A sala estava mergulhada em um silêncio quase estudado. A luz filtrava pelas cortinas, desenhando linhas douradas sobre os papéis espalhados pela mesa. Bia ajeitava cada folha com precisão, como se colocar ordem no caos físico pudesse também ordenar seus pensamentos. Um sorriso discreto curvou seus lábios — pequeno, mas intencional. Ela havia cometido um erro. Deixar Matteo ir sozinho ao ultrassom tinha sido um vacilo imperdoável. Agora, ele sabia. Ou, pelo menos, desconfiava. O cálculo era simples demais para passar despercebido: o dia da apresentação, o tempo decorrido, a internação de Ana Liz... As peças se encaixavam com uma clareza incômoda.
Mas Bia nunca deixava o medo durar muito tempo. Respirou fundo, endireitou a postura e começou a traçar o próximo movimento. Ainda dava para virar o jogo — ela sempre dava um jeito. A vantagem podia ser reconquistada, bastava escolher o alvo certo. E ninguém era mais útil do que sua mãe.
No café da tarde, o aroma de bolo fresco e café coado criava um falso senso de tranquilidade. Bia observava os gestos da mãe — as mãos inquietas, a expressão atenta, o olhar que procurava sempre o lado bom das coisas. Impressionável. Era a palavra perfeita.
— Você viu como o Matteo fica olhando para a Aurora? — perguntou Bia, doce, inocente, sem levantar os olhos da xícara. — Eu fico pensando... não quero julgar, claro. Mas às vezes as coincidências assustam, não é?
A mãe parou o movimento de levar o garfo à boca. Um franzir leve na testa. Um segundo apenas, mas suficiente. Bia notou a hesitação e soube que tinha plantado a semente.
— Ah, filha, será que você não está vendo coisa onde não tem? — disse a mãe, mas a voz já vinha carregada de dúvida.
Bia disfarçou o sorriso. — Pode ser. Às vezes eu interpreto demais...
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Apenas o som distante dos carros e o relógio marcando o passar do tempo. Bia, observando a espuma do café, sentia a satisfação crescer. Cada palavra deixada em aberto era uma pedra movida no tabuleiro. Ela sabia jogar — e jogava bem.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Matteo revisava mensagens antigas no celular. O ultrassom ainda lhe martelava a mente como uma revelação silenciosa, algo que ele preferia não acreditar, mas que já morava nele. Tinha começado a juntar provas. Pequenas coisas — horários inconsistentes, telefonemas interrompidos, comentários soltos. Cada peça se encaixava devagar, e quanto mais ele via, mais sentia o peso da verdade se aproximando.
Ainda não sabia exatamente qual era o perigo, mas sentia. Era uma presença sutil, manipuladora, movendo-se por debaixo da superfície. Lembrava do sorriso de Bia. Sempre perfeito, sempre ligeiramente ensaiado. E, sem que ela percebesse, Matteo começava a entender que aquele sorriso — tão doce — era, na verdade, um aviso. Algo estava prestes a acontecer. E quando viesse à tona, ninguém sairia ileso.
Aurora, por sua vez, sabia que Owen precisava estar ciente, embora a prioridade ainda fosse manter a estabilidade da menina e do casal. Ela chamou Owen depois de ver Ana Liz dormindo e disse:
— Vem, precisamos conversar... agora.
Owen respirou fundo, apreensivo.
— Owen, o que eu vou dizer… você acha que eu mudei por querer ficar, mas, na verdade, não consegui evitar. Então preferi que o Matteo não descobrisse de forma trágica. Quero lhe pedir antes de tudo: ouça o que vou falar, ok? — Aurora continuou, olhando firme para ele. — O Matteo descobriu sobre a Ana Liz. Bem, na verdade, no dia em que nossa filha passou m*l, ele veio me perguntar se Ana Liz era filha dele, mas encerramos porque ela começou a passar m*l. No dia em que você saiu para assinar a papelada de alta, a Bia também saiu, descobriu e eu não tive opção: precisei contar. Me perdoa, mesmo.
Owen ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. Um misto de surpresa e respeito tomou conta dele. Ele assentiu, compreendendo a gravidade da situação e o cuidado de Aurora.
Aurora olhou ao redor, pensativa, antes de continuar em voz baixa:
— Owen… acho melhor irmos embora antes que mais alguém perceba alguma coisa. Devemos sair discretos, sem levantar suspeitas. Podemos planejar cada passo para que nada se quebre. Matteo ainda precisa organizar os pensamentos dele, e Bia… bem, ela precisa continuar achando que tem controle.
Owen concordou, firme.
— Certo. Saímos juntos, silenciosos. Ninguém vai notar. Mantemos tudo sob controle até decidirmos o próximo movimento.
Enquanto isso, Matteo sentia a mudança sutil dentro de si. Não era mais apenas desconfiança: havia a certeza de que algo estava acontecendo, algo que exigia cuidado, estratégia e paciência. O sorriso discreto de Bia, o tom inocente das perguntas, até o silêncio da mãe — tudo agora era uma peça de um jogo maior. Ele percebia, pouco a pouco, que precisava agir com cautela. Mas o mais importante: proteger o que era dele, sem expor injustamente ninguém antes da hora.
Cada gesto, cada silêncio, cada coincidência começava a formar uma narrativa silenciosa. Não era paranoia — era lógica. O ultrassom, a internação de Ana Liz, o tempo decorrido… Tudo convergia para algo maior, algo que ele precisava observar antes de agir.
Matteo sentiu uma mistura de alívio e tensão. A filha agora tinha um lugar definido na vida dele, mas ainda havia perguntas não respondidas, peças do quebra-cabeça que precisavam se encaixar. E, no centro de tudo, havia Bia. Sempre planejando, sempre calculando. Ela tinha cometido um deslize, mas Matteo sabia que isso só aumentaria a cautela dela, e consequentemente, a complexidade do jogo.
E Aurora… ela já começava a pensar em se resguardar. Ir embora antes que mais verdades viessem à tona, antes que qualquer emoção ou desespero fizesse com que algo fosse perdido. A prudência era sua arma. Ela olhou para Owen, depois para Matteo, e respirou fundo. Agora, cada passo precisava ser medido, cada palavra pensada, cada movimento silencioso.
Porque, mais do que nunca, o tabuleiro estava armado, e a próxima jogada poderia mudar tudo.