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1287 Words
Miguel narrando Saímos da casa do Eduardo já no começo da noite. O portão fechou atrás da caminhonete e o silêncio tomou conta do carro por alguns segundos. Só o som do motor e a rua passando rápida demais pelos faróis. Meu pai estava… satisfeito. Dava pra ver. — Bonita, né? — ele comentou, quebrando o silêncio. — Gata pra c*****o. Escolhi a certa, sem dúvida nenhuma. Não respondi. Fiquei olhando a rua pela janela, braços cruzados, a imagem dela ainda fresca demais na cabeça. Simples, educada, falando de números como se fosse a coisa mais normal do mundo. Nada a ver com o ambiente onde eu vivia. — Tu ficou quieto — ele continuou. — Não gostou? — Não é isso — respondi, depois de alguns segundos. — Eu só… não imaginava. Ele riu de leve. — Ninguém imagina até ver. Suspirei fundo, passando a mão pelo rosto. — Será que ela realmente merece um homem perigoso? — falei, sem pensar muito. Meu pai virou o rosto devagar na minha direção, surpreso. — Olha só… — disse, com um meio sorriso. — O Miguel preocupado com alguém. — Não viaja — rosnei. — Tô sendo realista. — Realista sou eu — ele respondeu. — E apesar de todos os teus defeitos, você é um cara bom. Soltei uma risada curta. — Bom pra quem? — Bom o suficiente — ele rebateu. — Você protege os seus. Cumpre palavra. Não mistura covardia com poder. Fiquei em silêncio de novo. — E outra coisa — ele acrescentou. — Pode sim acontecer de você se apaixonar. Virei o rosto na hora. — Isso é difícil — falei, seco. — Ela não faz meu tipo. Meu pai riu alto agora. — Tipo muda. — Não no meu caso. Ele balançou a cabeça, divertido. — Pode não fazer teu tipo… — disse, olhando pra frente — mas na cama deve ser uma gostosa. — Pai… — reclamei, irritado. Ele riu mais ainda. — Relaxa. — Depois completou, sério de novo: — O resto, o tempo resolve. Voltei a olhar pra rua, sentindo aquela mistura estranha no peito. Curiosidade. Resistência. Algo que eu não queria dar nome. Ela não fazia meu tipo. Não daquele jeito. Mas, pela primeira vez, eu não tinha tanta certeza se isso realmente importava. Miguel narrando A estrada subindo o morro era conhecida demais pra mim. Cada curva, cada luz acesa, cada ponto ocupado. A mansão já dava pra ver de longe, imponente no alto, como se lembrasse o tempo todo quem mandava ali. Mas, naquele momento, nada disso me tranquilizava. — Eu não sou feito pra isso — falei, quebrando o silêncio de vez. — Eu gosto é de prostituta, pai. De curtir a vida. Mulher sem cobrança, sem vínculo, sem essa p***a toda. Ele não se virou. Continuou dirigindo, calmo demais. — Eu sei — respondeu. — Sempre soube. Bufei, passando a mão pelo rosto. — E do nada… do nada minha vida vai virar outra coisa. Casamento, regra, aparência, mulher certinha do meu lado. — Balancei a cabeça. — Isso não combina comigo. — Combina com o cargo que você vai assumir — ele disse, firme. — Mas não comigo — insisti. — Eu vou acabar traindo ela. — Falei de uma vez. — Porque eu não sinto t***o nenhum nesse tipo de mulher. Meu pai soltou um suspiro longo, daqueles de quem já viveu demais. — Vida de casado é assim no começo — respondeu. — Estranha. Engessada. Dá vontade de correr. — Então por que você tá me empurrando isso? Ele finalmente me olhou de canto. — Porque eu já estive exatamente onde você tá agora. Fiquei em silêncio. — Quando eu casei com a sua mãe — ele continuou — eu pensava igualzinho a você. Achava que ia perder liberdade, que ia ficar preso, que mulher de