O dia seguinte amanheceu frio em Maricá, com uma garoa fina que deixava as ruas brilhando sob a luz pálida do sol. Matteo e Aurora mantiveram distância proposital. Cada um imerso em suas tarefas, conscientes de que o afastamento era necessário — a presença de Bia ainda pairava como sombra, e qualquer descuido poderia revelar o que não deveria.Aurora dedicou-se à Ana Liz, preparando o quarto, brincando no jardim e mantendo a rotina perfeita, enquanto Matteo se concentrou nos próprios compromissos profissionais de engenharia civil, evitando cruzar o caminho da esposa. O silêncio entre eles não era vazio; era carregado de tensão, de pensamentos não ditos, e da certeza de que o próximo encontro seria explosivo.Quando Owen voltou da viagem de negócios em Londres, trazendo a logística e os documentos da transferência definitiva para o Brasil, a família se reuniu no jantar de boas-vindas organizado na casa de Dona Lúcia. A mesa estava posta com capricho, Ana Liz sorrindo animada ao lado do "pai" que a registrara por conveniência, mas os olhares trocados entre Aurora e Matteo carregavam eletricidade silenciosa.Em um momento, Aurora levantou-se para buscar mais suco na cozinha. Matteo a seguiu discretamente, não conseguindo resistir à tensão que os envolvia desde a noite fatídica. No corredor estreito, o toque foi quase instintivo: um beijo rápido, intenso, roubado — mãos que se encontraram por segundos, corações disparados. Mas o som de passos na sala os interrompeu abruptamente. Matteo se afastou imediatamente, deixando Aurora levemente corada, o ar ainda quente entre eles.Dona Lúcia entrou na cozinha instantes depois, o olhar perscrutador e firme, percebendo algo no clima carregado, sem ver o beijo, apenas sentindo a atmosfera tensa. Matteo saiu discretamente pela porta dos fundos, dando espaço para que mãe e filha ficassem sozinhas.— Tá tudo bem? — perguntou Dona Lúcia, direta, mantendo a postura dura de sempre, os braços cruzados. Seus olhos varreram o rosto de Aurora, procurando falhas na fachada perfeita. — Ana Liz… é mesmo filha do Owen?Aurora engoliu em seco, o coração ainda acelerado pelo instante anterior com Matteo. A pergunta caiu como um golpe preciso — a semente plantada por Bia começava a brotar. Ela segurou o copo com força, forçando um sorriso controlado.— Claro que é, mãe. Por que a pergunta agora?Dona Lúcia não piscou.
— Porque agora a gente tá vendo a menina de perto. Pela primeira vez. Esses olhos… Aurora, eu não sou boba. E o Matteo grudado nela desde que ela chegou…Aurora sentiu o chão tremer por dentro. O jogo de segredos estava mais perigoso do que nunca. Owen sabia da verdade, Ana Liz chamava ele de pai por registro legal, mas Dona Lúcia — com suas velhas desconfianças sobre a filha "problemática" — farejava algo além do que via.O silêncio que se seguiu dizia tudo: as máscaras estavam começando a cair, e cada movimento precisava ser calculado. Na sala, risadas inocentes de Ana Liz ecoavam, alheia ao furacão familiar que se formava.