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1917 Words
Miguel narrando Cheguei em casa ainda com o corpo quente do treino, mas a cabeça pesada demais pra aproveitar qualquer sensação boa. A caminhonete entrou pelo portão automático e tudo ali parecia igual — segurança armada, silêncio controlado, aquela sensação constante de que nada naquele lugar era comum. Estacionei, desci sem pressa e segui direto pra dentro. O cheiro de comida veio primeiro. Almoço. Olhei no relógio. Já tinha passado do horário normal, o que só podia significar uma coisa: meu pai estava me esperando. A mesa era grande, comprida, do tipo que não foi feita pra família pequena, mas pra reunião de gente que decide coisa séria. Ele estava sentado na ponta, camisa social clara, mangas dobradas, semblante tranquilo demais pra alguém que tinha acabado de comprar uma briga comigo mais cedo. Sentei sem cumprimentar. — Treino pesado? — ele perguntou, servindo o próprio prato. — Treino normal — respondi, curto. Ele sorriu de lado, como se soubesse que era mentira. — Quando você treina assim, é porque tá com raiva. Peguei o prato, comecei a me servir. — Então para de provocar. Ele não se ofendeu. Nunca se ofendia. Só observava. Comemos em silêncio por alguns minutos. Talheres batendo no prato, o ar pesado, a conversa pendurada no teto esperando cair. — Precisamos falar sobre o casamento — ele disse, finalmente. Larguei os talheres devagar. — De novo? — Agora com calma — respondeu. — Não na base do grito. Encostei as costas na cadeira. — Fala. Ele bebeu um gole de água antes de continuar. — A menina é nova. Jovem, mas não imatura. Franzi a testa. — Já começou. — Você precisa ouvir — ele rebateu. — Ela não é criada em qualquer ambiente. Família influente, dinheiro limpo misturado com sujo, contatos fora do país. — Então é isso — murmurei. — Uma ficha técnica. — É uma garantia — corrigiu. — Ela estudou fora. Morou dois anos na Europa. Levantei o olhar na hora. — Europa? — Sim — ele assentiu. — Não cresceu trancada em morro. Viu o mundo. Isso conta. Bufei. — Conta pra quem? — Pra você — respondeu, direto. — Mulher que conhece outro tipo de vida não se deslumbra fácil. Não cria problema por besteira. Peguei o copo, girei devagar. — E o que mais? Ele me observou por alguns segundos antes de responder. — Ela é discreta. Não gosta de exposição. Não é dessas que querem aparecer. — Milagre — murmurei. — Respeita a família — continuou. — Mesmo tendo motivos pra ser diferente. — Motivos como? — Cresceu sem mãe. Aquilo me pegou desprevenido. Não demonstrei, mas pegou. — E isso importa? — Importa porque molda caráter — ele respondeu. — Ela aprendeu a se virar sozinha cedo. Não é frágil. Fiquei em silêncio. — Não quero uma mulher frágil do teu lado — ele completou. — Quero alguém que aguente o peso do que você é. Passei a mão pelo maxilar, pensativo. — E ela sabe disso tudo? — perguntei. — Do que vem junto comigo? — Ninguém sabe completamente — ele respondeu. — Mas ela entende que casamento, pra nós, não é conto de fadas. — Entender não é aceitar. — Ela vai aceitar — disse, firme. — Assim como você. Olhei pra ele de novo, irritado. — Tu fala como se fosse simples. — Nunca foi simples — ele respondeu. — Mas sempre funcionou. Ficamos em silêncio outra vez. — Ela é bonita? — perguntei, quase sem perceber. Meu pai arqueou levemente a sobrancelha. — Muito — respondeu, sem rodeio. — E não usa isso como arma. O que, sinceramente, é mais perigoso. Balancei a cabeça, soltando uma risada curta. — Tu fala dela como se fosse um investimento raro. — Porque é — ele disse. — E porque não estou te