Eu não tinha planos grandiosos quando decidi voltar para Canterbury. Só queria paz, distância do caos de Londres e um emprego onde ninguém gritasse comigo às nove da manhã.
Então, é claro, o destino decidiu rir da minha cara.
Richard Cooper — sim, o Richard Cooper, dono da agência de publicidade mais respeitada da cidade — me ligou pessoalmente.
Eu achei que era trote.
Quem liga pessoalmente? Chefes não fazem isso. Chefes mandam e-mails frios e impessoais.
— Vi alguns dos seus trabalhos em Londres — ele disse, com aquela voz de diretor de filmes. — Quero que venha trabalhar comigo.
Só depois que desliguei é que percebi que ele realmente estava falando comigo. Madison Bennett. 25 anos. Zero glamour. E um currículo bom, mas não o bastante para um telefonema de um Cooper.
E agora estou aqui, no meu minúsculo apartamento alugado, encarando o uniforme não oficial da agência: um blazer que não amassa, calças escura confortável e sapatos que espero não destruam os meus pés no primeiro dia.
Olho o espelho novamente.
— Você consegue — digo para mim mesma, passando batom como se isso fosse mudar o destino da minha vida.
O problema não é o trabalho em si.
Eu gosto de trabalhar.
Gosto de montar campanhas, negociar com clientes, pensar rápido.
O problema é:
E se eu estragar tudo?
E se eu não for tão boa quanto o Richard acha?
E se todo mundo achar que sou jovem demais?
Solto o ar devagar, tentando não arruinar o delineador que lutei para fazer igual dos dois lados.
Meu celular vibra.
TAYLOR 🤍:
Amiga, você vai ARRASAR. Se Harry Cooper for bonito como dizem, me manda foto.
Reviro os olhos, mas sorrio.
Taylor é meu porto seguro desde a faculdade.
O tipo de pessoa que oferece um abraço, uma bebida e ameaças físicas ao mesmo tempo.
Respondo com um áudio rápido porque minhas mãos estão tremendo:
— Eu não vou tirar foto escondida do meu chefe no primeiro dia, Taylor. Pelo amor de Deus.
Encosto as costas na parede.
Chefe.
Harry Cooper.
Eu fiz uma pesquisa rápida na internet — obviamente.
Fotos dele em eventos da agência, palestras, prêmios...
O homem parece saído de um catálogo de ternos italianos.
Loiro. Alto. Cara de "faço reuniões e destruo corações antes do café".
Mas o que realmente me chamou a atenção foram os comentários nos fóruns corporativos:
"Genial, mas impossível de agradar."
"Exigente. Temperamental."
"Tem padrões inatingíveis."
Exatamente o tipo de pessoa que vai amar ter alguém de 25 anos como gerente de contas na equipe dele...
Ótimo.
Perfeito.
Maravilhoso.
Coloco um pouco de perfume no pulso e pego a minha bolsa.
Meu coração está acelerado, mais do que deveria. Talvez medo, talvez ansiedade, talvez pura adrenalina.
Porque, no fundo, eu sei que essa chance pode mudar a minha vida.
Mas também sei que trabalhar para os Cooper significa enfrentar um universo que sempre esteve muito acima de mim — até hoje.
Fecho a porta do apartamento e desço as escadas.
O ar da manhã está frio, típico de Canterbury.
Perfeito para acordar qualquer pessoa... ou para lembrar que você pode estar prestes a entrar na boca do lobo.
Enquanto caminho até o prédio da agência, repito mentalmente:
Você tem talento.
Você trabalhou duro.
Você merece estar aqui.
A caminhada até a Cooper & Co. é curta, mas suficiente para minha mente criar cenários demais. Imagino corredores frios, pessoas sérias demais, olhares avaliadores demais. Imagino errar um nome, tropeçar, dizer algo e******o logo no primeiro dia.
Imagino Harry Cooper.
Não como nas fotos perfeitamente produzidas, mas como alguém real. Provavelmente impaciente. Provavelmente acostumado a ser obedecido. Provavelmente irritado por ter alguém como eu aparecendo na equipe dele sem aviso.
Essa parte eu evito pensar muito.
O prédio surge à frente como uma afirmação silenciosa de poder. Vidro, linhas retas, zero tentativa de parecer acolhedor
E então vejo o letreiro brilhando acima da entrada:
COOPER & CO. ADVERTISING
Paro por um segundo antes de entrar.
Meu estômago dá uma volta.
Respiro fundo.
Não porque estou prestes a conhecer alguém importante, mas porque estou prestes a provar, para mim mesma, que não fugi de Londres para me esconder. Voltei para começar de novo — mesmo que isso signifique enfrentar pessoas que claramente não me esperavam.
Mesmo assim, empurro a porta de vidro e entro.
Pronta — ou não — para conhecer Harry Cooper.
O saguão é amplo demais. Bonito demais. Profissional demais. Me sinto deslocada por exatos cinco segundos, até lembrar que ninguém ali sabe de onde eu vim — só o que consta no meu currículo.
Digo o meu nome na recepção. A mulher sorri, confirma algo no computador e pede para eu subir.
O elevador demora. Meu reflexo no espelho interno parece mais sério do que eu me sinto. Ajusto o blazer, endireito a postura. Não por vaidade, mas por necessidade.
Quando as portas se abrem no andar do departamento criativo, o ritmo me atinge de imediato. Pessoas andando rápido, conversas cruzadas, telas acesas, café sendo consumido como se fosse combustível de sobrevivência.
Ninguém presta atenção em mim.
Isso deveria me tranquilizar.
Mas só aumenta a sensação de que estou entrando em um organismo que funciona perfeitamente sem saber que eu existo.
Caminho seguindo as instruções que me deram, tentando não parecer perdida. O corredor se curva mais à frente — e eu acelero um pouco o passo, querendo chegar logo à recepção do andar, acabar com essa fase de chegada.
É quando tudo acontece rápido demais.
Dobro a esquina sem olhar direito.
E bato em alguém.
Forte.
Quase derrubo alguma coisa quente.
— d***a! — escapa antes que eu consiga filtrar.
Seguro a bolsa por reflexo e ergo o olhar, pronta para pedir desculpa…
…e dou de cara com ele.
Alto. Postura rígida. Olhar claro e imediatamente irritado, como se o mundo tivesse acabado de cometer um erro imperdoável ao encostar nele.
Meu estômago afunda.
Não preciso de apresentação.
Esse só pode ser Harry Cooper.
E pela expressão no rosto dele, a segunda-feira dele acabou de ficar muito pior.
Assim como a minha.