(Um ano depois)
— Srta. Garcia, esse são os projetos para aprovação. Foram corrigidos as falhas que a senhora notou e nossos designers estão ansiosos pela sua opinião agora.
— Obrigada, Ava. Eu irei avaliar com cuidado e enviarei a resposta. — Aceno com a cabeça, recebendo os croquis de suas mãos. — Peça a Izabela para vir imediatamente até a minha sala, por favor, tenho assuntos a tratar com ela.
— Sim, senhora. Mais alguma coisa?
— Na verdade, sim. Entre em contato com o Sr. Collen e avise que eu consegui contato com a marca que ele queria, eles virão ouvir nossa proposta.
— Sério? Teremos uma nova marca parceira? Qual? — Se empolga, me arrancando uma gargalhada.
— Eu gostaria de poder te contar, Ava, mas ainda é sigiloso. Quando possível, eu farei questão de te dizer pessoalmente. — Garanto.
— Obrigada, senh...
— MARIA! — Ouço de longe um chamado bastante enfático. — ACORDE, MARIA, ESTÁ SONHANDO DE NOVO?
Sonho...?
Não!
De novo não!
O sorriso que eu formava em meus lábios vai desaparecendo, e eu abro os meus olhos obrigatoriamente, odiando ter que fazer isso.
Quando eu aceitei trabalhar na Mademoiselle não achei que ficaria tanto tempo na fábrica, na produção. Eu sonhei que mesmo não sendo o cargo que eu esperava, eles notariam que eu tenho potencial e eu seria transferida.
Claramente, isso ainda permanece em meus sonhos.
—Que saco! Você é terrivelmente irritante, Cristiana. — Eu não posso ter paz nem mesmo em meus sonhos. — Que horas são?
Ela nem mesmo precisa responder, pois o sinal para voltarmos ao serviço já é o suficiente para isso. Dios mio, eu ainda sinto vontade de chorar sempre que escuto esse barulho dos infernos.
Esse lugar inteiro é um inferno!
— O almoço acabou, precisamos ir. — Seu tom de voz é tão triste quanto o meu.
Isso aqui é bem diferente do que eu conheci na sede. Não há luxo, não há padrões, as pessoas são de vários países e lugares diferentes da cidade – a única parte boa é não haver essa distinção. Nós somos uma família aqui.
Mas nem mesmo nossa relação é capaz de me fazer feliz. Isso não é o que eu planejei, não é para isso que eu estudo, que eu estarei pegando o meu diploma em dois semestres. Esse porão não é o meu lugar!
— Garcia, Willians, estão atrasadas. — Ava nos recebe como se estivéssemos no exército e não em uma fábrica de roupas. Ela leva o cargo de encarregada bem a sério.
— Já estamos aqui. — Respondo não muito animada.
— Willians pode voltar ao trabalho, você, venha comigo ao meu escritório. — Preciso me esforçar para segurar a língua e não dizer que eu não sou paga para isso, sou paga para embalar os vestidos para envio.
— Sim, senhora. — Mas engulo minhas palavras e concordo. Aceno para Cristiana e sigo Ava até a sala dela.
Sim, eu fico na preparação das peças prontas, antes de serem enviadas para os clientes. É tudo muito meticuloso. Depois de todo o processo feito na sede, a divulgação, fotos, desfile, as marcas compram os vestidos e os pedidos são enviados para nós na fábrica.
Aqui, a magia acontece. O setor de costura transforma os desenhos em realidade, depois há a revisão, a passação, e só então os vestidos são muito bem embalados para serem enviados aos nossos clientes.
— Aconteceu um problema com os croquis, novamente, e as costureiras não estão conseguindo entender. — Claro. — Precisamos que você corrija.
Ava coloca os desenhos em minha frente, mostrando qual é o problema. Alguém derrubou algum tipo de bebida nos papéis e o desenho virou uma bagunça. Sim, é claro que há tecnologia na empresa – mas não aqui na fábrica. Lá, os desenhos são passados em tablets e iPad’s, mas chegam aqui apenas impressos em papéis, o próprio rascunho original de Brandon é que é enviado para nós.
— Isso vai demorar um pouco, senhora, os vestidos vão acumular para serem embalados, eu preciso terminar antes que o caminhão chegue. — Relembro. Se eu fizer o serviço dela que seria resolver esse tipo de coisa, quem fará o meu?
— Você já tem experiência o suficiente para ser rápida. Ou será que não aprendeu nada no estágio até agora?
