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1783 Words
Miguel narrando A academia era o único lugar onde eu conseguia calar a cabeça. Peso não mente. Barra não discute. Ou você levanta, ou ela te esmaga. Simples assim. Diferente da p***a da minha vida ultimamente. Tava no supino quando a raiva veio de vez. — Vamo, c*****o — rosnei, descendo a barra com força. — Mais uma. Marcelo tava do meu lado, encostado na máquina, me olhando com aquele sorriso de quem já sabe que eu tô puto antes mesmo de eu abrir a boca. — Tu tá querendo matar o ferro hoje, hein — ele comentou. — Brigou com quem dessa vez? Com inimigo ou com mulher? — Com meu pai — respondi, empurrando a barra pra cima com tudo. — Sempre ele. Travei o braço, joguei a barra no suporte e sentei, passando a toalha no rosto. Suor escorrendo, peito subindo e descendo rápido. Raiva pura. Marcelo arregalou o olho, fingindo surpresa. — Ih… aí fodeu. Quando é o chefe dos chefes, a coisa é séria. Peguei o halter pesado, comecei a fazer rosca direta sem nem olhar pra ele. — Agora ele resolveu escolher uma noiva pra mim. Marcelo demorou dois segundos pra reagir. Depois soltou uma gargalhada alta, daquelas que chamam atenção da academia inteira. — NÃO FODE — ele disse, rindo. — Tá me zoando. — Queria tá — respondi, entre um movimento e outro. — Mas é sério. Ele bateu palma, se apoiando no banco. — c*****o, essa eu não esperava. O chefão resolveu virar cupido agora? — Cupido o c*****o — rosnei. — Isso é regra antiga. Pra assumir o comando, tem que casar. Imagem, respeito, essas merdas. Marcelo balançou a cabeça, ainda rindo. — Mas pera aí… — ele se aproximou, baixando a voz como se fosse segredo. — Tu conhece a mina? Joguei o halter no chão com força. — NÃO. — p***a! — ele abriu um sorriso malicioso. — Aí que fica bom. Vai que ela é gata? Revirei os olhos. — Eu não tô com cabeça pra isso, Marcelo. — Mas devia — ele continuou, rindo. — Porque olha o lado bom: teu pai escolheu. Então feia ela não deve ser. Homem poderoso não fecha acordo com coisa m*l escolhida. Peguei outro peso, comecei a malhar o braço com mais força do que o normal. — Eu não quero mulher escolhida pra mim — falei, entre dentes. — Eu escolho. — Tu escolhe prostituta, Miguel — ele rebateu, direto, rindo. — Toda semana uma diferente. — f**a-se — rosnei. — Pelo menos sou eu que decido. Marcelo deu de ombros. — Tá, mas e se essa aí for gostosa? — ele abriu um sorriso sacana. — Tipo… daquelas que entram no lugar e geral fica olhando. Olhei pra ele, sério. — Tu só pensa com a cabeça de baixo? — Sempre — ele respondeu, orgulhoso. — E quase sempre dá certo. Não consegui segurar um riso curto, mesmo puto. — Tu é i****a. — i****a, mas curioso — ele insistiu. — Teu pai falou alguma coisa dela? — Falou que é de família influente — respondi, voltando pro treino. — Que resolve problema. Que fecha boca. — Ihhh — Marcelo fez cara de quem entendeu tudo. — Então é mulher de negócio. Daquelas certinhas. — Exatamente o tipo que eu não quero. — Ou o tipo que mais dá trabalho — ele provocou. — Essas são perigosas. Parei o exercício e encarei ele. — Perigosas como? — Perigosas porque tu nunca sabe o que tá passando na cabeça — ele respondeu. — Mulher quieta, bonita e inteligente… dá mais trabalho que bandido armado. Bufei, passando a mão pelo rosto. — Eu não pedi isso, Marcelo. — Ninguém pede casamento — ele deu uma risada. — Só acontece. Voltei pro banco, aumentando o peso. — Meu pai acha que eu vou aceitar calado. — E não vai? Empurrei a barra pra cima com força absurda. — Não fácil. Marcelo se aproximou, me olhando com atenção agora. — Mas vai aceitar. Travei o movimento por um segundo. — Vai depender. — Do quê? Soltei a barra, sentei de novo. — De quem ela é. Marcelo abriu um sorriso lento, provocador. — Então no fundo tu já tá curioso. — Curioso não — corrigi. — Preparado pra guerra. Ele riu alto de novo. — Seja como for, irmão… — ele bateu no meu ombro. — Se for gostosa, pelo menos tu vai sofrer bonito. Balancei a cabeça, rindo sem humor. Malhar ajudava a descarregar a raiva. Mas não apagava a verdade. Meu pai já tinha escolhido. E, gostosa ou não… essa mulher ia virar minha esposa. Quisesse eu ou não. Miguel narrando Saí da academia ainda com o corpo quente, camiseta colada no peito, cabeça menos barulhenta… mas longe de calma. Marcelo caminhava do meu lado, falando alguma besteira qualquer, quando senti o movimento diferente perto da entrada. A energia mudou. Eu senti antes de ver. Isabel nunca passava despercebida. Nunca. Vestido curto demais pra uma academia, salto fino como se estivesse indo pra um evento, cabelo impecável, perfume doce invadindo o ar pesado de ferro e suor. Ela entrou como se o lugar fosse dela — e, de certa forma, sempre foi. Marcelo foi o primeiro a reagir. — Ah, não… — ele riu. — Olha quem resolveu aparecer. Isabel sorriu. Um sorriso lento, calculado. Os