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1793 Words
Miguel narrando Não era visita social. Quando meu pai disse que a gente ia até a casa de Eduardo, eu já sabia que não era pra conversa fiada, nem pra trocar gentileza. Era negócio. E negócio sério. O carro deslizou pela rua larga do bairro nobre, contraste escancarado com a favela logo ali do lado. Mansões silenciosas, muros altos, segurança discreta. Gente que manda sem precisar aparecer. — Fica atento — meu pai disse, enquanto o portão automático se abria. — Aqui todo mundo escuta mais do que fala. Assenti, observando o lugar. A casa era grande, luxuosa sem exagero. Dinheiro antigo misturado com dinheiro sujo bem lavado. Entramos. Eduardo nos recebeu com aquele sorriso controlado de quem sabe exatamente o que tem e o que oferece. Aperto de mão firme, cordialidade ensaiada. — Augusto. Miguel. — Ele fez um gesto pra gente entrar. — Chegaram bem. — Sempre — meu pai respondeu. — Vamos resolver o que precisa ser resolvido. Sentamos na sala ampla, móveis claros, arte cara nas paredes. O clima era civilizado demais pra quem vive da ilegalidade. Conversa começou baixa, técnica. Rotas, investimentos, proteção, expansão. Eu escutava mais do que falava. Até que ouvi o som de salto. O som chamou atenção porque veio acompanhado de presença. Ela entrou como se fosse dona do ambiente. Vestido justo, cabelo impecável, maquiagem perfeita. Produzida demais pra uma tarde comum. O olhar foi direto em mim — rápido, avaliando — e depois no meu pai. — Boa tarde — ela disse, com um sorriso calculado. — Não sabia que teríamos visitas. Eduardo se levantou um pouco. — Verônica, essa é uma reunião — disse, num tom neutro. — Eu sei — respondeu, aproximando-se. — Mas achei que podia cumprimentar. Meu pai assentiu de leve, educado. Eu apenas mantive o olhar, analisando. Ela era bonita. Disso não dava pra negar. Mas tinha algo ali… barulho demais. Vontade demais de ser vista. — Você é o Miguel, né? — ela perguntou, estendendo a mão pra mim. — A gente já se viu em algumas festas. Apertei a mão dela rápido, sem sorrir. — Pode ser. Ela riu, animada demais. — Claro que sim. Lembro bem. Todo mundo lembra. Meu pai pigarreou. — Estamos tratando de assuntos importantes — disse, firme. Mas Verônica não parecia disposta a sair. — Assuntos de família? — ela perguntou, curiosa. — Ou de negócios? Eduardo respirou fundo, mas antes que respondesse, ela ouviu meu pai comentar: — Casamento é sempre assunto grande. Os olhos dela brilharam. Literalmente. — Casamento? — repetiu, tentando parecer casual, mas falhando miseravelmente. — Que interessante… Ela olhou pra mim de novo. Dessa vez diferente. Mais lenta. Mais calculada. Como se estivesse encaixando peças que só existiam na cabeça dela. — Faz sentido — ela continuou. — Famílias fortes se unindo… poder com poder. Meu estômago revirou de leve. Ela sorriu ainda mais. — Sempre achei que isso fosse acontecer — disse, confiante. — Gente do nosso nível não fica solta por muito tempo. Meu pai trocou um olhar rápido com Eduardo. Um daqueles olhares que dizem não é isso, mas não explicam nada. — Verônica — Eduardo chamou, num tom mais duro. — Não é hora. Ela levantou as mãos, fingindo rendição. — Claro, claro. — Mas antes de sair, olhou pra mim mais uma vez. — De qualquer forma… fico feliz em ver você aqui, Miguel. Saiu deixando perfume, expectativa e uma certeza errada no ar. Assim que a porta fechou, meu pai falou baixo: — Isso pode virar problema. — Já virou — respondi, seco. Eduardo passou a mão pelo rosto, visivelmente incomodado. — Ela não sabe de nada — garantiu. — Só… deduziu coisa demais. Encostei as costas na cadeira. — Dedução demais costuma dar merda. Meu pai concordou com um leve movimento de cabeça. — Por isso a gente precisa resolver tudo rápido — ele disse. — Antes que alguém comece a achar que tem direito ao que não é seu. Olhei na direção por onde ela tinha saído. Verônica achava que aquele casamento era sobre ela. Sobre status. Sobre brilho. Mal sabia ela que, naquele jogo, nem todas as peças escolhem onde ficam no tabuleiro. E que o lugar ao meu lado… já tinha sido decidido. Miguel narrando A sala ainda estava impregnada do perfume de Verônica quando Eduardo resolveu mudar o tom da conversa, como quem puxa algo mais leve pra mesa sem perder o controle da situação. — Aproveitando que vocês vão voltar mais tarde… — ele disse, apoiando as mãos nos braços da poltrona — queria saber uma coisa simples. Meu pai ergueu o olhar. — Diga. Eduardo sorriu. — O que vocês costumam gostar de jantar? Meu pai soltou uma risada curta. — Depois de tanto assunto pesado, qualquer coisa que não dê dor de cabeça já tá ótimo. Olhou pra mim. — E você? Dei de ombros. — Massa resolve fácil. Meu pai assentiu. — Pra mim também. Eduardo riu, agora de verdade. — Engraçado — comentou. — É a comida favorita da Ana também. Levantei o olhar devagar. — Ana? — repeti, sem perceber. Eduardo não fez mistério. — Minha filha mais nova. — Fez uma pausa curta, calculada. — É ela quem vai se casar com você, Miguel. O silêncio caiu pesado na sala. Encostei as costas na cadeira e deixei escapar