Não há muito para entender dos desenhos, mas, por sorte, eu me lembro bem de cada um dos detalhes dos vestidos desenhados pelo demônio, Brandon Collen.
— Não seria mais fácil pedirem para enviarem o arquivo e imprimir novos? — Mesmo tendo visto mais de mil vezes esses desenhos que até parecem que foram meus, não acho uma boa ideia refazer os desenhos de Brandon.
— O chefe não está de bom humor hoje. — Eu acredito que nunca. — Houve alguns problemas no transporte, não que isso seja da sua conta, mas Brandon não pode saber que houve esse descaso com os desenhos.
— Oh, Dios mio. — Resmungo, pegando o lápis e começando.
É uma coleção de trinta vestidos. Mais de dez desenhos foram danificados e eu refaço todos eles em papéis em branco, dados por Ava.
Sei que não sou paga para isso, como eu pensei anteriormente, não sou paga para resolver metade dos problemas que resolvo aqui. Mas admito, não é tão r**m dessa vez. Pela primeira vez eu me sinto um pouco perto do meu verdadeiro sonho, desenhar, ser útil, mostrar um pouco do que eu estudei e do que sou capaz – mesmo que não faça diferença para nenhum deles da Mademoiselle Luxo apenas porque sou uma estrangeira.
Os traços de Brandon são firmes, marcantes, é possível identificar quem foi o artista por trás de cada vestido que ele faz mesmo que não tivesse sua assinatura. As vezes me pergunto como um homem tão grosseiro e preconceituoso pode ser capaz de desenhar algo assim, é como se ele entendesse as mulheres, visualizasse cada uma que vai vestir um desses.
É magnífico.
Vou recriando cada um dos seus vestidos, como se eu os tivesse mapeado em meu cérebro. A cada traço eu sinto como se estivesse próxima a ele – e a ideia parece insuportável na vida real, mas não como artista.
— Não ficou tão r**m, acho que conseguiremos trabalhar em cima disso. — Ava avalia os desenhos como se fosse uma professora de alfabetização e eu apenas uma criança com um lápis na mão.
Viver assim está acabando comigo.
Não é pela falta de reconhecimento, não é porque não acho que seja um trabalho digno. Mas minha mãe arrancaria os olhos se me visse assim, se visse que a garotinha dela que ela considera como um gênio está se submetendo aos piores tipos de humilhação e abusos.
— Eu vou voltar ao meu trabalho agora. — E é isso que faço, com o coração batendo na ponta dos dedos eu retorno ao meu setor.
A calça de moletom e a blusa surrada se tornaram meus melhores amigos aqui. São confortáveis, ajudam a me locomover bem e carregar as caixas pesadas cheias de vestidos embalados, antes de empilhar as caixas e mandar para o setor de envio. Os tênis então...
Nem quero pensar muito sobre o estado deles.
Do que adianta usar roupas boas apenas para estragar aqui?
Eu sou mesmo uma estudante de moda?
As vezes até eu mesma duvido, em especial me olhando no espelho.
Por Deus, como acordar às quatro da manhã e ter ânimo para me arrumar para vir aqui sofrer tudo que sofro? Ouvir como eu sou lenta, como eu não sou capaz, como eu não sou boa o bastante, como eu nunca serei alguém além desses muros?
— Como foi? — Cristiana me questiona antes mesmo de eu parar no meu lugar, sem conter a ansiedade.
— Eu só fiz o que me mandaram fazer, e voltei, como sempre. — Dou de ombros, prendendo o choro ao encarar a mesa cheia dos vestidos que restaram dessa última coleção e serão enviados ao compradores.
— Desculpe, amiga, eu não consegui acompanhar sozinha. — Se refere a não ter conseguido embalar tudo que tinha sem mim.
— Não foi culpa sua. — Coloco um sorriso falto no rosto. — Vamos, temos apenas quinze minutos.
E lá vamos nós, dar o nosso suor pela Mademoiselle, e cada gota derramada só lembro de como aquelas mulheres se pareciam lá. Talvez eles tenham razão, talvez esse seja o meu lugar.
Eu nunca serei como elas.
Nunca terei aqueles cabelos loiros brilhantes, aquela altura, aquele corpo esbelto. Eu não tenho o dinheiro para me vestir como elas e nem que usasse as mesmas roupas, ficariam tão alinhadas em minhas curvas.
Talvez eu só precise aceitar, que histórias não tem finais felizes como nos livros. Eu estou na vida real.
