PRÓLOGO
Eu tenho uma pergunta para vocês...
Qual foi o ser humano i*****l que criou o estresse?
— Me diz que não vou precisar comprar mais raç... Por quê eu ainda pergunto? — encarei o Rick, que comia uma quantidade parecida (ou até igual!) a um bando de homens famintos! E ele é um cachorro! — Eu não entendo como consegue comer duas tigelas enormes de ração em seis horas, você precisa ser estudado pela NASA, Rick. — continuei resmungando, como se o coitado conseguisse me entender, mas ele apenas me seguiu, abanando o r**o e esbarrando nas minhas pernas algumas vezes.
Viver sozinha foi algo com que sonhei durante anos. Em meus devaneios, vislumbrava um apartamento aconchegante e espaçoso, com uma bela cozinha, dois quartos, sendo um deles uma suíte. Uma estante maravilhosa para deixar os meus livros em destaque. E os meus diplomas também. E, sim, eu consegui isso tudo. E, ainda mais um documento provisório — lê-se: subornei o síndico — que me permitia ter o meu lindo husky siberiano sem restrições dentro da minha casa.
O que é uma grande conquista, já que eu nasci em um bairro pobre e com uma família de sete pessoas vivendo apenas com um salário mínimo. O que levanta um questionamento importante sobre tudo... Como uma garota humilde e que aparentemente não tinha como progredir na vida, conseguiu tudo isso?
Não, essa não é uma história de máfia, não dormi com um CEO rico e ele se apaixonou apenas com uma f**a sensacional ou muito menos fiz um acordo de casamento falso com um dos Príncipes da Checoslovákia, eu simplesmente passei parte da minha vida com a b***a colada na cadeira, estudando, abrindo mão de coisas "fúteis" e agora administro um dos maiores shoppings do país.
O problema, é que posso ter sonhado e conquistado tudo o que desejei, porém nunca pensaria que o trabalho que tanto amo poderia ser tão estressante. Principalmente em períodos de crise.
Suspirei, jogando o resto do saquinho de ração dentro da tigela do cão mais esfomeado do mundo. Rick me fitou durante alguns segundos, talvez esperando que eu mudasse de ideia e o impedisse de comer. Fico até com um pouco de vontade de rir, ele realmente puxou a dona.
Agora pensem como foi para uma garota que não nasceu em berço de ouro, n***a e acima do peso, conseguir contornar inúmeros preconceitos e sentar na cadeira da chefia, como superintendente do Imperium? Sim, o nome já diz muito sobre o lugar, certo.
Ter o nome "Joyce Ribeiro" gravado numa plaquinha de prata na melhor sala — só não é melhor que a do Dr. Guilherme, o dono da "p***a toda" — era a prova de que ninguém nunca deve se deter ao que dizem, ao que estipulam que pode alcançar. Se você almeja mais, busque.
Interrompendo todos esses meus pensamentos motivadores, Rick pulou em mim e eu segurei suas patinhas, rindo baixo. Esse chamego todo só se devia a um motivo e os meus olhos caíram nele no mesmo instante: a tigela vazia.
— Você vai acabar mais gordo que eu! — gargalhei quando, parecendo me entender, ele torceu o focinho, se desvencilhando de mim e correndo para a sua casinha no canto da sala. — Você come mais que o Scooby-Doo! Vou te levar para um veterinário! – aquele bendito cachorro virou o r**o para mim! Eu mereço isso? — Rickonaldo da Silva Sauro! — berrei e um latido soou como deboche.
Até o cachorro tem querer.
Tô dizendo que essa vidinha de meu Deus só quer me manter com os níveis de estresse lá no alto.
Olhei os saltos descansando perto da porta e, quase chorando, os calcei novamente. Quem tem filho é assim, não vou deixar o meu único companheiro sem comida. Apesar, que com essa correria, até a minha geladeira está pedindo socorro. E, por mais que seja sexta-feira, assim que peguei o celular tinham mais de mil mensagens, quarenta ligações e vários e-mails para ser lidos e respondidos.
E olhem que só fiquei umas duas horas sem pegá-lo.
