PRÓLOGO — MARIA ALEXANDRA

2052 Words
— Por Dios, Maria Alexandra, você já leu isso durante dois meses minha filha! — Meus batimentos estão tão altos que m*l consigo escutar outra coisa além deles, então apenas ouço longe a voz da minha mãe. — É finalmente o grande dia, mama. — Respiro fundo. — Venha aqui. — Na verdade é ela que se aproxima de mim, parando bem na minha frente e segurando meu rosto entre suas duas mãos calejadas mas que são as mais amorosas do mundo para mim. Nesse momento, sou obrigada a parar de ler o meu esboço. — Você sempre foi o meu maior orgulho, mi hija. Você sempre foi a alegria da casa, o destaque da turma, era você quem fazia os discursos, quem representava as escolas por onde passou. Você sempre foi a mais inteligente de todas, Alexandra, a ponto de criar você ter sido um desafio. — Sim, eu sei. — Abaixo a cabeça com os olhos marejados. Eu fui um desafio para meus pais em vários sentidos, em especial para alimentar. Desde a morte do papai minha mãe trabalhou incansavelmente, não por ela, mas por mim. Ela nos alimentou, vestiu, e não me deixou trabalhar para me concentrar nos estudos. Finalmente, é o momento de retribuir tudo que ela fez por mim, e eu não posso falhar. Essa é A minha oportunidade. Nada que vier depois pode se comparar a isso. — Ei. — Ergue minha cabeça. — Mantenha assim, prometa-me. Eu não te criei para ser colocada abaixo de ninguém, nem de si mesma. — Eu prometo. — Sorrio, voltando a respirar fundo numa tentativa falha de encher meus pulmões de ar. — É um desafio criar uma criança tão inteligente tendo tão pouco estudo como eu tinha, mas foi um grande presente. Você me ensinou tanta coisa, minha linda. Tenho certeza que as pessoas da... — Faz uma pausa, tentando relembrar o nome da empresa. Eu sou apaixonada nessa inocência. — Modi...Ma... — Mademoiselle. — Ajudo. — Que seja! — Dá de ombros, como se menosprezasse a maior empresa de moda do mundo. Nada é capaz de impressona-la, nada além de mim. — Tenho certeza que essas pessoas vão ver o seu valor, e se não verem, são eles que estarão perdendo. Há outras empresas de moda no mundo, especialmente em Nova York. Não para mim. Eu preciso da Mademoiselle em meu currículo. Foi para isso cada noite em claro, cada dia que eu abri mão de ter uma juventude normal, cada calo nas mãos da minha mãe. Mas por hora, não discuto com ela. — Obrigada, mama. — Encaro o relógio em meu pulso, tentando esconder como estou aterrorizada. — É hora de ir. — O que? Você m*l tocou no café da manhã, menina. — Reclama. Eu apenas termino de organizar os papéis dentro da pasta, jogo minha bolsa no ombro e seguro um donut de chocolate. — Me deseje boa sorte. — Beijo sua bochecha de uma forma que a faz sorrir e enfio o donut na boca apesar do meu estômago embrulhado. — Você não precisa. ••• As coisas seguem correndo bem, eu me planejei para isso. Hoje não cheguei atrasada para pegar o metrô como acontece as vezes indo para a faculdade, consegui um lugar para sentar e poupar minhas pernas bambas, ninguém com um cheiro questionável ou nenhum tarado sentou ao meu lado. Eu apenas coloquei o fone de ouvido, olhei pela janela e passei todo o caminho escutando a história da Mademoiselle. Ainda é preciso andar oito quilômetros da estação até finalmente... Estar de frente para o meu futuro. Eu já passei por aqui outras vezes, mas a Mademoiselle está com um brilho especial hoje – ou talvez seja os meus olhos marejados que estão a deixando assim. Meu coração parece que vai escapar de dentro de mim a medida que um filme da minha vida passa em minha cabeça. Não foi fácil, mas um “sim” hoje é o bastante para me fazer esquecer tudo. O prédio é tão grande que eu me sinto menor que um grão de areia, todo o espelhado ao redor das