compartilhar com mais ninguém esse episódio horrendo da minha vida. ― É... Sabe... Eu queria... ― Ele me interrompeu estalando a língua. Sou péssima para mentir. ― Quer uma folga, não é? ― ele riu, como se tivesse feito uma grande descoberta. ― Isso, uma folga, pai!! Mas só quando o senhor puder ― sorri, acredito que o sorriso mais aliviado de toda a minha vida. Fiz um percurso até a cozinha para dar um beijo na minha mãe, ela dava instruções de sempre para os cozinheiros. Ao voltar para o balcão, meu pai falava ao telefone. ― Sim, soube do novo xerife, só 28 anos, não é? Muito novo! ― O vi torcer o nariz. Meu pai gostava de saber de tudo que acontecia na cidade e dar palpites era com ele mesmo. ― O Axel se aposentou, foi morar no Arizona, faz falta aqui... Minha atenção foi para meu bloco de pedidos, pois a lanchonete começava a encher de clientes.
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