Rick sentou na frente da porta enquanto eu a fechava, já esperando sua próxima refeição. Colada no celular, andei até o elevador, apertando o botão e voltando para digitar como uma louca. Funcionários, funcionários, mais funcionários, alguns gerentes pedindo a pauta da reunião mais recente...
Ah, Dr. Guilherme!
"Joycezinha do meu coração, por favor, tem como voltar para cá à noite? Precisamos discutir e fechar alguns poréns sobre as próximas atrações e a quantia de investimento nos projetos sociais".
Revirei os olhos. Isso não é trabalho, é exploração.
Resolvi responder logo, enquanto o bendito do elevador parecia estar com uns probleminhas de lerdeza.
"Você é o chefe, não pode fazer isso sozinho?"
Sim, eu falo assim com ele. Liberdade é uma coisa complicada.
"E você é paga justamente para fazer com que as coisas que eu penso, aconteçam" — o bipe da mensagem veio junto com o do elevador. Sai digitando e andando. De forma alguma voltaria lá novamente, ontem passei o dia todo lá, correndo para um lado e para outro, gritando e apontando. Isso cansa. — "E outra, nós dois sabemos que ama esse shopping na mesma intensidade que eu". — mandou outra mensagem, m*l me dando chance de responder a outra.
Falar do meu apreço pelo lugar que me acolheu assim que sai da Universidade é golpe baixo. Até para o Guilherme.
Suspirei.
"Ok. Vou organizar algumas coisas por aqui e voltar assim que der. O Nick tá com fome."
A mensagem fica azul no mesmo instante e eu dou risada. Nunca vi um empresário tão desocupado!
"Tá bom. Diga ao garotão que estou com saudade de ser derrubado por ele."
É, ele já veio na minha casa.
Mas agora não é hora para desenvolver esse pedaço da história.
Então, continuemos com a nossa programação que parou na minha aventura quase dantesca para comprar só alguns engana-estômago para eu e o meu cachorro comermos, apenas para nos manter vivos até que eu tome vergonha na cara, arranje tempo e realmente vá fazer uma grande feira. Coisa que meus armários e cozinha estão implorando faz meses.
Só precisava de um canto para quebrar esse galho...
E nada melhor que uma padaria/mercearia, certo?
Quando esse estabelecimento abriu ao lado do condomínio, eu quase convoquei um coral para cantarmos em alto e bom som uma "Aleluia". Sou frequentadora assídua, — até porque pão é vida — e é um lugar bem família. E, contra todas as leis do Universo e teorias da Conspiração, a academia é bem na frente.
Na época em que cismei de virar uma pessoa saudável e "fitness", eu malhava como uma louca e logo depois do treino me "recompensava" com refrigerante e coxinha. Eu até tentei, mas acabei notando que isso não iria dar certo, então aceitei que a única malhação que eu iria fazer era levantar o garfo até a boca e ponto final.
Entrei na padaria, cantarolando uma das músicas eletrônicas que estouravam no caixa da academia. Seria idiotice ressaltar que o lugar todo cheirava a pão? E que isso deveria ser tomado como a nona maravilha do mundo?
Talvez, né.
— Pensei que não viria! — Jane disse. Ela e o marido são os donos da padaria, os dois cuidam do lugar com a ajuda de alguns funcionários e até o ampliaram para uma mercearia que supre as necessidades básicas de qualquer um.
Esperem.
Antes de prosseguirmos com a nossa história, preciso explicar algumas coisas:
Juro por tudo que é sagrado — e até pelo que não é também — que não fiz de propósito.
Juro juradinho.
De midinho e tudo.
Continuando...
Sorri para ela, já empurrando um dos carrinhos em direção aos pães. O velho e simpático Antônio passava os dedos pelas sacolas, concentrado em marca-las com o preço e etiquetar alguns outros produtos. Graças a Deus não tinha uma fila imensa.
— Boa noite, seu Antônio — Cumprimentei, quase cantarolando.
Ele se virou, exibindo um sorriso largo quase coberto pelo enorme bigode branco.