paredes amedrontadoras passam a ideia de que não importa onde você esteja é a sua imagem que importa. Isso me faz encarar meus próprios trajes de hoje. É claro que eu não tenho condições de ter nem mesmo um dos vestidos Mademoiselle, mas minha mãe conseguiu dinheiro para que eu me arrumasse de maneira apresentável para a ocasião. É uma entrevista de emprego, o ideal é não chamar a atenção para minha aparência – que por si só já faz o serviço. Sou latina, com curvas bem definidas, pele bronzeada e cabelos castanhos que realçam o verde em meus olhos. Uma blusa branca social para esconder o tamanho dos meus s***s e uma saia grafite fazem um estilo profissional, junto com um scarpin preto que me dá elegância. Prendi meus cabelos em um coque bem alinhado e fiz uma maquiagem discreta, mas não capaz de esconder o tamanho dos meus olhos. — Você fez o melhor que pode, Alexandra, acredite. — Sussurro a mim mesma, fechando os olhos por alguns instantes e respirando o mais profundamente que posso. É quando dou o primeiro passo que abro meus olhos, não para caminhar, mas porque o som sibilante de motor parece fazer o chão onde piso tremer. Isso me paralisa no mesmo lugar, nas escadarias da Mademoiselle, onde eu encaro o carro que mais parece uma nave espacial parando. Não entendo de carros, mas a cor branca em contraste com os vidros pretos que torna incapaz de mostrar qualquer coisa dentro juntamente com o modelo nada convencional me indicam que custa mais do que eu posso imaginar. — Mantenha sua língua dentro da boca enquanto eu estou falando, em especial se não for usa-la para dizer nada de útil. — Meu coração que batia tão rápido parece congelar junto com o resto do meu corpo quando o CEO e dono da Mademoiselle é quem desce do carro. Sua voz é tão grave que eu preciso prender meus saltos no chão, ou seria arriscado cambalear com as ondas que ela traz. Eu claramente já o conhecia por foto, mas nada me preparou para o que é essa figura pessoalmente. Grande, assustador, arrogante e terrivelmente belo – é assim que eu o descreveria. O terno perfeitamente alinhado todo em preto assim como seus cabelos lisos e brilhantes formam um contraste perigoso com a pele pálida e os olhos do azul mais celeste. O cheiro que ele deixa quando passa por mim faz meus pulmões doerem, mesmo sendo apenas alguns segundos, para mim pareceu em câmera lenta. Só Deus será capaz de me preparar para estar frente a frente com Brandon Collen. — Olá, bom dia, eu estou aqui para a entrevista para a vaga de estagiária. — Depois de uns segundos em inercia, trago minha alma de volta para entrar na empresa e pedir informações na recepção. — Qual o seu nome, senhora? — Maria Alexandra Garcia. — Não a corrijo pelo “senhora”. O que me incomoda não é isso, e sim o jeito que ela olha para mim. — Quantos anos? — Vinte e um. — Cidade natal? — Posso notar a curiosidade em seu tom de voz. A cor da minha pele é novidade aqui na empresa, acredito eu. — Essas informações são realmente necessárias? — Você precisa de uma ficha, senhora, é o protocolo para qualquer um que entra na empresa. — México. — Sou direta. Depois de passar meu número de telefone e confirmar o motivo da minha visita, ela me entrega um crachá de visitante com um código de barras. — Cobertura, você pode esperar na primeira recepção, haverá alguém lá organizando as entrevistas. Boa sorte. — É possível notar o tom sarcástico em sua voz, que claramente deseja que eu despenque do elevador. — Não se preocupe, não vou precisar. Mas obrigada. — Eu devolvo seu tom de voz juntamente com um sorriso antes de caminhar até o elevador. O prédio já é alto por fora, mas demorar uma eternidade até chegar a cobertura o faz parecer ainda maior. Cada segundo eu uso para controlar minha