olhos dela vieram direto em mim, como se Marcelo nem existisse. — Miguel… — ela disse, se aproximando. — Faz tempo que você some assim. Ela chegou perto demais. O tipo de perto que não é acidente. O tipo que sabe exatamente o efeito que causa. — Tava com saudade — sussurrou no meu ouvido, a boca quase encostando na minha pele. O cheiro dela misturou com o meu suor, e por um segundo eu fechei os olhos. Isabel era problema conhecido. Do tipo que não exige explicação, não cobra sentimento e não faz pergunta. Marcelo pigarreou, se afastando um pouco. — Vou… dar uma volta — disse, rindo. — Depois vocês se entendem. Isabel passou a mão leve pelo meu braço, as unhas deslizando devagar. — A gente pode conversar ali… — ela apontou com o queixo. — Onde ninguém escuta. Olhei em volta. Academia quase vazia naquele horário. Meu corpo ainda tenso. Minha cabeça cheia. Meu pai enchendo o saco. Regra, casamento, noiva escolhida. — Anda — falei, curto. Entramos no banheiro masculino. O som da porta fechando ecoou alto demais. Isabel encostou na pia, cruzando as pernas com calma, me observando como se eu fosse algo que ela já conhecia bem. — Você tá diferente — ela comentou. — Mais tenso. — Problema — respondi, direto. Ela sorriu, daquele jeito que sempre sabia me desarmar. — Eu sei cuidar de problema. Se aproximou devagar, sem pressa. Passou a mão no meu peito, sentindo o calor, o coração ainda acelerado. — Você anda sumido… — disse de novo, a voz baixa. — E quando some assim, geralmente é porque tá tentando fugir de alguma coisa. Segurei o pulso dela por um segundo. Não com força. Só o suficiente pra impor limite. — Hoje não — falei, sério. Isabel me encarou, surpresa por um instante. Depois sorriu de novo. — Tudo bem — respondeu. — Mas não esquece… eu ainda tô aqui. Ela se afastou devagar, ajeitando o vestido como se nada tivesse acontecido. Fiquei sozinho no banheiro por alguns segundos, respirando fundo, encarando meu reflexo no espelho. Isabel era fácil. Sem regra. Sem cobrança. E talvez fosse exatamente isso que começava a não servir mais. Saí do banheiro com a cabeça ainda mais confusa do que quando entrei. Porque enquanto eu tentava me perder no que era simples… meu destino já estava sendo amarrado em algo muito maior. Miguel narrando O estacionamento estava quase vazio. Só o barulho distante da rua, o motor de alguns carros ligando e o cheiro de borracha quente misturado com gasolina. Caminhei até minha caminhonete tentando esfriar a cabeça quando ouvi a risada conhecida atrás de mim. — Eu não acredito no que eu vi — Marcelo disse, batendo a porta do próprio carro. — O grande Miguel Andrade recusando mulher. Revirei os olhos enquanto destravava a minha. — Cala a boca. — Não, sério — ele continuou, se aproximando com aquele sorriso insuportável. — Tu nem conhece a noiva ainda e já tá agindo como se fosse homem comprometido. — Não viaja — respondi, seco. Marcelo encostou no capô da minha caminhonete, cruzando os braços. — Viajar? Tu sempre some com a Isabel. Sempre. Hoje ela praticamente se jogou em cima de você… e tu saiu andando. Abri a porta do carro, joguei a mochila no banco do passageiro. — Não era dia. — Não era dia ou não era cabeça? — ele provocou. — Porque do jeito que foi, parece que já tá com culpa antes mesmo de casar. Fechei a porta com força. — Eu não tô casado. — Ainda — ele corrigiu. — Mas do jeito que tá, parece que já botaram uma aliança invisível no teu dedo. Bufei, passando a mão pelo rosto. — Tu não entende. — Claro que entendo — ele riu. — Tu tá puto porque teu pai escolheu uma mulher pra você. E agora, do nada, nenhuma outra presta. Encostei no carro e encarei ele. — Não é isso. — Então explica — ele insistiu. — Porque até ontem tu tava pouco se fodendo pra regra, pra casamento, pra tudo. Hoje, uma mina encosta em você e tu trava. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Marcelo abriu um sorriso ainda maior. — Ih… — ele balançou a cabeça. — Já era. — Já era o quê? — rosnei. — Já era tua vida de solteiro — respondeu. — Nem viu a mulher ainda e já tá diferente. Isso é perigoso, Miguel. — Perigoso pra quem? — Pra você — ele respondeu, sério por um instante. — Mulher mexe com cabeça. Ainda mais quando vem misturada com poder. Dei uma risada sem humor. — Tu tá filosofando demais pra quem só pensa besteira. — Besteira nada — ele rebateu. — Eu só tô achando engraçado. O maior pegador do morro travado por uma noiva desconhecida. Abri a porta do motorista. — Entra logo — falei. — Antes que eu mude de ideia e te deixe aí. Ele riu alto, dando a volta e entrando no carro. — Relaxa — disse, ainda rindo. — Vai que ela é gata. Aí tu vai agradecer. Liguei o motor, arrancando. Talvez fosse isso que mais me irritava. Eu ainda nem sabia quem ela era… e já tava deixando marca. E isso nunca era um bom sinal.
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