— Minha linda! — Pousou a mão sob a minha — Boa noite! Está muito bonita, viu? — Soltei uma risadinha sem graça com o elogio, mesmo sabendo que era pura gentileza. Tinha trabalhado num ritmo de 12/24, estava com a mesma roupa de ontem, apenas com a maquiagem retocada e um perfume.
— Obrigada! — Retruquei e inspirei o cheiro do pão quentinho, me controlando para não fechar os olhos. Estava morrendo de fome. — Coloque o de sempre para mim! — Pisquei e não precisei pedir de novo, o saco grande e fumegante de pão apareceu no meu campo de vista. Meu instinto de gorda pediu para agarrá-lo e sair correndo, mas, como sou uma pessoa normal (ao menos é o que acho) só o peguei, sorrindo como uma criança que acabou de ganhar um pirulito.
— E que seja feita a sua vontade, tanto no Céu quanto na Padaria! — Brincou, arrancando-me uma risada. Descansei os pães no carrinho, acenando para ele.
— Obrigada de novo! — Exclamei, já começando a pegar as outras coisas que me interessavam por ali. Alguns biscoitos recheados e uns deliciosos salgadinhos caseiros. O lugar, em geral, era aconchegante. Espaçoso, com cerâmicas brancas e uma iluminação boa, os corredores e a parte dos frios.
Bem, se eu soubesse o que me esperava nessa parte, eu, talvez, tivesse esquecido a vontade maluca de comer um sanduíche recheado e passado bem longe dali. Mas, como não sou a Mãe Diná e nem poderia prever tudo, continuei a minha jornada de compras.
E quase atropelei um ser alto que passou na frente do carrinho.
Eu já sou meio descoordenada e essa criatura passa assim!
— Dá pra olhar por onde anda? — Reclamei, tendo o vislumbre do boné azul do Vítor. Sabe aquela pessoa que tem todas as coisas ao seu dispor e não aproveita? Bem, ele é assim. Teve uma ótima base escolar (oportunidade que não tive nem de longe), mas... É aquele dito popular do "quando muito se tem pouco se almeja". — Eu não pagaria indenização alguma se te atropelasse.
— Devo colocar um alerta na parede para te impedirem de pegarem um carrinho? — Ah, e é filho do dono da Padaria. Antes que deduzam algo. Definitivamente não. O meu complexo de Magali não vai tão longe ao ponto de me fazer ficar interessada pelo Vítor. E também o fato de acha-lo extremamente imaturo.
Cansada demais para discutir, apenas soltei um suspiro debochado e me virei, dobrando o corredor. Alguns minutos depois, já tinha adiantado mais da metade das compras, conversado com uns conhecidos e cantarolado outras músicas da academia.
Resmungando, joguei o pesado saco de ração do Nick no carro.
— Agora só faltam uns iogurtes... — Sim, eu falo sozinha, não me julguem. —... Requeijão e... Ah! O meu queijo! — Bati na testa, repreendendo a minha própria memória por ser tão r**m. Volto a andar, me encaminhando para área dos frios e amaldiçoando a minha preguiça de procurar uma sandália para calçar antes de vir para cá. Meus pés estavam pedindo socorro dentro do salto.
Antigamente, quem me atendia era o Vítor.
Entretanto, agora um ser... Como eu posso dizer?
Acho que "lindo" não seria suficiente, porém, é o adjetivo que vou usar.
Bem, um ser lindo está no lugar dele.
Como sempre, apenas lhe lancei um "boa noite" baixo e ele continuou numa conversa bem animada com outra cliente. Calada, abri o freezer, colocando algumas besteiras — lê-se: meu almoço — no carrinho, aquelas lasanhas congeladas e outras porcarias que estão contribuindo que eu mantenha as minhas celulites no mesmo lugar.
— Obrigada! — Ela agradeceu, levando alguns saquinhos e saindo daquela área. Olhei de soslaio, vendo-o se debruçar no balcão e me encarar. Calmamente, tentei ignorar e continuar. Mas, infelizmente, eu não podia colocar os meus próprios frios.
— Pode colocar quinhentos gramas de cada queijo para mim? — Pedi, coçando a garganta no processo. O tal rapaz sorriu, assentindo. Ele trocou de luvas e eu me encostei, soltando um suspiro cansado. Eu já havia sido atendida por ele algumas outras vezes, mas estava apressada demais para prestar atenção em algumas coisas...
