Acordo com a sensação de que o meu cérebro ainda está processando tudo de ontem.
Não foi um desastre..., mas também não foi exatamente um conto de fadas corporativo.
Pelo menos eu não derrubei café em ninguém.
Especialmente no Harry Cooper — que, honestamente, teria me demitido no ato.
Ou pior: teria feito aquela cara dele.
Aquela mistura de tédio, irritação e julgamento profissional.
Um combo perfeito.
Respiro fundo, arrumo o cabelo e vou para o trabalho, tentando mentalizar calma, profissionalismo e maturidade.
Assim que entro na agência, a primeira coisa que vejo é Bethany encostada no balcão da recepção conversando com duas pessoas. Ela me lança um olhar de cima a baixo — rápido, preciso e afiado como faca recém-amolada.
Ótimo.
Ela já começou.
— Bom dia, Madison — ela diz com uma doçura tão falsa que até o carpete deve ter sentido. — Dormiu bem? Ou ficou ensaiando como impressionar o Harry hoje?
Eu sorrio. Bem largo.
— Dormi maravilhosamente.
Ela pisca como quem diz veremos por quanto tempo.
Subo para o setor e começo a organizar o meu computador, meu caderno, meus arquivos. Estou no meio da leitura de um manual interno quando ouço passos aproximando.
Bethany.
De novo.
— Menina... — ela apoia um amontoado de relatórios na minha mesa. — Precisei imprimir isso para você, já que o Harry é tão exigente. Não quero que você cometa erros logo no começo.
Ela fala como se estivesse oferecendo ajuda.
Mas cada palavra dela vem embrulhada com veneno.
— Obrigada — digo, folheando os papéis. — Eu mesma já tinha pedido para o sistema abrir o acesso, mas agradeço.
Ela sorri.
— Claro. Só achei que você podia não saber como funciona.
CONTAR ATÉ TRÊS.
Respirar.
Não bater na loira que definitivamente sabe exatamente o que está fazendo.
— Eu aprendo rápido — respondo, firme.
Bethany se inclina um pouco, como se quisesse confidenciar um segredo.
— O Harry gosta das coisas perfeitas. E está acostumado com pessoas... digamos... capacitadas ao redor dele. Ele não é muito paciente com erros.
Eu inclino a cabeça.
— Que bom que eu também não sou muito paciente com falta de profissionalismo.
Ela pisca.
O sorriso some por um segundo — só um — e eu saboreio a sensação de ter acertado.
O resto do dia continua exatamente como começou:
Bethany passando pela minha mesa "só para verificar";
Bethany elogiando com sarcasmo;
Bethany comentando "nossa, você ainda tá nisso?" sempre que eu estava em silêncio;
Bethany aparecendo toda a vez que Harry vinha ao setor.
Sim.
Porque Harry apareceu. Mais de uma vez.
Ele não falou comigo diretamente — só pediu relatórios, entregou documentos, fez mil exigências sem olhar na minha direção.
Mas eu senti.
A presença dele.
E, claro, Bethany grudava nele a cada entrada, como se estivesse marcando território.
Quando o expediente finalmente acaba, eu só quero água, ar fresco e terapia.
Mas encontro algo melhor:
Taylor me esperando no térreo, sentada no sofá com um copo enorme de cappuccino.
— Dia dois: você sobreviveu ou quase morreu? — ela pergunta, levantando os braços para me abraçar.
— Sobrevivi por pouco — respondo, largando o meu corpo no sofá ao lado dela. — A Bethany tentou me desestabilizar umas vinte e três vezes.
— Eu imaginava — Taylor faz uma careta. — A cara dela já diz "eu mando aqui".
— Não manda. Mas tenta.
Taylor ri e se levanta, animada.
— Então vamos sair. Você precisa de comida, álcool e falar m*l das pessoas sem remorso.
— Preciso mesmo — admito, pegando a minha bolsa. — Muito.
— E vamos combinar — ela acrescenta enquanto caminhamos para a saída do prédio — você ficou calminha demais para alguém que trabalha tão perto do Harry Cooper.
— Taylor —
— O homem é irritante, sim. Mas também é bonito, e isso piora tudo.
— Cala a boca — digo, rindo.
Ela passa o braço pelo meu enquanto descemos a escada.
— Madison, Madison... eu te conheço. Quando começa a ficar irritada assim... é porque alguém mexeu com você.
— Ele não mexeu comigo — afirmo.
— Aham — ela sorri. — Vamos conversar de novo depois de duas taças de vinho.
Saímos do prédio juntas, rindo, o vento frio batendo no rosto — e eu finalmente sinto o dia pesar menos.
Mas, por algum motivo que me recuso a analisar, antes de virar a esquina...
...eu olho para cima.
Para a janela do setor de criação.
E por um segundo — um segundo muito rápido —
Acho que vejo uma silhueta conhecida observando a rua.
Mas deve ter sido impressão.
Certeza.
Eu balanço a cabeça, ignoro e sigo com a Taylor.
Porque se tem uma coisa que eu não vou admitir tão cedo...
...é que Harry Cooper está começando a ocupar espaço demais na minha mente.
Enquanto caminhamos para o pub mais próximo, minha mente insiste em revisitar cada momento do dia. Cada gesto de Bethany, cada sorriso forçado, cada toque leve no braço de Harry que parecia marcar território, tudo parece maior na minha cabeça do que realmente foi.
— Então você quer me contar o que ele fez hoje? — Taylor pergunta, sorrindo com aquela malícia que só ela consegue.
— Nada direto — respiro, balançando a cabeça. — Mas eu senti. Cada vez que ele entrou no setor, parecia que o ar mudava. Que todo mundo se encolhia só de ele estar ali.
— E o que você sentiu? — ela insiste.
— Que ele… não sei. Que ele está sempre um passo à frente de todo mundo. Inclusive de mim. — Solto um suspiro, tentando parecer indiferente, mas sem sucesso.
Taylor solta uma risada curta.
— Ah, Madison… você já está admitindo que ele te irrita mais do que deveria.
— Eu não admito nada — digo, mas o calor sobe aos meus braços mesmo assim.
Olho para cima novamente, por instinto, sem perceber, imaginando se ele estaria olhando de alguma das janelas, se estaria avaliando cada passo meu.
Não, não. Impossível. Só impressão.
Mas o pensamento persiste, silencioso, insistente.
Porque, admito para mim mesma, ele mexe comigo — e isso é ainda mais irritante do que qualquer provocação de Bethany.