Era mês de junho, pleno verão, o que significava que o clima não seria um atrapalho para os ajustes que seriam feitos na casa. Não haveriam chuvas constantes, que poderiam atrapalhar caso fosse necessário derrubar uma parede e reerguê-la. Enfim, tudo estava contribuindo para o sucesso dessa nova empreitada.
Em seu quarto de hotel, Emma refez todos os seus passos daquele dia atípico. O que lhe trouxe àquela cidade tão distante de suas origens, o que deixou para trás e que nunca mais a incomodaria, seu passado deveria ser esquecido e agora, o futuro que lhe esperava merecia toda a sua atenção. As lembranças de sua antiga vida ainda a deixavam deprimida; não pôde conter as lágrimas ao olhar uma foto que retirou de sua bolsa: era sua mãe. Na foto, ela estava sentada em seu colo e tinha apenas cinco anos. Elas estavam felizes.
Perdeu seus pais biológicos ainda muito cedo em um acidente de carro, quando ela tinha apenas nove anos. O casal vinha voltando de uma viagem de negócios e encontraram pelo caminho um motorista bêbado que acertou o carro deles em cheio.
Após esse episódio traumático, Emma foi morar em um abrigo para crianças onde permaneceu dois anos e logo foi adotada por um casal que não podiam ter filhos. Eles cuidaram muito bem dela e de Aiden, seu “irmão de coração” até que ambos chegaram a maior idade e foram para a faculdade. Emma teve sorte neste sentido; encontrou em sua segunda família o amparo que precisava naquele momento tão delicado de sua vida.
Seus novos pais lhe ajudaram muito. Lhe proporcionaram conforto, a menina fez uma boa faculdade e de presente ainda lhe deram uma soma significativa em dinheiro que ficou guardado no banco durante vários anos. Sua segunda mãe sempre lhe dizia que ela deveria usar aquele dinheiro de forma responsável e quando realmente fosse necessário. E assim ela o fez. Seguiu o conselho de sua mãe, mesmo sem entender na ocasião o que ela queria dizer.
Anos mais tarde, sua segunda mãe, a quem ela amou tanto quanto sua mãe biológica, veio a falecer. Lutou anos contra um câncer de mama, porém, não conseguiu vencê-lo. Seu segundo pai, a quem ela devia muitos ensinamentos e também o amava como seu pai biológico, se entregou a bebida até que um belo dia dormiu e não acordou mais. O legista disse que foi uma mistura exagerada de remédios para dormir. Ele não aguentou a saudade de sua amada esposa que a morte levou consigo.
Suas lembranças eram muito felizes e também muito dolorosas, mas tudo o que aconteceu havia levado Emma àquele momento em que estava vivendo no presente: principalmente o que veio depois do falecimento de sua segunda mãe.
Em meio aos seus devaneios e viagem no tempo, decidiu ali que a partir daquele momento, sua felicidade e liberdade seriam sua prioridade sempre. Seu bem-estar estaria acima de qualquer coisa. E novamente com esse pensamento de recomeço de vida, pegou no sono. Um sono profundo, sem sonhos.
Há muitos anos ela não dormia tão tranquilamente quanto naquela noite.
***
Não muito longe dali, Mark preparava o jantar para seus filhos. Os três moravam em uma modesta casa. Mark perdeu sua esposa há alguns anos, o deixando viúvo e com duas crianças pequenas: Tom, com apenas oito anos e Olívia com seis anos. Os meninos tinham pouquíssima lembrança de sua mãe. Quase cinco anos já se passaram desde que ela os havia deixado. Vítima de câncer, contra o qual ela vinha lutando desde que descobriu em sua última gravidez.
Foi tudo muito rápido. Da descoberta até a despedida foram poucos meses. O que as vezes deixa Mark grato por sua esposa não ter sofrido tanto tempo.
Mark nunca mais quis ter um novo relacionamento; dedicou-se apenas a cuidar dos filhos. Não que ele tenha decidido se manter fiel à memória de sua esposa falecida, não era isso. Só não achava que era o momento certo. Além disso, não tinha conhecido alguém que lhe despertasse novamente aquela vontade de recomeçar. A campainha tocou, era Molly, Mark atendeu a porta resmungando:
- Não sei porque você toca a campainha, você é de casa, pode entrar direto.
- Gosto de ter sua atenção toda para mim. Onde estão as crianças? – perguntou olhando para todos os lados enquanto entrava na casa.
- Crianças! Sua tia está aqui, veio ver vocês – chamou.
De repente, como se fossem dois furacões, eles surgiram, correndo em direção à tia para abraça-la. Quase a derrubaram.
- Titia! – eles disseram assim que a viram.
- Oi, meus amores!
- Vai ficar para o jantar, tia? – perguntou Olívia.
- Boa ideia! – disse Mark, esperançoso de passar alguns momentos ao lado da irmã que, ultimamente não tinha mais tempo para eles.
- Fico sim! – esfregou a cabeça de Tom e eles voltaram para a brincadeira de antes, deixando os adultos conversarem coisas de adulto.
- Quando o jantar estiver pronto, chamo vocês. – disse o pai.
- E aí, irmãozão? O que tem feito? – perguntou enquanto puxava uma cadeira da mesa para se sentar.
- O de sempre... muito trabalho. O nosso pai tem uma infinidade de coisas para fazer nessa cidade e sempre conta comigo para ajudar. A Mãe já chegou de viagem?
- Sim, chegou hoje à tarde. Vou dar uma passada lá assim que sair daqui, para dar um beijo nela.
