Os segundos pareciam eternidade enquanto espero aflita nesse corredor frio com paredes desbotadas nas cores branco e azul. Eu sabia que estava andando de um lado para o outro com os olhos abertos, mas na verdade não via nada na minha frente. A única coisa que eu conseguia enxergar era o rosto da minha mãe em sofrimento como vi várias vezes enquanto orava sem cessar, sentindo meu coração acelerado de nervoso e medo.
Clamei com toda minha fé, repetindo várias vezes a minha petição angustiada, crendo no poder de Deus e nas habilidades do doutor que já nos ajudou tantas vezes nesses últimos meses.
Já tinha me sentido sozinha antes, mas dessa vez foi muito pior. A sensação que tive é que estava sozinha em um mundo frio e triste.
‘Saber que mais uma vez ela não está bem e que eu não posso ajudá-la me mata aos poucos por dentro.’
Não sei quantas vezes caminhei diante da porta do quarto passando de um lado para o outro, sentindo uma grande vontade de adentrá-lo para ver o que eles faziam enquanto ouvia a movimentação e os gritos do doutor, mas me contive e esperei até que em determinado momento o silêncio imperou lá dentro. Nessa hora o mundo pareceu silencioso, a minha ansiedade cresceu e tudo o que pensei foi:
‘Eles conseguiram?’
O tempo parou nesse corredor enquanto eu focava na porta que parecia nunca se abrir até que de repente ela se abriu e o doutor Mário apareceu com seu olhar penetrante, vindo em minha direção. Não sei como mas meus pés me levaram até ele em questão de segundos enquanto eu pergunto esperançosa:
—E então doutor, ela está bem? Posso ver a minha mãe agora?
Eu esperava que seu sorriso gentil surgisse como sempre acontecia, mas isso não aconteceu. Pelo contrário, pela primeira vez ele permaneceu sério demais, me fazendo perguntar novamente:
—Fala doutor, como ela está? Conseguiu estabilizá-la, né?
Enquanto aguardava a resposta pude ver seu pomo-de-adão se movendo devagar, deixando claro que ele engoliu com dificuldade como se estivesse entalado demais para falar, o que começou a me deixar mais nervosa e com pensamentos pessimistas.
—Fala doutor, diz que minha mãe está bem. Fala que conseguiu… por favor.
Insisti mais agitada vendo seu rosto ficar triste até que entre palavras não ditas eu entendi a sua resposta.
—Não… diz que ela está bem, doutor, por favor. —Pedi sentindo meus olhos arderem o agarrando nos braços com força, olhando em seus olhos.
—Eu sinto muito, Júlia.
A sua confirmação fez o medo me assolar, o desespero me atingir, o ar faltar, minhas pernas falharem até que eu começasse a desfalecer. Por um momento senti minha visão escurecendo como se a alma estivesse saindo do meu corpo e flutuando no ar ao mesmo tempo que uma vertigem tenta roubar minha consciência.
‘Não Deus…’
Eu não queria acreditar, não queria me entregar, mas não consegui resistir. Fui engolida pelo breu que roubou meus sentidos, minha visão e consciência.
(...)
Não sei quanto tempo se passou, mas acordei aos poucos, me sentindo confusa, sonolenta e sem saber onde estava. Meus olhos pesados não me permitiam observar direito, insistiam em se fechar sozinhos. Tentei mexer a mão, também não tive muito sucesso então tentei chamar:
—Mãe…
A voz saiu mais baixa do que eu gostaria, mas pelo menos alcançou alguém. Em segundos o rosto do doutor Mário apareceu na minha frente e eu pude ouvir:
—Júlia, que bom que acordou.
‘Eu estava dormindo?’
No primeiro momento não entendi muito bem o porquê eu estaria dormindo, mas aos poucos ao olhar para ele as lembranças foram voltando e a realidade me atingiu em cheio, me fazendo lembrar que meu maior pesadelo tinha começado.
'Minha mãe faleceu!’
Meus olhos se encheram de lágrimas e o choro rompeu sem controle enquanto eu voltava a perguntar a ele:
—Doutor, diz que eu não entendi errado. Diz que ela está viva.
—Eu sinto muito Júlia, mas não posso dizer isso. Me desculpa, mas sua mãe não se encontra mais em nosso meio.
Nunca as palavras me causaram tanta tristeza de uma vez.
A dor se intensificou ainda mais em meu peito, quebrando meu coração em milhões de pedaços.
Era isso, o sonho tinha acabado. A realidade agora se tornava c***l e implacável. Desse momento em diante sou órfã neste mundo enorme e perigoso. Serei obrigada a me virar sozinha e a viver sem o amor de sequer um familiar.
Desolada, virei o rosto para o outro lado buscando um pouco de privacidade e deixei as lágrimas rolarem como queriam, sentindo elas esquentarem meu rosto enquanto ouvia a voz mansa dele ao meu lado:
—Eu fiz tudo que pude Júlia, insisti o máximo que pude, mas …
Eu não queria ouvir isso, queria a minha mãe de volta então em silêncio me virei ficando de costas para ele, fechando os olhos, encolhendo os joelhos e os abraçando com força, buscando um pouco de conforto e proteção para sofrer como precisava.
(...)
Não sei quanto tempo fiquei assim, colocando a dor pra fora mas aos poucos o desespero foi passando, o choro foi cessando e eu fui me acalmando. Só aí eu percebi que o doutor permanecia em pé ao meu lado, com a mão na minha cabeça como se dissesse mesmo sem palavras:
‘Eu estou aqui!’
Envergonhada, me virei devagar percebendo que ele ainda me olhava com atenção e tristeza então pedi:
—Desculpa pela minha reação, eu não consegui evitar… —O choro voltou a mostrar sua cara, mas ele se antecipou.
—Tudo bem, eu te entendo! Sou eu que tenho que pedir desculpas. Não consegui ajudar dessa vez …
No fundo eu sei que ele fez tudo o que estava ao seu alcance e que não conseguiria impedir para sempre que esse momento chegasse, então respondi segurando sua mão mesmo sofrendo com a perda:
—Eu sei que fez o seu melhor doutor e agradeço muito por isso.
Foi evidente que ele não esperava ouvir isso, me olhou surpreso, em seguida olhou nossas mãos e por fim usou a mão livre para cobrir a minha, fazendo um carinho gentil falando:
—Eu sei que está com medo, Júlia, mas não precisa ficar. Eu vou ajudá-la no que eu puder!
Eu não tinha dúvidas que preferia que minha mãe estivesse viva, mas confesso que nesse momento suas palavras trouxeram um tipo de consolo ao mesmo tempo que diminuiu um pouco o sentimento de solidão que eu sentia.
—Obrigada!
A gente permaneceu assim por um tempo, ele me consolando com a sua presença e sua carícia gentil enquanto eu tentava entender o que tudo aquilo significaria até que ele se afastou por alguns minutos saindo do quarto, voltando depois e perguntando:
—Está se sentindo melhor agora?
—Um pouco.
—Ótimo, porque é hora de sairmos daqui.
‘Sua frase me fez pensar já falando em voz alta.’
—Não quero ficar naquela casa sozinha.
—Não se preocupe com isso, hoje você vem pra minha casa comigo e depois a gente vê o que pode ser feito.
Eu não esperava por isso, fui pega de surpresa, mas dada as circunstâncias que me encontro aceitei de bom grado concordando com a cabeça porque entre as poucas pessoas que conheço, ele sem dúvidas é o mais próximo de uma amizade que eu tenho atualmente.