um riso incrédulo. — c*****o… — balancei a cabeça. — Confesso que achei que fosse a Verônica. Meu pai me lançou um olhar rápido, atento à reação dele. Eduardo suspirou, como quem já esperava aquilo. — Muita gente pensa isso — respondeu. — Ela é mais velha, gosta de aparecer… chama atenção. — Dá pra notar — falei, sem filtro. Eduardo não se ofendeu. Apenas continuou: — Mas maturidade não tem a ver com idade. — Olhou direto pra mim. — Ana é diferente. Meu pai cruzou os braços. — Diferente como? — Ela organiza todo o financeiro da família — Eduardo respondeu, firme. — Empresas, investimentos, contas… tudo passa por ela. Franzi a testa. — Mesmo sendo a mais nova? — Justamente por isso — ele disse. — Ela observa mais do que fala. Não age por impulso. Passei a língua pelo canto da boca, pensativo. — E a Verônica? Eduardo soltou um riso curto, sem humor. — Verônica é ambiciosa. Quer poder, status, vitrine. Mas não tem estabilidade pra sentar ao lado de um homem que carrega um império. Meu pai assentiu devagar. — Mulher assim vira alvo fácil. — Exato — Eduardo concordou. — Ana entende quando ficar em silêncio… e quando agir. Antes que qualquer um de nós dissesse mais alguma coisa, ouvi passos no corredor. Passos leves. Calmos. A conversa morreu sozinha. Ela apareceu na porta da sala. Não estava produzida demais. Não estava montada pra impressionar. Usava um vestido rosa indiano, fresco, de tecido leve, caindo solto pelo corpo. Nada justo, nada chamativo. Cabelo preto, bem liso, solto pelas costas, ainda com aquele brilho de quem acabou de sair do banho. Rosto limpo, quase sem maquiagem. Simples demais… pro lugar onde eu vivia. E, ainda assim, impossível de ignorar. Ela sorriu ao ver o pai, um sorriso sincero, tranquilo. — Pai… — disse, num tom leve. — Cheguei. Eduardo abriu um sorriso diferente de todos os outros daquela tarde. Um sorriso de pai mesmo. — Ana, vem cá. Ela se aproximou com passos tranquilos, sem pressa, sem desconfiança. Só então levantou os olhos na nossa direção. O olhar passou primeiro pelo meu pai, respeitoso. Depois… caiu em mim. E ali, naquele segundo silencioso, eu tive certeza de uma coisa: Ela não fazia ideia de quem eu era. E muito menos do que estava prestes a acontecer com a vida dela. Ana narrando Assim que entrei de vez na sala, senti o clima diferente. Não pesado… Mas atento. Dois homens sentados com meu pai. Um mais velho, postura firme, olhar que parecia medir tudo. O outro… mais jovem. Alto. Corpo forte mesmo por baixo da camisa. Olhar sério demais pra alguém novo. Os dois pararam a conversa no mesmo instante em que me viram. Respirei fundo e fiz o que sempre fiz melhor: educação. — Boa tarde — falei, com um sorriso leve. — Com licença… eu sou a Ana. Meu pai sorriu, orgulhoso. — Minha filha. O homem mais novo se levantou na hora. Movimento firme, confiante. Ele não sorriu, mas também não foi rude. — Miguel Andrade — disse, estendendo a mão. — Prazer. Apertei a mão dele com delicadeza. — Prazer — respondi. A mão dele era quente. Forte. O aperto seguro, sem exagero. Me olhou nos olhos por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse tentando entender alguma coisa que nem ele sabia explicar. O homem mais velho assentiu com a cabeça. — Augusto Andrade. — Prazer, senhor — falei, educada. Meu pai então completou, como se estivesse apresentando algo óbvio: — Eles são da Rocinha. A família Andrade comanda a facção de lá. Assenti naturalmente, sem surpresa. — Eu sei — respondi. — Já fiz muita contabilidade pra vocês… no nome do meu pai. O silêncio durou um segundo. Augusto me olhou com mais atenção agora. Não como quem avalia aparência. Mas como quem avalia utilidade. — Então foi você — ele disse, sério. — Alguns relatórios que chegaram até mim… bem organizados. — Obrigada — respondi, simples. — Meu pai sempre me ensinou a ser discreta. Augusto assentiu devagar. — Isso é raro hoje em dia. Miguel continuava em silêncio, me observando. Não parecia entediado. Parecia… atento demais. Meu pai pigarreou, quebrando o clima. — Ana cuida de boa parte do financeiro da casa. — Dá pra perceber — Augusto respondeu. — Obrigado pelo trabalho. — Faço o que precisa ser feito — falei, com naturalidade. Talvez fosse estranho pra eles ver uma mulher falando de números com tanta tranquilidade. Pra mim, era só parte da rotina. Olhei para meu pai então, lembrando de algo. — Ah, pai… — comentei, casual. — Comprei um vestido novo pra hoje à noite. Miguel arqueou levemente a sobrancelha. — É? — meu pai perguntou. — Gostou? — Muito — respondi. — Depois te mostro. Eduardo sorriu. — Ótimo. Quero você bonita hoje. — Vou estar — garanti. Voltei o olhar para os dois homens por educação, mantendo o sorriso leve. — Se me dão licença… vou subir um pouco antes do jantar. — Claro — meu pai respondeu. Passei por Miguel de novo, sentindo aquele olhar me acompanhar por um instante curto demais pra ser coincidência, longo demais pra ser nada. Subi as escadas com o coração calmo, sem imaginar que aquele aperto de mão educado… tinha acabado de selar algo muito maior do que eu poderia prever.
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