entregando qualquer coisa. — Nome — pedi, de repente. — Quero saber pelo menos isso. Ele negou com a cabeça. — Ainda não. — Por quê? — Porque quando você souber o nome, vai querer saber mais — respondeu. — E eu quero que você chegue nesse casamento com a cabeça limpa. — Limpa ou controlada? Ele sustentou meu olhar. — Preparada. Levantei da mesa, empurrando a cadeira pra trás. — Tu tá jogando um jogo perigoso. — Sempre joguei — ele respondeu. — E sempre ganhei. Caminhei em direção à saída da sala, sentindo aquela sensação estranha no peito. Raiva misturada com curiosidade. O tipo de mistura que nunca dá coisa boa. Eu ainda não sabia o nome dela. Ainda não tinha visto o rosto. Mas, pela primeira vez desde aquela conversa na sala de comando, uma coisa ficou clara: Essa mulher não era só uma exigência. Ela vinha carregada de expectativa. E, gostando ou não… ia mudar tudo. Ana narrando O salão continuava igualzinho. Mesma fachada clara, mesmo cheiro gostoso de creme misturado com café, mesmo barulhinho de secador e risada alta vindo do fundo. Assim que empurrei a porta, senti aquela sensação boa de rotina antiga, de lugar onde eu sempre fui só… Ana. — OLHA QUEM RESOLVEU VOLTAR! — alguém gritou. Não deu nem tempo de responder. Fui cercada. — Meu Deus, você não mudou nada! — Continua a mesma carinha de menina boa! — Europa não te deixou metida, graças a Deus! Ri, sendo abraçada de um lado e do outro. Era gostoso aquilo. Gente que me conhecia antes de qualquer título, antes de qualquer imposição. Gente que me via como pessoa, não como filha de ninguém. — Vocês exageram — falei, rindo. — Eu só fiquei um pouco mais cansada. — Cansada nada, tá linda — uma delas respondeu. — Sempre simples, sempre simpática… igualzinha. E eu gostava disso. De não precisar provar nada. Marisa apareceu logo depois, com aquele sorriso aberto que só ela tinha. — Vem cá, minha europeia favorita — disse, puxando uma cadeira. — Senta aqui. Tava com saudade dessas unhas comportadas. — Eu também tava com saudade de você — respondi, sentando. — Lá fora até tentei achar alguém que fizesse do jeito que você faz… mas não tem igual. Ela riu, já pegando meus dedos. — Me conta tudo. Como foi morar fora? Suspirei, apoiando as costas na cadeira. — Foi libertador — comecei. — No começo deu medo, claro. Tudo novo, língua diferente, ninguém pra segurar minha mão. Mas depois… eu aprendi a confiar em mim. Marisa olhou pra mim pelo espelho. — Sempre falei que você era mais forte do que parecia. — Eu aprendi a me virar sozinha — continuei. — Pegava metrô, resolvia coisa em outro idioma, trabalhava, estudava… ninguém me conhecia como “filha de”. Era só eu. — E romance? — ela perguntou, curiosa. Ri na hora. — Nada de filme — respondi. — Eu observei mais do que vivi. Aprendi o que eu não quero. — Isso já é muita coisa — ela comentou, começando a lixar minhas unhas. — Curtinhas, né? Como sempre. — Sempre — confirmei. — Me sinto mais eu assim. Danieli apareceu do nada, empurrando um carrinho. — Ana! — disse animada. — Que bom te ver de volta. Surgiu uma vaga agora pro laser… você não quer aproveitar pra fazer o retoque? Olhei pra ela, surpresa. — Agora? — Agora — ela confirmou. — Rapidinho. Antes de pintar as unhas. Pensei por dois segundos. — Ah… quero sim — decidi. — Já resolvo tudo de uma vez. Marisa levantou as sobrancelhas, brincando: — Olha ela… voltou chique. — Nada disso — ri. — Só organizada. Fui com Danieli pra outra sala. Tudo limpo, claro, silencioso. Deitei na maca sentindo aquele conforto estranho de quem cuida de si sem culpa. — Você continua tranquila — Danieli comentou, preparando o