A pele alva e o cabelo castanho claro cintilavam sob a luz do ambiente. De forma automática, minha língua roçou nos dentes incisivos, me fazendo salivar. Eu tenho uma coisa chamada: Odaxelagnia. Na definição pura é a vontade de morder e de gostar de mordidas.
Aí vem o destino coloca um pescoço delicioso pedindo para ser mordido.
Clamando.
Pedindo "por favor".
Quase implorando.
E o que eu, Joyce, faço?
Fico só na vontade, óbvio.
Ele puxa um dos blocos amarelos, posicionando-o na máquina enorme de corte. Meus olhos caem nos bíceps apertados sob a camisa polo vermelha e branca com o timbre da padaria e um dos fios escapando e caindo perto dos olhos. O movimento lento e concentrado me prende e não deixo de notar as veias saltando pelo braç... É impressão minha ou estou observando demais?
Remexi-me, pigarreando e resolvendo fazer outra coisa que não fosse ficar ali, encarando o coitado como a Maníaca do Parquinho.
Parecendo adivinhar, na hora em que estou caminhando e prestes a abrir a porta de uma das enormes geladeiras, para me ocupar em escolher os iogurtes, ele parou de cortar e me olhou.
Depois disso, tudo aconteceu rápido demais.
Parte da minha mente processou a cor chamativa dos olhos claros dele.
E a outra parte se esqueceu do equilíbrio porque era coisa demais para lidar e eu cai.
Foi uma quase queda.
Minhas pernas se desestabilizaram e a ponta do salto escorreu pela cerâmica, fazendo com quê a minha perna direita se abrisse de um jeito insano. E, só não meti o queixo no fim do refrigerador, porquê, no desespero, me agarrei na alça da geladeira.
No mesmo segundo, uma risada alta e grossa irrompeu o ambiente.
— Meu Deus! — Ele chiou no meio da gargalhada, me encarando.
Puxei o ar algumas vezes, tentando digerir o que acabou de acontecer e me ergui.
Soltei uma risada nervosa.
— Ia ser uma queda bonita, viu! — Comentou e eu ergui as sobrancelhas. Tudo bem, até eu caçoaria de mim numa situação dessa... Mas, ele poderia ter um pouquinho de censo e parar de rir? — Olha, você quer mais o qu... — Soltou mais uma risadinha e eu respirei fundo, pedindo paciência aos Céus — Desculpe... Vai querer mais o quê?
"Te esmurrar", pensei.
— Trezentos gramas de presunto... — Respondi, pois sou uma mulher civilizada.
Agora eu podia ver a cor exata dos olhos que quase me fizeram quebrar a perna.
Verdes.
Alguns traços mel e...
Ainda rindo de mim.
— Você nunca caiu?! — Resmunguei, recebendo um dar de ombros enquanto ele posicionava algumas fatias do frio no pequeno saquinho. Um sorriso torto apareceu nos lábios rosados.
— Não desse jeito... Cara, como eu queria uma câmera! Devia ter gravado!
Entediada, o fitei.
— Ok. Ok... — Pareceu (finalmente) notar que eu não estava me divertindo muito. — Mas tem que admitir... Foi muito engraçado! — Ergui as sobrancelhas e, mais uma vez, ele riu.
— A culpa foi do chão! — Cruzei os braços, empinando o queixo de forma autoritária.
Isso funcionava bem no trabalho.
Porém, ele só acenou, ainda sorrindo.
— Aham. Com certeza. — Debochou.
Bufei.
— Dá para me dar o meu presunto? — Estendi a mão, quase o puxando dele quando acaba de colocar a etiqueta. — Muito obrigada. — Grunhi, virando as costas e saindo dali batendo o pé. Mas não antes de evitar ouvir a gracinha que ele soltou.
— Cuidado para não cair de novo por aí! — Disse mais alto.
E mesmo irritada, soltei um sorrisinho de canto.
Fui para casa mancando, arrastando o peso insano das compras e com os saltos na mão.
Mas, apesar de tudo isso, os olhos verdes não saiam da minha mente.