Capítulo 3

1224 Words
Para Emma, o amanhecer daquele dia tinha um sabor diferente. Tinha gosto de tranquilidade misturada com apreensão, se é que é possível atribuir um sabor a um sentimento. Uma tranquilidade que há tempos não experimentava e já nem se lembrava mais de que forma ela receberia essa sensação e apreensão pelo desconhecido. Tudo ali era novo. Vinha de uma cidade grande onde as pessoas não eram capazes sequer de olhar nos olhos umas das outras ou cumprimentar com um bom dia que fosse. A cidade era pequena, aconchegante, mas tinha a questão da aproximação dos moradores. Fez uma nota mental: não deixar se aproximarem demais. A aproximação é perigosa, principalmente em seu caso que não é muito comum. Levantou-se da cama para iniciar sua higiene matinal. Caminhou até a varanda de seu quarto de hotel que ficava no primeiro andar daquele estabelecimento; ainda era cedo, o sol aparecia timidamente com seus primeiros raios. Emma sentou-se na cadeira e ficou ali, apreciando o espetáculo da natureza bem diante de seus olhos. Concentrou-se em tudo o que tinha para fazer naquela manhã. Ela estava gostando da escolha que fizera, apesar de esbarrar no problema com a Casa Rosa – sentiu-se enganada, mas lidou bem com o sentimento. A cidade era muito diferente de sua terra natal, com suas peculiaridades, seu povo acolhedor, crianças brincando no parque... Além disso, era a primeira vez em sua vida que encontrara um lugar para chamar de seu lar. Se tudo desse certo, em breve começariam as obras na Casa Rosa e os planos para a sua reabertura já eram algo palpável. Pelo que tinha observado, a casa não estava tão caindo aos pedaços assim - estava coberto pela poeira devido aos vários anos em que permanecera fechada; precisava de uma boa pintura, trocar o telhado e tudo mais que Mark irá verificar hoje. Pelo que soube, fecharam a casa após o falecimento da matriarca da família. De repente se deu conta de uma coisa: mudou-se para a cidade com praticamente nada, apenas algumas roupas na pequena mala que carregava e muita disposição para arregaçar as mangas e se estabilizar na pequena cidade. Precisava comprar algumas roupas, mas deixaria essa preocupação para mais tarde, após a vistoria.   Já estava quase na hora de encontrar Mark na Casa Rosa e Emma pegou-se arrumando além do normal para tal encontro. Parou um instante lembrando do momento exato em que Mark chegou à confeitaria no dia anterior. Ela não podia negar que ele chamou sua atenção. Era um homem bonito, atraente, sorriso largo e uma meiguice no olhar que poucas pessoas possuíam. Era um homem sofrido, com certeza. Suas rugas de expressão denunciavam isso, no entanto, transmitia paz e serenidade.   Alguém que estivesse quebrado por dentro como ela estava, talvez entendesse a profundidade de suas dores. No entanto, seu passado era algo que não poderia jamais revelar àquelas pessoas. O passado precisa ficar no passado e ponto final. Agora é vida nova.   Desceu as escadas e encontrou a dona do estabelecimento na recepção; a cumprimentou gentilmente. - Bom dia, senhora Davis! - Bom dia! – a velha m*l humorada limitou-se a responder.   Percebendo a animosidade da senhora, Emma apressou-se em sair dali o quanto antes e seguiu seu caminho.   Havia algo estranho naquela mulher que a tratava com certa indiferença desde  sua chegada. Por alguns instantes Emma se questionou se era só com ela ou tratava a todos dessa forma. Decidiu que não iria gastar energias se preocupando com as oscilações de humor de pessoas que ela acabara de conhecer. Tinha seus próprios problemas para resolver.   Passou na confeitaria para tomar café e encontrou com a sorridente atendente. - Bom dia, Molly! – cumprimentou alegremente. Uma das particularidades da cidade que ela já havia percebido era que quando ela entrava em qualquer lugar, todos a observavam, sem a menor cerimônia. - Bom dia, Emma! Como foi a sua noite nessa maravilhosa cidade? Vou separar uma mesa para você. – Caminhou em direção a uma mesa e a limpou. – Sente aqui. Quer companhia para o café? - Foi muito boa, obrigada! Dormi feito uma pedra. – Respondeu enquanto se sentava. – Eu adoraria, mas não tem problema para você? – Falou praticamente sussurrando – Aliás, você chega aqui sempre tão cedo assim? - É o que se faz quando o negócio é seu. Dizem que o olho do dono é que engorda o gado, não é mesmo? - Ah, claro! Sendo assim, tá certo! - Já trago nossos cafés. Só um momento. A moça entrou na cozinha e retornou com uma bandeja com café, pães, bolinhos e biscoitos. - Que delícia! Minha boca já tá cheia d’água! Esses bolinhos parecem ótimos. - E são, você vai ver. As duas tomaram café e conversaram sobre vários assuntos, inclusive sobre a senhora Davis. - Não liga pra aquela velha doida. Ela é assim mesmo, vive m*l humorada desde que o senhor Davis faleceu. Parece que perdeu o gosto pela vida. - Aquele jeito dela me assusta! – Emma não pôde evitar o comentário. - Agora me conta... o que veio fazer nessa cidade escondida no meio do nada? - Não é uma cidade escondida. É uma cidade linda! - Sim, eu sei. Mas você tem jeito de que morava na cidade grande, fala como o povo da cidade grande, se veste como o povo da cidade grande... e veio parar aqui, numa cidade com um pouco mais que vinte mil habitantes. O que houve? Você matou alguém? Emma não controlou a gargalhada. Ambas riram bastante antes que Emma começasse a falar: - Na verdade, acho que eu queria desacelerar um pouco, entende? Queria uma mudança real de vida e encontrei. – Respondeu com um fôlego só. - O que fazia antes de vir para cá? – Molly estava mesmo interessada em saber sobre a vida antiga de Emma. - Eu tinha uma empresa de tecnologia e vendi. – Mentiu. – Aliás, vendi todas as minhas coisas. – Continuou mentindo. Emma não podia se dar ao luxo de revelar nada sobre seu passado. Aquele lugar, aquelas pessoas, representavam o seu recomeço. - Entendi. Vender algo dessa natureza dá uma boa grana. Acho que você fez um bom investimento comprando a Casa Rosa, sabe? Ela tá caidinha, é verdade, mas tenho certeza que meu irmão irá conseguir arrumar rapidinho. - Meu Deus, o seu irmão! – Emma assustou com a lembrança do compromisso que havia marcado com Mark na Casa Rosa. – Eu estou atrasada! - Relaxa, gata! – Molly parecia calma demais – Ele precisou ir à casa de nossos pais e disse que passaria aqui antes de ir encontrar você. - Que alívio! Achei que estivesse atrasada. - Uma das vantagens de morar em cidade pequena é que as vezes parece que o tempo demora um pouco mais a passar do que na cidade grande. - É... percebi.  *** Caros leitores e leitoras, Siga meu perfil aqui na Dreame e siga também minhas histórias. Isso me incentiva muito a continuar escrevendo. P.S.: Todas as histórias estarão totalmente atualizadas a partir de 05.09.21 – Todas elas estão sofrendo segunda revisão, por esta razão, algumas estão incompletas. Como é a primeira vez que publico nesta plataforma, ainda estou testando. Mas prometo que todas as histórias estarão atualizadas a partir da data acima. Obrigada por lerem minhas histórias!  ***
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