Sou só uma garotinha cheia de sonhos que veio para New York com a mãe quando era criança, e que pouco depois perdeu o pai para o câncer. Viemos em busca de oportunidades, de sobrevivência, não de luxo e glamour. É claro que eu queria ser a pessoa que minha mãe acha que eu sou, mas estou começando a entender que não, eu não sou ninguém.
— Que diabos pensam que estão fazendo? O caminhão chegará em minutos e olhe para esta mesa?
— A Maria acabou de chegar, senhora, eu não conheci acompanhar sozinha.
— Vocês são duas incompetentes. São pagas para isso, fazem isso durante oito horas todos os dias e ainda assim, não são rápidas o suficiente? — Se questiona. Ela fala como se fosse algo fácil demais, além de ser rápida deixar o vestido perfeito na embalagem como um Mademoiselle merece. — Se o caminhão não conseguir carregar o pedido de vocês, sairá do seu salário.
Parei de ligar para os descontos há muito tempo. Mas ouvir tudo que somos obrigadas a ouvir ainda mexe muito comigo, e as vezes, não consigo ser forte o suficiente.
— Estamos dando nosso melhor, senhora, eu garanto. — Cris reforça.
E é isso que seguimos fazendo. Enquanto derramo lágrimas silenciosas, minha testa pinga suor e meus braços doem, eu ouço o som do caminhão estacionar.
Droga!
Minhas mãos tremem. As outras duplas de embaladeiras já estão terminando os seus e nós, estamos bem longe
.
— Perdoe-me, Cris. — Sussurro entre minhas lágrimas.
— Não foi sua culpa, mulher, em nome de Deus. Só não pare, por favor, eu preciso muito desse dinheiro.
Todas precisamos, eu sei, mas também sei que o caminhão não vai esperar por nós. Com as lágrimas e os tremores em meu corpo é ainda pior, eu m*l consigo respirar...
Expirando o ar pela boca eu não paro, dando tudo de mim. O relógio parece ir contra nós e eu não tenho tempo nem de olhar para ele, de olhar para nada além dos vestidos divinos em minha frente.
O tempo é nosso pior inimigo.
É caótico.
— Nós não vamos conseguir. — Percebo quando ergo minha cabeça e vejo as cargas quase completando o caminhão estacionado na entrada do galpão.
— Não, não vamos. — Cristiane também pensa de forma racional.
— Eu pagarei a diferença de seu salário, não se preocupe. — Isso é culpa minha, eu não estava aqui.
— Cale a boca. — Contesta.
— O que eu faço com vocês duas? — O grito de Ava nos faz abaixar a cabeça. — De todos os dias, hoje era o que menos vocês poderiam atrasar. Você, deveria ter chegado mais cedo se estava tão atrasada.
— Eu não consigo acordar mais cedo, senhora, já chego muito tarde da faculdade. — Me explico.
— Ainda nisso? — Sorri irônica. — Você não é capaz nem mesmo de embalar alguns vestidos, acha que essa faculdade vai fazer de você alguém na vida? Isso é o topo da sua vida, Maria Alexandra, é o máximo que você vai alcançar. Você é só uma estrangeira que nasceu para servir e nem isso consegue fazer bem.
Nesse momento posso sentir cada pedacinho do meu coração explodir. Todos os dias, a humilhação aumenta. Ouvir isso na frente de minhas colegas é ainda pior que quando é em particular, me transforma numa coitada que eu não gostaria de ser.
Peço desculpas mentalmente aos meus pais, tento controlar o choro, tento respirar, mas eu consigo falhar em todas as minhas missões. Nesse momento até mesmo minhas vistas escurecem e eu preciso lutar para ficar de pé.
Dói. Dói muito.
— O caminhão não sairá daqui, não enquanto as peças da senhorita Maria Alexandra não ficarem prontas e você não se desculpar com ela por tamanha ignorância e falta de liderança. Eu ficarei esperando. — Posso não ver quem é graças a minha cabeça baixa, encarando os vestidos, mas eu reconheceria essa voz em qualquer lugar.
Novamente sinto o chão embaixo de mim tremer com as ondas sonoras que essa voz traz, e só uma pessoa no mundo foi capaz de fazer isso. Brandon Collen.
Que diabos esse homem faz aqui?
Não. Não pode ser verdade.
Eu só posso estar delirando.
Mas para o meu azar, a primeira coisa que meu olhar se fixa quando ergo a minha cabeça, são os olhos terrivelmente azuis dele.