casa não tinha graça. — E não tinha? — provoquei. Ele sorriu. Um sorriso raro. Carregado de lembrança. — Era a mulher mais difícil que eu já conheci. — Fez uma pausa. — E acabou sendo o amor da minha vida. Engoli em seco. — Você não pode comparar. — Posso — ele rebateu. — Porque eu também achava que ia trair. Que não ia dar conta. Que não sentia t***o daquele jeito imediato. — E aí? — Aí o tempo fez o que nenhuma prostituta nunca fez — ele disse. — Me fez escolher ficar. O carro subia devagar agora, quase chegando. — Eu não tô te pedindo pra virar santo — ele continuou. — Tô te pedindo pra dar tempo ao tempo. Pra não decidir tudo antes de viver. — E se eu não conseguir? — perguntei, mais baixo. — Vai ter que se acostumar — respondeu, simples. — Porque liderança cobra sacrifício. Sempre cobrou. A mansão apareceu inteira à nossa frente. Portão alto, homens armados, respeito absoluto. — Eu quero isso pra você — ele finalizou, desligando o carro. — Mesmo que agora pareça forçado. Porque eu sei onde isso pode chegar. Desci do carro em silêncio. Eu ainda achava que ela não fazia meu tipo. Que não despertava nada em mim. Mas aquela conversa deixou uma coisa martelando na cabeça: Talvez o problema não fosse ela. Talvez fosse o medo de mudar… num mundo onde eu sempre mandei em tudo. Miguel narrando Entramos na mansão em silêncio. A porta se fechou atrás da gente com um som seco, e o eco dos nossos passos tomou conta do hall amplo. A casa estava viva, mas quieta — vozes baixas vindas da cozinha, o brilho das luzes refletindo no piso claro, tudo funcionando como sempre. Meu pai largou o paletó sobre o sofá enquanto eu caminhava alguns passos pela sala, tentando organizar a cabeça. Foi ali, no meio daquele espaço grande demais, que ele falou: — Você vai precisar ver uma casa. Parei e virei pra ele. — Casa? — Uma casa pra você e pra sua esposa — respondeu, como se estivesse falando do tempo. Soltei uma risada curta, sem humor. — Você já tá tratando isso como fato consumado. — Porque é — ele disse, simples. — Mulher de líder precisa de endereço fixo. Segurança. Estrutura. Passei a mão pelo rosto, impaciente. — E onde seria essa casa? — Ainda vamos decidir — ele respondeu. — Pode ser fora do morro, pode ser aqui em cima. Mas tem que ser à altura do cargo que você vai assumir. — Sempre o cargo… — murmurei. Ele foi até o bar, serviu dois copos, me estendeu um. — Sempre. Peguei o copo, mas não bebi. — E o casamento? — perguntei. Ele me encarou por cima do copo. — Também precisa ser decidido logo. Onde vai ser. Como vai ser. Quem entra e quem fica de fora. — Logo quanto? — questionei. — O mais rápido possível — respondeu. — Quanto mais tempo passa, mais gente fala. E conversa solta vira problema. — Você quer fechar tudo antes que eu pense demais. Ele deu um meio sorriso. — Pensar demais nunca ajudou ninguém nesse mundo. Caminhei até a janela, observando as luzes do morro lá embaixo, pulsando vivas. — Então agora é isso — falei, baixo. — Casa nova. Casamento. Vida nova. Tudo de uma vez. — Não vida nova — ele corrigiu, se aproximando. — Vida que sempre foi sua. Só que agora oficial. Ficamos em silêncio. — Um dia você vai entender — ele concluiu. — Eu só tô te colocando onde você pertence. Subi as escadas sentindo o peso de cada palavra. Casa. Casamento. Pressa. A mansão parecia mais fechada naquela noite. E eu sabia que, a partir dali, não havia mais como fingir que aquilo tudo não estava acontecendo.
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