respiração e me acalmar, repassar tudo que estudei e usei para me preparar. Eu estou pronta, droga! Quando as portas do elevador se abrem eu vejo a fileira de mulheres sentadas e esperando, todas parecendo que saíram da mesma barriga. Todas loiras, altas, magras, e não estão vestidas para não chamar a atenção como eu. É aí que finalmente noto, resolvendo olhar para as pessoas que já trabalham aqui... Não há ninguém como eu. — Todas sentadas, por favor. — A voz autoritária e feminina me faz caminhar até uma das cadeiras vagas, tentando não pensar muito. Essa não é loira, mas segue a mesma linha de padrão, alta e magra como se fosse da Victoria Secrets. — O Sr. Collen fará a entrevista pessoalmente como divulgado, mas não com todas vocês. Como devem imaginar ele tem pouco tempo livre e o que nem, não pode perder. Por isso, eu analisei cuidadosamente o currículo que me enviaram e fiz uma lista reduzida da quem irá passar para a próxima etapa. — Nesse momento um fiozinho de esperança ressurge. Pelo meu currículo eu tenho chances, eu confio muito no meu potencial. — Alicia. Emily e ... — Ela faz uma pausa, olhando diretamente para mim por alguns segundos. — Qual o seu nome? — Maria Alexandra Garcia. — Repito, disfarçando a voz tremula. — E Sara. Vocês três, me acompanhem. Quem eu não citei, obrigada pela presença, o currículo de vocês continuará em nosso banco de dados para uma próxima oportunidade. Boa sorte a todas. O que? Do que essa mulher está falando? Eu batalhei por anos, estudei cada área dessa empresa, fiz esboços e mais esboços decorando cada um deles, para nem mesmo ter a oportunidade de chegar perto do Sr. Collen? Não. Eu só posso estar tendo um pesadelo porque isso não pode ser real. — Com licença, por favor, Sra... — Leio o nome em seu crachá de identificação. — Izabela. Eu tive a impressão que seria escolhida para a próxima etapa, até que eu me identifiquei. Há algo errado com o meu currículo? — Você não é boa o suficiente para o que estamos procurando. — Por que pensa isso? Eu não irei embora sem saber. — Passo em sua frente, ficando em seu caminho. Eu tento ser forte mas estou desmoronando, se ela prestar bem a atenção perceberá facilmente as lágrimas em meus olhos. — Por favor... — Você tem um bom currículo, é verdade, estaria entre as três meninas. Mas você não tem o perfil para trabalhar em nossa empresa, senhorita. A Mademoiselle lida com imagem, com um certo tipo de público e clientes importantes. O que diríamos a um cliente caso viesse a uma reunião e encontrasse alguém como você aqui? — Além como eu? — Não consigo mais conter as lágrimas, que escapam silenciosamente dos meus olhos. — Uma estrangeira com um tipo tão... peculiar? — O problema é a minha cor, a minha raça? — Não usei essas palavras, mas sim. Eu sinto muito, mas temos um padrão alto aqui, e nosso chefe é bem rigoroso com isso. Não sou eu, estou apenas te poupando do que Brandon faria se você entrasse na sala dele. — Ao ouvir essas palavras eu falho em cumprir a promessa que fiz a minha mãe, abaixando minha cabeça. — O Sr. Collen sabe disso? — São ordens dele. — Essas palavras fazem meu mundo cair. Claro, eu sabia da arrogância dele, mas Brandon Collen ainda era uma inspiração para mim. CEO e dono de uma empresa como essa aos trinta e dois anos, criador das maiores e mais emblemáticas coleções que eu estudei. Ele era o meu herói. — Eu ficarei escondida, prometo. Brandon Collen nunca me verá, nem nenhum cliente. Eu aceito qualquer coisa, por favor, só preciso voltar para casa com um “sim”. — Deixo de lado meu orgulho porque não posso decepcionar a minha mãe. — Talvez eu tenha algo para você, não aqui na sede, mas na fábrica. O que me diria?
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