equipamento. — Tem gente que vem aqui cheia de ansiedade. — Eu aprendi a respeitar meu tempo — respondi. — Lá fora ninguém te apressa. Ou você aprende a viver… ou fica pra trás. Ela sorriu. — Gostei disso. O procedimento foi rápido. Um leve desconforto, nada que eu não estivesse acostumada. Quando terminou, voltei pro espaço das unhas me sentindo… leve. Como se aquele cuidado fosse mais do que estético. Era simbólico. Sentei de novo na cadeira. — Então — Marisa falou. — Qual vai ser a cor? Olhei pra fileira de esmaltes, dezenas deles. Claros, rosados, branquinhos, nudes… todos lindos. — Ainda não sei — respondi, sincera. — Quero escolher com calma. Ela riu. — Você sempre assim. Observa tudo antes de decidir. Sorri de leve. Mal sabia eu que, enquanto eu escolhia com cuidado a cor de um esmalte… outras escolhas, muito maiores, já tinham sido feitas por mim. E essas… eu não teria tempo nenhum pra pensar. Ana narrando Eu ainda estava escolhendo mentalmente a cor do esmalte quando Danieli voltou, empurrando um arara pequena cheia de vestidos. — Amiga… — ela disse, já com aquele tom de quem sabia que ia chamar atenção. — Chegaram uns vestidos novos hoje. Olha isso. Levantei o olhar na hora. Vestidos longos. Todos tomara que caia. O tecido misturava látex com um acabamento elegante, colado na medida certa, sem exagero. Tinham várias cores: preto, vinho, azul-marinho, nude… todos lindos. Mas foi inevitável. Meus olhos pararam em um. Rosa. Não um rosa chamativo demais. Era um rosa sofisticado, feminino, do tipo que não grita, mas também não passa despercebido. O tecido brilhava levemente sob a luz do salão. — Esse — falei, apontando sem pensar. — Quero esse. Marisa levantou a cabeça, curiosa. — Sabia — ela disse, sorrindo. — Esse rosa é a sua cara. Delicado, mas marcante. Danieli tirou o vestido da arara e aproximou do meu corpo, analisando. — Vai ficar perfeito em você. Valoriza tudo sem ficar vulgar. Sorri, sentindo aquele friozinho bom de quando algo simplesmente encaixa. — Então já sei — falei, decidida. — Vou pintar a unha de rosa também. Bem clarinho. Só pra combinar. Marisa abriu um sorriso satisfeito. — Finalmente decidiu a cor. — Decidi — confirmei. — Um rosa bem suave. Nada exagerado. Ela começou a separar os esmaltes, colocando alguns tons próximos pra eu comparar. — Você sempre escolhe coisa delicada — comentou. — Nunca vi você usar vermelho, preto… — Não me vejo assim — respondi. — Gosto do que é leve. Danieli pendurou o vestido de novo e cruzou os braços. — E pra onde vai toda produzida assim? Respirei fundo antes de responder. — Vai ter um jantar hoje na minha casa — falei, casual. — Meu pai pediu pra eu me arrumar. Marisa me olhou pelo espelho. — Jantar importante? — Parece que sim — respondi. — Ele não costuma pedir isso à toa. Danieli arqueou a sobrancelha, curiosa. — Então esse vestido é perfeito. Elegante, mas feminino. Vai arrasar. Observei minhas unhas enquanto Marisa começava o preparo, ainda sem a cor. — Não é pra arrasar — falei, sincera. — É só um jantar. Mas algo dentro de mim sabia que não era só isso. O vestido rosa sobre a cadeira. O esmalte escolhido com cuidado. O jantar inesperado. Tudo parecia pequeno demais… pra sensação estranha que começava a se formar no meu peito. Mesmo assim, sorri. — Vou usar esse — repeti, como se estivesse falando mais pra mim do que pra elas. E enquanto Marisa começava a passar a base transparente nas minhas unhas, eu não fazia ideia de que aquela escolha — tão simples, tão delicada — seria o primeiro detalhe de uma noite que mudaria tudo.
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