- Por favor, diga que passo lá pela manhã, antes de ir à Casa Rosa.
- Eu digo sim. E por falar em Casa Rosa... o que achou da nova moradora? Ela é gata. – Comentou com malícia.
- Sabe que eu nem reparei? – tentou esconder o rosto corado de sua irmã.
- Ah... Para com isso! Acha mesmo que não notei a forma como você olhou para ela? Sou sua irmã, conheço você muito bem. Ela chamou sua atenção. Não precisa fingir; não para mim. E outra, já tá mais do que na hora de você superar o luto.
- Não é tão simples assim. Eu vivi uma vida ao lado da mãe dos meninos. Eu a amei com toda a minha alma – tentou explicar.
- Não tenho a menor dúvida disso, Mark. Acompanhei a vida de vocês de perto. Sei o quanto vocês se amavam e eram felizes, mas ela se foi. É difícil dizer isso a você... só quero que você seja feliz.
- Sei disso... Você tá certa. Ela me chamou a atenção, sim. Ela é muito bonita. Só tem um detalhe, eu m*l a conheço. E se ela for uma criminosa?
Molly não pôde conter a gargalhada.
- Esse é o meu velho irmão... cauteloso até demais. Não estou dizendo que é para você pedi-la em casamento amanhã. Estou dizendo que é para você deixar esse luto de lado e se permitir conhecer as pessoas, se aproximar e quem sabe até se apaixonar de novo. Vá devagar. Conheça sobre ela e quem sabe, algo bom pode sair dessa amizade, hein?!
- Só você mesmo! Romântica como sempre.
- Meu romance só dá certo para unir outras pessoas. Acho que em outra vida eu era cupido.
- Sabe o que acho? Que quando chegar a sua vez, você será tão feliz que irá deixar muitos de nós com inveja.
- Eu espero, irmãozão. Eu espero.
- Tenha certeza disso – ele puxou uma cadeira e se sentou de frente para a irmã – você é uma pessoa que só faz o bem para as pessoas. A vida não seria justa se não te proporcionasse a felicidade de viver um grande amor.
- Mark, como você consegue ficar sozinho há tanto tempo?
- Concentro toda a minha atenção nas crianças. Além disso, tenho medo de conhecer alguém que não os aceite, entende? Você sabe que o mundo tá cheio de gente louca; não posso expor meus tesouros ao perigo.
- Você tem razão! – concordou Molly – Prioridades... Prioridades.
- Vamos chamar os pestinhas? O jantar já vai ser servido.
- Deixa comigo! – Molly foi até a sala para chamar seus sobrinhos, deixando Mark pensativo sobre a conversa que acabaram de ter. Sua irmã tinha razão; ele precisava recomeçar sua vida. Ainda era jovem e todo mundo precisa de um amor. Decidiu que deixaria as coisas acontecerem naturalmente. Não criaria nenhuma resistência, mas também não forçaria a barra.
Ele não podia negar que Emma despertou certo interesse da parte dele. Seu sorriso meigo, voz suave... Aquele aroma doce e fresco que emanava dela, preenchendo suas narinas despertavam sentidos que ele acreditava estarem adormecidos pelo tempo. Sem dúvidas, ela era especial, de um jeito que ele ainda não sabia.
No fundo de seu coração, ele tinha medo. Só a viu uma vez e sinceramente, não acreditava nessas coisas de amor à primeira vista. Acreditava na construção do sentimento ao longo do tempo. Que o sentimento se transforma, amadurece... enfim, para ele, era melhor ir com muita cautela.
E se ela fosse casada? – ele não viu aliança na sua mão – Se tivesse namorado? – Achava que ela não estaria ali, sozinha. Foram tantas as questões que ele levantou naquela noite, depois do jantar em família, que ele até demorou a pegar no sono. Já estava caminhando para as duas da manhã quando finalmente ele conseguiu adormecer.
Em seus sonhos, sua esposa falecida estava sentada no sofá da sala, sorrindo para ele; sua aparência era saudável – não mais aquela última lembrança que ele tinha, de desolação que a doença havia deixado nela. Ela estava bem arrumada, cabelos soltos, maquiada e linda como ela ficava em ocasiões especiais.
De repente ela se levanta e vai na direção oposta a ele, a porta. Nesse instante, Emma vai entrando pela porta e as duas se abraçam como se fossem duas grandes amigas se reencontrando. Mark fica ali olhando, sem entender nada. Sua esposa vira-se para ele e diz “Vai ficar tudo bem”. E sai pela mesma porta em que Emma havia entrado anteriormente.
Mark acordou assustado, não queria que aquele sonho acabasse. Não entendia o que Emma estava fazendo no sonho que ele teve com sua esposa. Nada daquilo fazia sentido. Será que era mais uma daquelas armadilhas que a mente gosta de pregar? Usar uma informação que encontrasse em nosso subconsciente e misturar com uma informação recente. Era o que parecia, mas agora ele não tinha tempo algum para ficar ruminando sonhos confusos.
O dia já estava amanhecendo e ele precisava passar na casa de seus pais antes de ir até a Casa Rosa encontrar com Emma.
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P.S.: Todas as histórias estarão totalmente atualizadas a partir de 05.09.21 – Todas elas estão sofrendo segunda revisão, por esta razão, algumas estão incompletas.
Como é a primeira vez que publico nesta plataforma, ainda estou testando. Mas prometo que todas as histórias estarão atualizadas a partir da data acima.
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